Vou partilhar convosco um pouco da realidade em que tenho vivido
profissionalmente, este ano lectivo.
É uma escola TEIPE( Programa
Territórios Educativos de Intervenção Prioritária).
E é um mundo à parte.
Não quer ser pejorativo, mas é o que é. “Um mundo diferente do meu”.
Quando somos inseridos em realidades diferentes da nossa (seja por
diferenças sociais, culturais, religiosas, políticas, etc…) temos alguma
resistência natural em compreender e aceitar certos aspetos.
Na minha realidade pessoal e familiar, as pessoas com que lido são
geralmente com valores sociais e morais semelhantes aos meus e àqueles que quer
direta quer indirectamente vou transmitindo à minha descendência. E é assim em
todo o lado. As pessoas têm tendência para se relacionar mais com outras que
lhes são semelhantes na forma de ser e de estar.
E também assim na comunidade escolar em que trabalho.
Lido essencialmente com alunos oriundos de famílias de estrato social
baixo e muito baixo. Que aduzem baixos níveis de vocabulário, de valores e de
atitudes. (Não quero parecer discriminatória. Rejo-me pelos requisitos do MEC
para os alunos, que podem ser consultados, por exemplo no Estatuto
do aluno e Ética Escolar).
Para a maioria destas crianças e jovens, a educação é um termo
abstracto e distante. Inacessível. Prescindível. A escola não representa uma
porta aberta para a melhoria da sua condição de vida ou da sua família. Não é
um espaço de orientação e formação, mas antes um espaço de obrigações
desmesuradamente sem sentido, onde se fala de assuntos de que poucos querem
saber ou reconhecem utilidade para a sua vida.
Para a maioria destas crianças e jovens, chumbar o ano é sinal de irreverência e de popularidade entre os
pares. Ser rebelde é fixe, é atributo
de personalidade forte e de capacidade de liderança.
Para a grande parte, mostrar e partilhar o corpo é sinal de “ser dono
si próprio, adulto, independente”. Substituem os laços no cabelo por madeixas e
usam unhas de gel em bico, gigantes, que até atrapalham a escrita quase
impraticada… Faltar às aulas e fumar são práticas habituais e o “asneiredo” é denominador comum…Estudar
é para totós… Afinal, qual é o problema de estar no 5º ou no 6º ano pela 5ª
vez?
Estão tão equivocadas, estas pessoas…estes cidadãos…
É lamentável que a Escola não seja suficiente para dissipar estas
formas de estar na vida…
Mas não é por falta de vontade… nem por ausência de iniciativas… Na
realidade, eu nunca tinha assistido a tamanho proporcionar de experiências aos
alunos. A Câmara Municipal, por exemplo, incentiva e promove bastantes
actividades, principalmente culturais e recreativas, de carácter gratuito,
geralmente muitíssimo interessantes, a esta comunidade escolar. Acho bem.
Porque muitas destas crianças, se não forem a determinados locais ou
vivenciarem determinadas experiências, via escola, dificilmente o conseguirão
em ambiente familiar. Quanto mais não seja, porque através da escola, é mais
barato ou mesmo gratuito…
A existência de projectos de co-docência, e outros que visam combater
o insucesso escolar e promover a assiduidade, são também exemplos, do que se
faz para que estes alunos prossigam as suas vidas o mais bem preparados
possível.
Contudo, como sabemos, os alicerces de qualquer personalidade estão
(além da genética), no ambiente em que se vive… em que se cresce, junto dos
mais próximos e dos valores e exemplos que (direta ou indirectamente) são
transmitidos.
E às vezes, dá-me a sensação, de que muito pouco do que se proporciona
a estas crianças e jovens, é realmente apreciado. Grande parte das vezes, não
se nota reconhecimento de que foi uma experiência enriquecedora, e muito menos
se observa gratidão. Dentro da sala de aula ainda é pior… A motivação e a vontade
de aprender são efémeras. Parece que tudo o que se faz é para contrariar, para
chatear… Parece que não somos nada interessantes e que o que estamos “práli” a dizer é insignificante… As
mochilas vão bastante leves para a escola, nalguns casos, deve ser só para “Inglês ver”… pois nem fazem intenções
de ir às aulas, e quando vão… eventualmente passam alguma coisa no caderno
diário para todas as disciplinas, se conseguirem resistir aos 90 minutos de uma
aula. Réguas, compassos, manuais? Às vezes nem lápis! Mas a esmagadora maioria
tem SASE e telemóvel!
Trabalhos de casa? De 28 alunos numa turma, dos 10 ou 15 que vão às
aulas e desses, dos 4 que prestam alguma atenção… 1 faz qualquer coisa…
Torna-se exaustivo e desmotivante trabalhar assim…
É assim que os meus olhos vêm e o meu coração sente, de momento.
É um misto de sentimentos. Entre a revolta por pouco conseguir ensinar
e a fé na mudança de mentalidades e comportamentos, vou passando os dias a
tentar compreender melhor os porquês de tanta relutância em aprender, e a
tentar encontrar estratégias para contrariar isso. E mesmo sendo uma rica
experiência de vida, um abrir de olhos para a condição humana de muitas
crianças e jovens… não é nada fácil. Pelo menos para mim.
A natureza tende a seguir o caminho mais fácil, mas quando encontra
obstáculos encontra sempre formas surpreendentes de os ultrapassar. E eu
gostava que estes jovens conseguissem aceitar que o caminho mais fácil,
dificilmente conduzirá ao sucesso e à superação. Que acreditassem que nos dias
que correm, o caminho mais fácil é um engodo, provavelmente trará um futuro
pouco promissor.
É revoltante ser-se professor, e ver que alguns dos nossos alunos, vão
perder-se pelo caminho… ou que, quando perceberem… já perderam algum tempo…
Mas ser professor também é isso. É ter-se um profundo espírito de
missão. É ser resiliente.


