Ressalva nº 1 - artigo não aconselhável a grávidas!
Ressalva nº 2 - se ignorarem a ressalva nº 1 não se queixem no
fim!
Ressalva nº 3 - é um artigo de um parto real, sem floreados e sem filtros!
Ressalva nº 3 - é um artigo de um parto real, sem floreados e sem filtros!
Sendo uma grávida com histórico de TAG (Síndrome de
Ansiedade Generalizada) posso dizer que a gravidez me deu uma paz e uma
tranquilidade que nunca tinha atingido. Fui a verdadeira grávida feliz,
que tirava orgulhosamente fotos semanais à barriga, que celebrava cada
ecografia e que engordou sem piedade 23 kg. Nunca precisei de medicação
para a ansiedade (ao contrário de agora), apenas ferro para uma anemia ligeira
que teimou em acompanhar-me a partir das 30 semanas. Posso afirmar que vivi a
gravidez em pleno estado de graça e isso tranquilizou-me bastante para o parto
- e ainda bem!
Idealizei, talvez mal, que o parto iriam ser apenas
umas horas de dores fortes na minha vida em prol de um amor maior - desta
última parte não tenho dúvidas. O que nunca me passou pela cabeça foi que pudesse
levar 36 horas para dilatar, coisa como 1 dia e meio com dores de
diferente intensidade até finalmente ir parar ao bloco de partos. Tive
inclusivamente amigas a perguntar se me tinha esquecido do que fui lá fazer? Sim,
podem rir.
O primeiro sintoma após as primeiras 24h sem
dilatar foi de desmotivação e choro, chorei compulsivamente e sempre que me diziam que
isso só piorava e atrasava o parto, ainda chorava mais qual criança a quem
tiraram o chupa-chupa - as hormonas da gravidez são #aquelapalavracomF.
O segundo, a fome e sede, 36 horas de vida a meia dúzia de chás e 3 bolachas Maria
é coisa que deixa uma pessoa fraquinha, nem com soro a coisa melhora. São
procedimentos médicos que respeito, mas acho que um petisco me tinha ajudado,
nem que fosse para acalmar os nervos.
E eis o resumo cronológico
que escrevi em 2013:
Sábado - 19 de janeiro-
23h55
Entrada no hospital com contracções dolorosas de 5 em
5m comprovadas no CTG, dilatação de 1 dedo e meio. Seguimos para o bloco de
partos, avisamos a família e os amigos a acreditar que o Duarte estava por
horas de dizer "Olá" ao mundo. Evolução zero, passei a noite agarrada
às dores sem dilatar.
Domingo - 20
Janeiro - 8h30
A equipa médica toma a decisão - certa, pois estava a
ocupar um bloco de partos - de me mandar para uma sala de internamento devido à
falta de dilatação. De imediato, as contracções diminuíram de intensidade e
passei um dia normal no quarto, a chá e bolachas, com visitas da família, como
se tivesse lá por outro motivo qualquer, só que acompanhada por dores e
contracções para ter um bebé. Creio que tive um falso início de trabalho de
parto.
Andei muito pelo corredor do hospital e cruzei-me com
outras grávidas na mesma situação... o que me dava algum ânimo #juntasfazemosaforça.
20h00
O fim das visitas e o anúncio de que o Diogo não
poderia ficar comigo na sala de internamento. Teria que ir para casa esperar
por novas indicações. Choradeira pegada, compulsiva, logo eu que que odeio a
solidão. Tida idealizado tudo a dois, fiquei sem chão e sem porto seguro
naquele momento.
20h30
Começou a festa à séria (precisamente quando fiquei
sozinha). Contracções dolorosas e mais dolorosas, registadas de 8m em 8m, que
se prolongaram pela madrugada. Não dormi, não tinha posição para estar sentada,
muito menos deitada, só me sentia "bem a andar" ou no duche e na bola
de pilates (tomei vários duches rápidos para aliviar as dores, nesse aspecto
considero que o Hospital Beatriz Ângelo está verdadeiramente bem equipado).
Pelo meio, telefonemas para o Diogo e para a minha
cunhada a chorar, sabem quando precisamos de falar e não temos ninguém? Não os
queria preocupar, mas não estava a aguentar todo aquele silencio que só era
quebrado pelo choro dos bebés recém-nascidos nas salas do lado. Sou uma pessoa
de conversas e não ter companhia para além da TV e do Duarte que estava a fazer
o seu papel na barriga estava a destruir-me por dentro. Agora acho exagerado,
acho que sou capaz de aguentar isso e muito mais, mas experienciem as hormonas
da gravidez uma vez na vida e depois falamos.
03h00
Peço à enfermeira para me ligar ao CTG, aquelas dores
que me atingiam a barriga e as costas tinham que ser alguma coisa... o aparelho
não detetava "nada de mais" e a equipa médica nunca apareceu. Pensei
"serei eu uma mariquinhas"?
