Para muitas
pessoas, devo estar a traumatizar a criança: a falta do infantário condená-lo-á
para sempre a ser um bichinho do mato, tímido e pouco sociável. Nunca vai
aprender maneiras, não saberá partilhar e vai falar tarde. Só que não. O meu
filho é sociável, gosta de outras pessoas e de interagir com elas e embora
ainda não brinque muito em conjunto, dá beijinhos e abraços aos seus pares.
Em Inglaterra,
onde vivemos, há muitas famílias como a nossa. Talvez por isso existam playgroups em abundância. Os playgroups permitem às crianças e aos
pais conviverem durantes umas horas por semana. Têm muitos brinquedos,
cantam-se músicas e bebe-se muito chá (ou não estivéssemos em Inglaterra). Fazem parte das nossas rotinas e reconheço
que são importantes para dar ao meu filho estímulos que de outra forma são
difíceis de dar. Mas não são fundamentais, como não foram para mim que nunca
frequentei a creche.
Mas adiante,
quando voltarei a trabalhar? Não sei. Em Inglaterra o custo de ter o meu filho
no infantário não compensaria o meu regresso ao mercado de trabalho. Esta é a
razão pela qual estou em casa. No entanto, a crença de que ser mãe a tempo
inteiro é o melhor que posso dar ao meu filho nos primeiros anos de vida não
seria um motivo menos válido. Sei que em Portugal é uma escolha pouco popular
mas, pelo que vou lendo, é uma escolha que vai ganhando adeptos. E com ela, as
disputas sobre quem faz mais: as mães que trabalham fora de casa ou as mães
cujo trabalho é em casa?
Com toda a
franqueza, essa disputa não me interessa. Tenho a certeza que todas as mães
fazem o melhor que podem nas circunstâncias em que se encontram. Todas têm
dúvidas, todas têm olheiras até ao joelhos, todas perdem a cabeça de vez em
quando e todas amam os seus filhos incondicionalmente. Mas não posso deixar de
ficar triste (e até zangada) quando me chega a maldita pergunta “Quando voltas
a trabalhar?” Porque eu trabalho. Cuido do meu filho dia e noite, cozinho,
dou-lhe cada refeição, visto-o, dou-lhe banho, levo-o a passear, brinco com
ele, dou-lhe colo quando precisa e adormeço-o todas as noites. Os meus dias são
cheios de tarefas e afazeres mas também são feitos de (algumas) lágrimas e
(muitos) sorrisos. E a azáfama em que vivo não é paga com um recibo no final do
mês. É só isto.
Um dia, quando
as condições o permitirem, voltarei ao mercado de trabalho, às manhãs corridas,
aos prazos para cumprir e aos cheques bancários no fim do mês. E enquanto esse
dia não chegar, vou aproveitar as manhãs lentas, cada palavra nova do meu
filho, os seus sorrisos e brincadeiras e até as suas birras. Porque a minha
vida, não sendo perfeita, é feita de tudo isto e isto, por agora, é uma vida
feliz.
Por Cristina Moreira

