Querida filha, quando algum dia duvidares que te amo [isso vai acontecer, eu sei!] quero que saibas que já te amo há mais de 10 anos [e ainda hoje tens 5 meses!]. Pode parecer estranho [uma das coisas que vais descobrir sobre mim, é que não sou de todo uma pessoa de ir com as marés, sou estranha, sou diferente] mas ao longo destes anos, soube que te amava, por tudo mas também por todas as vezes que chorei por ti...
A
primeira vez que chorei por ti, tinha 21 anos. Fui a uma consulta e uma médica disse-me
que possivelmente tu nunca existirias. Nesse dia o chão fugiu-me debaixo dos pés.
Nesse dia tudo ficou negro. Nesse dia nada mais fazia sentido.
Chorei
por ti, várias vezes, na penumbra da noite, quando compreendi que efectivamente
tinha uma doença que te poderia afastar de mim.
Chorei
por ti, quando alguém me tentava consolar e me dizia "há muitas pessoas
que não têm filhos e são felizes!" [eu não sou "muitas
pessoas"!].
Chorei
por ti quando comecei a procurar um médico que me ajudasse e ninguém parecia
querer ou saber fazê-lo.
Chorei
por ti no dia em que encontrei esse médico.
Chorei
por ti a cada exame que fazia onde o quadro ia sendo pintado cada vez mais negro.
Chorei
por ti, no dia em que fui operada. Quando vi o meu médico, ao acordar, perguntei
se serias possível.
Chorei
por ti, quando ele me disse que sim, serias possível!
Chorei
por ti, em silêncio, durante os dois anos seguintes, em que não me sentia preparada
para lutar por ti.
Chorei
por ti em silêncio, tantos dias, tantas noites.
Chorei
por ti cada vez que uma amiga me dizia que estava grávida [não que não ficasse feliz.
Mas era inevitável!].
Chorei
por ti cada vez que nascia um bebé.
Chorei
por ti a cada notícia, que via ou lia, em que uma mãe tinha maltratado o seu filho.
Chorei
por ti cada vez que me perguntavam quando daria netos aos meus pais.
Chorei
por ti cada vez que o meu médico me pressionou "O tempo está a passar! Tem
de ser!". Chorei por ti a cada teste negativo, quando finalmente decidimos
que tinha chegado a hora.
Chorei
por ti a cada menstruação [sempre e cada vez mais difíceis de suportar!].
Chorei
por ti cada vez que tinha dores e pensava em desistir.
Chorei
por ti simplesmente por pensar em desistir.
Chorei
por ti quando fiz a análise de sangue.
Chorei
por ti no dia em que chegou o e-mail que te anunciava.
Chorei
por ti à medida que te fui anunciando ao mundo.
Chorei
por ti cada vez que me passava pela cabeça que podias fugir-me.
Chorei
por ti quando ouvi o teu coração pela primeira vez [a magia existe mesmo...].
Chorei
por ti durante os mais 4 meses em que vomitei diariamente, mais do que uma vez por dia [o meu corpo estava tão
cansado!].
Chorei
por ti quando me ofereceram as primeiras roupinhas.
Chorei
por ti quando o meu útero começou a pregar-me partidas e às 22 semanas fui directa
para o sofá [os dias eram longos mas permitiram-me preparar a tua chegada].
Chorei
por ti porque queria que viesses ao mundo da forma mais natural e humanizada
possível e secretamente sabia que, por ser eu a tua mãe, tão terias esse privilégio.
Chorei
por ti por achar que merecias um T0 melhor do que o meu útero.
Chorei
por ti quando estava a chegar a hora de nos conhecermos: epidural, bisturi e tu
literalmente arrancada [agarrada por uma perna] de dentro mim.
Chorei
por não te ver, não te cheirar e por não te ouvir chorar.
Chorei
até te trazerem de novo para junto de mim. Quando te vi, voltei a chorar.
Apesar
de tudo estavas tão serena a olhar para mim.
Chorei
porque não me deixaram tocar-te, cheirar-te, beijar-te. Voltei a chorar quando
o pai me mostrou a tua fotografia ao colo dele. Finalmente um de nós já te
tinha abraçado.
Chorei
de ansiedade enquanto estive sozinha no recobro. Onde estarias? Será que estavam
a tomar conta de ti? Porque tinha eu de estar naquela sala, cheia de fios e máquinas?
Só queria estar contigo! Chorei quando finalmente nos reencontrámos e te agarraste
às minhas mamas.
Chorei
quando queria trocar-te a fralda e pegar-te ao colo e não me conseguia mexer com
tantas dores.
Chorei
quando nos deram alta e nos mandaram para casa. Apesar de tudo conheci pessoas
tão queridas...
Chorei
quando percebi que ia depender de todos durante uns dias. Queria ser eu a fazer
tudo!
Chorei
quando vi a minha cicatriz pela primeira vez. Vinte e cinco agrafes. Um corte torto.
Às vezes ainda choro quando olho para ela... parece que te sinto a seres arrancada
de dentro de mim! Chorei de cansaço.
Chorei
de dor quando mamavas. Chorei quando não aumentavas de peso. Chorei quando me
disseram que tinha de te dar suplemento [Não fui capaz de ter uma gravidez
normal. Não fui capaz de ter um parto normal. Também tão tinha capacidade de te
alimentar de forma suficiente?!]. Chorei quando tive de te dar o primeiro
biberon de leite. Chorei agarrada à bomba, horas a fio durante o dia. Esse dia
prolongou-se por
meses.
Queria que fosses alimentada com o meu leite [E assim foi quase exclusivamente!].
Chorei a cada tentativa falhada de largar a bomba e de te dar apenas mama.
Chorei quando me apercebi que finalmente tínhamos conseguido, arrumei a bomba e
deitei o resto do leite de lata fora.
Chorei
quando tiveste de fazer uma colheita de urina directamente da bexiga. Chorei a cada
vacina que tiveste de levar.
Choro
cada vez que te vejo chorar, sem saber o que tens e sem te conseguir consolar.
O meu coração pára quando te vejo a chorar.
Choro
quando vejo o carinho com que o teu pai olha para ti. Choro quando vos vejo os dois
a dormir agarradinhos. Choro quando vejo o sorriso rasgado que fazes cada vez que
ele chega a casa. Choro quando te tenho a dormir no meu colo e sorris
levemente.
Choro
quando tentas falar comigo. Choro quando te ris à gargalhada cada vez que danço
para ti.
Chorei,
choro e vou chorar! Sempre! [Já me mentalizei que não terei mais controle sobre
isso!]Por dor. Por angústia. Por preocupação. Por culpa. Por medo. Por felicidade.
Por alegria. Porque existes. Porque ris. Porque choras. Porque te cheiro.
Porque
me tocas. Porque me olhas. Simplesmente porque te amo... simplesmente porque
todo este amor é demais para ser concentrado dentro de mim e me salta em forma
de lágrimas...
Deve
ser isto o amor... o mais puro amor…
Artigo originalmente publicado em Mãe como Tu


