Chateia-me
porque põe em causa a liberdade de escolha. A nossa liberdade para, enquanto
mulheres que também são mães, escolhermos o nosso caminho sem lugar a
julgamentos moralistas ou a questionamento constante, seja na família, no
trabalho ou em qualquer outra dimensão social.
Que a
discriminação existe, disso não há dúvida, que em pleno século XXI é absolutamente
inadmissível que exista, concordo. Mas se a solução passa pela imposição de um
papel-tipo, de uma mulher-tipo, de uma mulher-que-também-é-mãe-tipo... não
aceito.
Disseram-me:
“Usa um carrinho de bebé. Isso de carregar o bebé ao peito ou nas costas, com
panos e marsúpios (ergonómicos, sempre! Vejam aqui: ), é coisa de outras
culturas. Vais criar um outsider, desintegrado e desajustado...”. Penso:
que bom! Pensar fora da caixa é um dos legados que lhe quero deixar. Procuro
argumentar, mas desisto pouco depois. Cabeças feitas. Preconceitos
estabelecidos. Mentes fechadas.
Disseram-me:
“Ficar em casa a tomar conta dos filhos é um retrocesso civilizacional! Uma
vergonha para quem lutou pela igualdade e emancipação da mulher!”. Penso: que
horror... Há mesmo pessoas que acreditam que a opção de sermos mães a tempo
inteiro (por tempo determinado, na maioria dos casos, tendo em conta a economia
familiar no contexto desastroso da economia nacional... afinal, há toda uma
banca falida para resgatar e todas as mãos são necessárias) põe em causa toda
uma posição social e familiar da mulher. E eu pergunto-me se, afinal, a luta
foi para sermos iguais aos homens ou se foi pela liberdade de sermos o que
quisermos? Mulheres sem filhos, mulheres casadas, mulheres solteiras, mulheres
que também são mães, mulheres que são mães e trabalham, mulheres que são mães e
ficam em casa... Afinal, a luta foi pela liberdade de escolha ou pela imposição
de um modelo social (que serve o modelo económico?) ?
Disseram-me:
“Estás a protegê-lo demasiado. Não o preparas para o mundo real, assim. O mundo
real é duro e não tem complacência.” Penso: que bom! Estou a fazer um bom
trabalho: proteger o meu filho! O mundo real é aquilo que quisermos que seja.
Não é estanque. O mundo real somos nós. E se o mundo real anda feio e sujo,
então eduquemos os nossos filhos para que o tornem mais harmonioso e um sítio
mais agradável para se viver. Que os eduquemos para desconstruírem preconceitos
e questionarem a norma.
Disseram-me:
“Está muito agarrado a ti. Precisa de ir para a escola e socializar.” Penso:
Que bom, o meu filho está afectivamente ligado a mim, que sou a mãe, e não à
vizinha ou à ama, ou... Que privilégio o meu, o nosso, por podermos desfrutar deste apego. Sinto a semente da dúvida e questiono-me sobre a importância da
socialização com outras crianças, mas depois vejo-no no parque infantil e nas
festas com os filhos dos amigos e esqueço mais esse clichê.
Disseram-me:
“Ainda mama?!? Mas já é muito grande para mamar! E o teu leite já não faz
nada!.” Penso: Como é possível estar a ouvir isto de um profissional de saúde??
Ouvir da senhora com quem partilho o banco da paragem de autocarro, ou do
senhor do café, ainda vá... sorrir e acenar e vamos embora que se faz tarde.
Mas de um profissional de saúde? A sério? Fundamentação científica, tem? Ou é
mera opinião pessoal? Pffff.. E, mais uma vez, a escolha. A tal liberdade de
escolha... Quem define a idade do desmame se não a mãe e o bebé?
“Da
insustentável imposição do ser” estereótipo num mundo de diversidade, não trata
de dizer o que está certo ou errado nas nossas práticas e opções enquanto
mulheres e enquanto mulheres que também são mães. Este texto é sobre liberdade
de escolha, não sobre ser melhor ou ter todas as respostas. É sobre o direito à
individualidade e ao poder escolher ser a mulher, que também é mãe, que se quer
ser.
Por Elsa Vale

