Ninguém nos disse que isto ia doer de vez em quando.
Ninguém nos disse que íamos desesperar volta e meia.
Ninguém nos disse que haveria dias em que a única vontade seria
chorar. Ou gritar. Ou fugir.
Ninguém nos disse que NUNCA mais iríamos dormir profundamente.
Nem que o nosso coração iria morar noutro sítio, que não no nosso peito.
Ninguém nos disse que nos iríamos tornar bipolares. E às vezes
um bocadinho loucas.
Ninguém nos disse que para defender um filho aprendemos um olhar
fulminante e até a rosnar. Se for preciso!
Ninguém nos disse que a nossa memória iria fugir para parte
incerta.
Ninguém nos disse que também iríamos precisar de colo. E poucas
vezes teríamos coragem de o pedir!
Ninguém nos disse que haveria dias em que nos sentiríamos
impotentes. E que essa impotência sobe à velocidade que aumenta a febre ou o
choro.
Ninguém nos disse que muitas vezes acharíamos que a culpa é
nossa. Ou será que chega a haver dias em que achamos que não é?
Ninguém nos disse que mesmo que passemos um dia inteiro a cuidar
e a velar, iremos chegar ao fim do dia com a sensação de que não fizemos nada.
Porque queremos fazer sempre muito. Sempre mais. Sempre melhor.
Ninguém nos disse que de todas as funções que algum dia possamos
ter, a de ser mãe é a mais difícil, a mais desgastante, a mais complexa, a que
nos suscita mais dúvidas e a que exige mais de nós. Mas é, sem dúvida, a mais
maravilhosa.
Ninguém nos disse que também podemos reclamar, que também
podemos chorar, que também podemos fraquejar, que também podemos duvidar. E que
não será isso que nos tornará menos ou piores mães.
Ninguém nos disse, que por mais defeitos que as nossas próprias
mães possam ter, passaremos a olhar para elas com outros olhos e com o coração
mais amolecido.
Ninguém nos disse que é normal, que é saudável e que é
importante gostarmos de nós, pensarmos em nós e dedicarmo-nos tempo. Porque só
assim poderemos bem cuidar.
Ninguém nos disse que a partir do exacto momento em que nos
tornamos mães, todas as nossas escolhas são julgadas e discutidas. E não! Não é
só por nós e por aqueles que nos são queridos. É pelo mundo.
O mundo acha que pode falar das nossas mamas, que dão ou não
leite. O mundo acha que pode falar dos nossos braços que dão mais ou menos
embalo. O mundo acha que pode falar sobre a nossa cama onde cabe, ou não, o
nosso filho. O mundo acha que pode decidir se vamos ao segundo, ou ao terceiro.
Mas que ir ao quarto já será loucura! O mundo acha que sabe mais da nossa
própria vida do que nós mesmas.
O mundo acha, e às vezes nós achamos que o mundo devia ir todo
dar uma curva. E ninguém nos disse que às vezes nós mandamos mesmo o mundo, e
algumas pessoas, darem uma curva. E que isso é libertador.
Ninguém nos disse!
Texto originalmente publicado em: Mãe como
tu


