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Arritmia do Coração de Mãe



O coração é um órgão vital no nosso organismo. É ele que bombeia o sangue que percorre o nosso corpo da cabeça aos pés, levando oxigénio e nutrientes que nos mantêm vivos e saudáveis. É ele que vai mudando a velocidade dos batimentos, seguindo o nosso estado de espírito e regulado pela atividade física que praticamos. É também o coração que está ligado às nossas emoções, do amor ao medo, da serenidade à angústia, da felicidade à tristeza – com uma escala de intensidade que fortalece a sua elasticidade.
O bater do coração é um dos primeiros sinais de vida. Para mim, é o big bang que inicia o ‘ser mãe’. Na primeira ecografia, ouvir o bater do coração de um novo ser, ainda dentro de nós, como se fosse um solo de bateria num concerto ao vivo, é um momento único. 
Acredito também que a partir desse momento o coração de mãe começa a bater de outra forma. Não deve ter explicação científica, mas vejo-o como se o coração adicionasse ao seu duplo batimento um ritmo diferente, mas que seguisse a sua harmonia e vitalidade, sem perder as suas funções. E tal como no amor, um novo filho não vem destoar a precursão da melodia do coração, mas sim fazer com que os velhos e os novos sons se encaixem na perfeição. 
O coração de mãe cresce com os filhos. Não no sentido de bater com uma rapidez alucinante ou de aumentar exponencialmente o seu tamanho e parecer que vai saltar no nosso corpo, mas no sentido de ter de guardar no coração de mãe todo os momentos do crescimento dos filhos. 
Na primeira infância tem de reconhecer o choro do bebé e alegrar-se com as primeiras gargalhadas. Depois, a persistência dos primeiros passos até à corrida desenfreada, o medo que caia e se magoe a andar de bicicleta e de skate ou que fique sem pé depois de um mergulho na piscina. Com a entrada na escola, com novas rotinas e desafios de aprendizagem. Se tiverem saúde, o coração pode serenar, mas vai acelerar com a preocupação de cuidar deles se ficarem doentes. 
A adolescência é um verdadeiro teste ao músculo cardíaco das mães: os amigos, as alterações do corpo e as hormonas, o mundo digital. Uma lista que parece todos os dias ter um motivo para apertar o botão de pânico do coração materno. Que se equilibra com conversas intermináveis, com cumplicidade e confiança, com respeito e aceitação, com conselhos trocados (de parte a parte). O ritmo do coração de mãe tem de encontrar lugar em todos os estilos musicais, do hip-hop ao clássico, sem que haja compasso que acerte em cheio na fórmula perfeita para esta fase da vida dos filhos. 
Um estágio para o que o futuro reserva: a independência que tanto impulsionamos, uma vida adulta feliz com pedras no caminho que saberão guardar e usar, a concretização dos seus sonhos. De um lado, o orgulho e a alegria da realização e, do outro, a preocupação e o medo de que a vida não seja generosa. Altos e baixos que farão bater o coração de mãe com maior intensidade.

Se os filhos são os únicos que conhecem o bater do coração de uma mãe por dentro, é também este amor incondicional que faz com que sejam os únicos que regulam o ritmo dos batimentos do coração de cada mãe. Para toda a vida.