Fui
mãe, pela primeira vez, em 2014. Durante as 41 semanas e alguns dias de uma
gravidez saudável e desejada, senti-me mais tranquila e activa do que nunca.
Sentia todo o “desenrolar do processo” como algo natural e descomplicado e não
fui assaltada por receios ou medos. O parto não era tema que me assustasse e a
amamentação sempre esteve nos meus planos. Sem racionalizar muito sobre estas
questões, sentia-me tranquila e confiante em relação a ambas ao ponto de nunca
ter sequer idealizado outros cenários. O parto, sempre soube que queria que
fosse o “mais natural possível”, sem saber, na verdade, o que isso significava
realmente. Estava informada, desde ainda antes de engravidar, sobre os
benefícios do parto vaginal vs cesariana e, para mim, não existia mais nada
para além desta dicotomia. Sabia que, se dependesse apenas de mim, se não
pusesse em causa o bem-estar ou saúde do meu bebé, seria esse o caminho.
A
amamentação também encarei como assunto encerrado. Sem margens para dúvidas ou
alternativas. Consciente e informada de que seria o melhor para o meu filho,
nunca equacionei outra forma de o alimentar e nutrir. E, por isso, na hora de
preparar a mala para a maternidade, não fiz o “check” nos quadradinhos d' ”A
Lista” que confirmavam o biberão e a chupeta. Também não duvidei (acho que nem
sequer pensei sobre isso) de que tudo correria bem. Confiei.
O
parto acabou por ser induzido e, ao longo das 36 horas de trabalho e com a
tranquilidade possível em meio hospitalar, aconteceu algo quase inconsciente
que me empoderou e, tenho a certeza, viabilizou o desfecho em parto vaginal e a
amamentação que dura até hoje.
Mas
houve um percalço pelo caminho. Um percalço inesperado e turbulento que
confirmou a rota do empoderamento e nos levou mais longe. Às quatro semanas,
embrenhados e empenhados no ritual de tortura e ditadura da balança com as
pesagens semanais, surge um alerta: o meu filho não aumentara de peso entre a
terceira e quarta semanas. Eu, apesar disso, não senti o alarme. Sentia que o
meu bebé estava bem e isso deixava-me tranquila. Mas à minha volta as vozes
eram dissonantes. Um dia depois, decidimos, eu e o meu marido, ligar ao
médico... Relatamos o sucedido e, do outro lado da linha, ouvimos gritos que
nos mandavam imediatamente à farmácia comprar leite artificial. Fiquei chocada
com aquela reacção, mas não acatei a “ordem”. Não ressoava cá dentro.
Assumi a
decisão, sempre apoiada, e procurei uma resposta alternativa. Encontrei-a numa
CAM – Conselheira em Aleitamento Materno -, recomendada por uma amiga. Era uma
CAM voluntária que, naquele momento, não tinha tempo para uma visita presencial, mas na conversa que
tivemos ao telefone aconselhou-me a extrair o meu leite e a suplementar com
ele, de preferência sem recurso a biberões. Assim fiz. Foram dois meses loucos,
numa rotina que acrescentou cansaço à dinâmica já exigente de um recém-nascido.
Mas, em retrospectiva, quando olho para nós e olho para trás, sinto aqueles
dois meses como dois segundos. Mantive a amamentação em livre demanda, que foi
o que sempre me fez sentido, não obstante as instruções na maternidade para
estabelecer horários. Nunca me pareceu razoável que um bebé tivesse horários
para saciar a fome/matar a sede/ser reconfortado/regular a temperatura
corporal/regular os batimentos cardíacos..., nem há fundamentação científica
para tal, pelo contrário. Na natureza não há relógios e as fêmeas não duvidam
da sua capacidade para alimentar as crias. Seguem o instinto e é isso que
estamos a perder: essa ligação connosco, a confiança no nosso corpo e nesta
nossa maravilhosa capacidade de nutrirmos as nossas crias (física e
emocionalmente) outrora reforçada pelo exemplo de outras mulheres do nosso
círculo. O meu bebé aumentou de peso, cresceu saudável e confiante e a
amamentação fluiu, sem mais percalços, desde então.
Desta
experiência alucinante e, em alguns momentos, assustadora, resultou um maior
empoderamento e confiança no instinto e na ligação com aquele bebé que cresce
tão depressa. Resultou também mais uma CAM voluntária quando, naquele frenesim,
me dei conta de que muitas outras mulheres se deparavam com algum tipo de
dúvida, problema ou obstáculo ao longo do processo de amamentação e que a
esmagadora maioria estava a ser mal aconselhada. Fiz a formação de CAM,
aprofundei o tema, estudo e faço por outras mulheres o mesmo que um dia fizeram
por mim. Sou Conselheira em Aleitamento Materno porque a amamentação nem sempre
fluiu e porque há muitas mulheres que precisam de ser aconselhadas neste
processo.
Somos
mais fortes quando transformamos a nossa dor em mudança positiva, fazemos a
diferença na vida de outras pessoas e na nossa… e construímos um castelo.
Por Elsa Vale