As dores continuaram iguais noite fora... muitas dores
(assumo que chamei pela minha mãe em silencio enquanto cerrava dos dentes).
Administraram-me paramentamol algumas vezes com zero efeito. Se a ideia era ser
efeito Placebo esqueçam.
Continuaram igualmente fortes... tomei mais um
duche... e mais um... seguiu-se mais um CTG...
1 hora depois outro e as dores permaneciam tal e qual
e as contracções idem ( 8m em 8m).
Passei o resto da madrugada a andar pelo corredor do
hospital, era a segunda noite em branco... num misto de ansiedade com
exaustão.
Segunda-feira -
21 de janeiro - 10h30
A médica obstetra aparece para ver a dilatação, pela
primeira vez em toda a noite fui vista por um médico - 4 dedos - ordem imediata
para seguir para o bloco de partos (estava perto do limite para ainda puder
levar a epidural) e chamar o Diogo! Telefonei para ele e depois para a minha
mãe, louca de felicidade, a dar a boa nova - finalmente!
Já no bloco, o enfermeiro parteiro (de uma simpatia
pura) confidencia-me que em alguns casos é assim, as contracções são espaçadas
e a dilatação acontece na mesma, eu bem pedi para ser vista durante a noite...
fiquei com a desagradável ideia de que por ser domingo não havia equipa médica
suficiente para me ver e que fui arrastada até segunda-feira de manhã, posso
estar a cometer uma enorme injustiça, mas foram muitas horas sem ver um único
médico e acreditem que não estou a dramatizar.
O PARTO (se aguentaram firme até aqui, agora não sejam
mariquinhas) – 13h27
Já na marquesa mais um toque para confirmar a
dilatação e o enfermeiro informa-me de que me irá rebentar as águas.
Procedimento fácil, sem dores acrescidas e novo toque. Pergunta-me se acho
necessária a administração da epidural uma vez que verifica que aguento bem os
suartigoos toques dolorosos sem me queixar (ah, afinal não fui assim tão
mariquinhas!). A resartigoa óbvia depois de toda a odisseia até chegar ao bloco
foi - SIM!
Recebi a epidural ainda com contrações espaçadas de 8m
em 8m, o que deu tempo para me colocarem o cateter sem ter uma única dor e
depois o paraíso, adeus dores, olá dilatação completa supersónica.
Tive que pedir para apressarem o Diogo para chegar ao hospital porque o puto
agora tinha o turbo ligado e a equipa na sala previa que a expulsão fosse
rápida (not). Após várias tentativas de expulsão e uma tentativa de rodar o
Duarte (que doeu mais do que qualquer uma das contracções) chegou a decisão dos
enfermeiros parteiros chamarem uma Obstetra ao bloco para que ele fosse
retirado com ventosas. Levei nesse momento a 2ª dose do soro do paraíso. O Diogo não pôde assistir a essa parte, mas 1
minuto depois já estava com o Duarte nos braços a namorá-lo enquanto eu era tratada.
Pensava que era o culminar de todo o esforço, estava
em êxtase total e não tirava os olhos do Duarte, "o meu Duarte!" até
que oiço "esta mamã está a perder muito sangue" e seguiu-se
uma hipotensão gigante (5-3), aparelhos a apitar e falta de ar. Fui
entubada e administraram-me as drogas certas para voltar a mim. Não tive
oportunidade de agarrar o Duarte, nem tenho a foto típica do bebé no peito da
mãe depois de nascer. Renasci ali, para a vida e como mãe, do
tão desejado bebé, que chegou "just in time", às 40 semanas,
com 4.090kg e 52cm.
Finalmente no recobro consegui amamentá-lo,
contemplá-lo e pegar nele pela primeira vez. Seguiram-se muitos
desmaios no levante, exames para validar a necessidade de uma transfusão
de sangue e 2 meses em casa a tomar ferro para
fortalecer o sistema imunitário. No hospital não pude ir dar o primeiro
banhinho ao Duarte, vi as enfermeiras fazê-lo por mim, enquanto me davam dicas
de como pegar nele. O Duarte teve alta antes de mim, e confesso que me fiz de
mais forte do que aquilo que estava perante a médica para ela me dar a alta. Só
queria ir para casa ao mesmo tempo que o meu bebé. Lutei por mim e pela minha
função de mãe, e mesmo com muitos momentos de fraqueza que sentia após
amamentar, consegui alcançar a meta dos 6 meses de amamentação natural.
Não foi fácil, não voltava atrás na decisão de
ter sido mãe por nada deste mundo, mas acho que, no mínimo, já perceberam
porque é que o Duarte ainda é filho único! Mas dizem que à segunda é mais fácil,
não é?
Por Raquel Rodrigues

