"Sou avó materna. Meu neto de 28 meses agride a minha filha. Já tentamos tudo. Ele arranha, puxa lhe o cabelo e morde sempre que alguma coisa que ele quer lhe e recusado. O que fazer?"
Era uma manhã normal. Estava sol e fomos, eu e o meu filho de dois anos, até ao parque. Antes passámos pela biblioteca, onde ele adora ir e de seguida fomos dar comida aos patos no rio que passa aqui perto de casa. Estávamos os dois bem-dispostos e a aproveitar o bom tempo. De seguida, ele quis brincar saltando numa tampa de esgoto que estava meio solta e foi quando tudo começou. Eu não deixei que ele saltasse e imediatamente ele se atirou para o chão num drama que (quase) só as crianças protagonizam. Levantei-o do chão e pu-lo no meu colo, enquanto tentava equilibrá-lo a ele e à trotinete que levava connosco. Sem qualquer aviso, ele morde-me no ombro e, numa impensada reacção dei-lhe uma palmada no rabo. Ele parou, chorou um pouco e seguimos com ele num braço e a trotinete noutro. Ele estava calmo, até pensei que estivesse a adormecer e foi quando ele desatou num choro em soluços, agarrado a mim, e me partiu o coração.
Não foi a primeira vez que ele me mordeu (embora tenha sido a
primeira mordida valente) e noutras ocasiões já me bateu na cara ou puxou o
cabelo. É um comportamento que não gosto e que parece acontecer por fases. Do
que não gostei também foi da minha reacção a este comportamento. Por norma, não
lhe bato, nem sequer palmadas no rabo, e tenho várias razões para acreditar que
a palmada não é solução. É verdade que ele se acalmou num momento que estava
fora de controlo mas não acredito que tenha aprendido algo positivo com isso.
Uma vez, questionada sobre o porquê de não lhe devolver as palmadas, respondi
que para mim não faz sentido dizer-lhe que ele não pode bater, batendo nele. As
crianças aprendem mais com o nosso exemplo do que com as nossas palavras… A par
desta incoerência, muitos estudos recentes têm afirmado isso mesmo, que
castigos físicos (mesmo que seja apenas uma palmada), não só não surtem o
efeito desejado a longo prazo, como o pioram. E por último, não quero que ele
deixe de bater por medo de receber uma palmada de volta. Prefiro que ele
aprenda porque não deve fazê-lo e que compreenda que a agressividade magoa as
outras pessoas. Sei que para já ele não tem essa capacidade de compreensão (nem
de contenção e auto-controle das suas emoções), mas com o exemplo certo e muita
paciência, lá chegará.
Por ser um comportamento indesejado, este é também um tema
poucas vezes compreendido. É frequentemente visto como má educação ou ausência
de limites, mas a verdade é que, em vários grupos online de parentalidade dos
quais faço parte, este é um tema recorrente. Arriscaria dizer que é mais
frequente do que aquilo que normalmente vemos. A informação que temos nos dias
de hoje à nossa disposição, é por isso uma ferramenta essencial para abordar
esta questão. Sites especializados em parentalidade, estudos científicos e
livros que abordam esta temática estão ao alcance de todos. Resta-nos ter a
paciência necessária, na convicção de que modelando o nosso comportamento, os
nossos filhos aprenderão com ele. Pacificamente, sem mordidas nem palmadas.


