Nós que casámos tão cedo e que íamos conhecer
o mundo. Que viajámos juntos o que nunca viajámos sozinhos.
Nós que saíamos ao Sábado de manhã sem rumo,
palmilhávamos quilómetros em jardins e centros comerciais. Que comprávamos
móveis na loja Sueca e acabávamos o dia a comer hambúrgueres no restaurante da
letra amarela.
Que íamos ao Porto todos os meses e que
passeávamos de mão dada pela rua de Santa Catarina. Que íamos ao Sá da Bandeira
ver teatro de revista e os espectáculos do César Mourão.
Nós que passávamos dias de chuva lá fora a ver
séries e filmes cá dentro e acabávamos a comer pizza e pão de alho no chão, em
frente à lareira.
Que nem sempre fazíamos jantar. Para quem a
vida era aqui e agora e o que nos apetecesse fazer dela. Juntos. Sempre juntos.
Nós que chegávamos à praia de manhã cedinho,
caminhávamos de mão dada à beira mar e só voltávamos a casa quando o sol se
começava a esconder.
E foi na praia, entre uma bola de berlim e
outra, a ver miúdos a chapinhar no mar, que decidimos que se calhar estava na
hora, que talvez fosse o momento.
Nós que agora viajamos menos mas vamos mais ao
parque e ao jardim. Que continuamos a andar de mão dada, eu com ele, ele
contigo, tu comigo. Cada mão dele numa das nossas mãos, conforme imaginámos.
Nós que agora não saímos sem rumo, quase
nunca, ou pelo menos não sem comida. Que não vamos ao Porto há meio ano mas
temos uma lista de compras para a loja Sueca.
Nós que vemos menos filmes e séries mas que
temos teatro todos os dias. Peças de comédia, drama e acção. (Acham que não?!
Experimentem mudar fraldas com a criança em pé. Pensando bem, pode até roçar o
terror.) Ainda vemos séries. Meio episódio de cada vez. Entre o momento em que
ele adormece e o momento em que são horas de nós próprios irmos dormir.
Nós que agora comemos sempre à mesa porque
temos o chão coberto de pistas e de carrinhos. Porque é extremamente difícil
tirar arroz de carpetes com pelo e porque é desagradável depois rebolar nessas
mesmas carpetes cheias arroz!
Nós que continuamos a chegar à praia de manhã
cedinho, que caminhamos igualmente à beira mar, mas que temos que parar para
apanhar conchinhas. Que voltamos para casa à hora do almoço e depois voltamos à
praia à hora do lanche e depois sim, só saímos quando o sol se começa a esconder.
Nós continuamos aqui. Às vezes um pouco ofuscados pela correria do dia a dia, só nos voltamos a encontrar depois das dez da noite no sofá. Mas encontramos. E a minha mão ainda procura a tua e os meus pés ainda aquecem os teus. Ainda damos por nós a rir das mesmas coisas, a pensar da mesma maneira e a olhar na mesma direcção.
Nós, continuamos a ser nós. Mais crescidos,
mais velhos, mais cansados. Com menos dinheiro mas mais ricos em amor, em
momentos para guardar para a vida.
Nós continuamos a ser nós. Agora quase sempre nós e ele. Mas sem esquecer que antes desta experiência avassaladora, éramos só dois e sem tudo o que nós vivemos nada disto fazia sentido.


