Amamentação. Eis um tópico sempre
aceso na maternidade. Eu não amamentei; não amamentei e não há dia que não me
lembre disso. Já não passo horas a ruminar no assunto e já não choro, cheia de
culpa e de pena do meu filho, mas ainda penso nisso. Ele já fez dois anos,
provavelmente já não seria amamentado por esta altura (embora eu seja 100% a
favor de um desmame natural, independente da idade) e isso ajuda. Vê-lo feliz e
saudável também. Mas como eu gostaria de tê-lo feito!
Sempre quis ser mãe e dar de
mamar sempre foi para mim uma extensão natural desse desejo. Respeito e entendo
quem não queira mas eu queria muito e nunca antecipei não amamentar. A verdade
é que o meu filho nunca foi capaz de fazer a pega e depois de vários dias na
maternidade e muitas sessões terríveis em que ele era forçado na minha mama,
voltámos para casa. Já vinha ele (e eu) com biberões. Os dias que se seguiram
foram difíceis, muitas tentativas, mamilos de silicone, bomba. Às vezes, com a
ajuda dos mamilos de silicone, lá lhe conseguia dar um pouquinho mas nunca o
suficiente e suplementar cada refeição com leite artificial era necessário.
Depois de muitas visitas ao domicílio das enfermeiras-parteiras (aqui em
Inglaterra chamam-se midwives), de idas à clínica de amamentação, finalmente marcaram
consulta com a especialista. Essa consulta aconteceu ao vigésimo dia de vida do
meu filho e imediatamente tivemos o veredicto: tongue tie, ou em português,
freio da língua curto. A especialista confirmou que poderiam cortá-lo mas que
na sua opinião já não faria a diferença, uma vez que o meu leite nunca chegou a
subir por falta de estimulação (apesar das muitas horas passadas na bomba).
Explicou que até ao décimo dia as hormonas da mãe continuam a subir, ponto a
partir do qual começam a decrescer e, portanto, a quantidade de leite até
então, é a quantidade que se irá manter se a amamentação estiver estabelecida.
Senti-me uma falhada. Fui incapaz
de dar ao meu filho o mais básico que uma mãe pode oferecer. Mas como me disse
também a especialista em amamentação, este é um processo de luto. E foi. Quando
penso naqueles primeiros dias, acredito que uma série de maus acasos conduziram
a isto. Já tinha ouvido falar em freio da língua curto e certifiquei-me que o
meu plano de parto pedia para que, à nascença, isso fosse verificado.
Infelizmente, o parto induzido terminou numa cesariana de emergência e isso não
aconteceu. Durante os dias que passámos na maternidade, várias foram as
enfermeiras que procuraram ajudar. Houve uma, que me garantiu que ele não tinha
o freio da língua curto. Ainda assim, pedi para ver a especialista, o que não
aconteceu enquanto lá estivémos. O problema não foi detectado também pelas
midwives que fizeram o acompanhamento em casa, nem pelas enfermeiras na clínica
de amamentação. Uma falha imperdoável, sinto-o até hoje. Na agitação daqueles
primeiros dias, não tive, contudo, a capacidade de pensar com mais clareza e
confiei apenas no que os vários serviços de saúde me iam dizendo. Grande erro.
Não quero aqui demonizar os serviços médicos, nada disso. Foram atentos e
incansáveis e resolveram com destreza, cuidado e respeito um parto que poderia
ter sido muito mais problemático. Mas com uma estatística que aponta para cerca
de 11% de bebés que nascem com este problema, seria de pensar que a comunidade
de cuidados materno-infantis estivesse mais atenta.
Mas já passou (mesmo sem nunca
ter passado) e resta-me o que aprendi, a custo, com esta situação. E já não me
sinto envergonhada e julgada como naqueles primeiros meses em que dava o biberão
em público. Porque uma sociedade que puxa pela amamentação (e bem), deveria
também oferecer o apoio necessário a quem desejasse fazê-lo. Porque a forma
como alimentamos os nossos bebés deveria ser uma escolha e não uma imposição.


