Olá Avô!
Já passaram 43 anos.
lembro-me de cada passo daquele dia...
não fomos à escola. estava a haver uma revolução.
tu ligaste o teu mini rádio a pilhas e passeaste-te pela casa fora com o
rádio colado ao ouvido. entre o dentro de casa e o terraço foste ouvindo as
notícias e olhando a Avenida do alto do nosso 7º andar com vista privilegiada
sobre toda a Almirante Reis. o Cristo Rei lá ao fundo à esquerda. a Avó estava
com medo que uma bomba caísse no terraço. lembras-te? ouvimos a Grândola várias
vezes durante o dia.
nos teus olhos verdes havia o sorriso, a alegria de que algo de bom
estava a acontecer naquele dia de Abril. e sabes Avô? ver a alegria em ti e nos
teus olhos determinou a forma como os meus olhos viram a revolução. aos 9 anos
que sabia eu do que me explicaste? pouco. mas aos poucos foi crescendo o que
fui percebendo do que me foste falando.
passaram 43 anos sobre o Dia em que me disseste
que ia haver liberdade. em cada um destes 43 anos celebrei a liberdade que me
disseste ser boa. comprei cravos em cada um destes 43 anos. pu-los sempre em
lugar de destaque. para que todos os vejam e saibam que são um símbolo de mim.
de ti. de há 43 anos.
há 43 anos a revolução permitiu que eu
crescesse em liberdade e em liberdade pudesse escolher o que fui lendo, o que
fui estudando, o que fui sendo, o que fui ensinando aos meus filhos.
há 43 anos a revolução permitiu que as mulheres
passassem a ter direitos. o direito a votar. o direito a participarem na vida
pública. o direito a representarem outras mulheres em lugares de chefia e
destaque da sociedade.
sabes Avô, há coisas que ficam para sempre. na
memória, nos olhos, no coração. obrigada por tudo o que me passaste após e
graças a esta revolução. continuo a acreditar, como tu acreditavas, na
igualdade, na liberdade de expressão. valores tão adquiridos hoje, passados 43
anos, mas tão valiosos!
em cada dia 25 de cada mês de Abril de cada ano
que passa, visitas-me e recordas-me. eu sou a guardadora dos sonhos que tu me
ensinaste que podia sonhar.


