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Ela não quer mais, e agora?



Antes de a Aurora nascer, uma das minhas dúvidas era se teria leite suficiente e se ía conseguir amamentar. Claro que, assim que ela nasceu, e como acontece com as outras mães, foi natural e instintivo. Não tinha muito jeito, mas fui ganhando e gostando daquele momento nosso, da forma como me olhava enquanto se alimentava. E era tão especial ter uma ligação assim com aquele ser que, durante aqueles minutos, era só meu novamente. Foi assim durante um mês, foi assim até que ela deixasse de engordar, até que passasse de uma bebé calma para uma bebé chorona e impaciente. Depois de uma semana de choro, pais inexperientes e ingénuos, achámos que se passava algo pior, lá fomos com a bichinha para o hospital. Tinha fome. Bolsava muito e o meu leite não era suficiente. Li muito sobre o aleitamento materno e como era importante para o bebé, como o ajudaria a criar defesas. Também sabia que não existe “leite mau”. Saímos do hospital diretos para a farmácia para comprar leite adaptado. Não deixaria a minha bebé nem mais um minuto que fosse com fome. Resultou! Dormia agora muito melhor e parou de chorar. Voltou a ser a bebé calma e serena que conhecíamos já tão bem. Passou a mamar primeiro e a beber o suplemento anti regurgitante que ajudou também na parte do bolsar em demasia. Estivemos assim até ao 3º mês, e um dia, ela não quis a mama. Chorou, virou a cara, esperneou. Não tinha fome? Estaria doente? Ofereci o biberão, ela bebeu. Não queria mamar. Durante o mês seguinte, em todas as mamadas lhe ofereci a maminha, “enganei-a” algumas vezes, de manhã, mas gradualmente foi rejeitando. Deixou mesmo de querer a mama, o meu leite. Procurei ajuda num grupo de amamentação gerido por enfermeiras e CAM’s, mas percebi de imediato o quanto era silenciosamente criticada por alimentar a minha bebé com leite de lata. Que mãe horrível prefere alimentar a sua criatura com leite artificial, a deixá-la passar fome enquanto experimenta todas as formas de lhe dar apenas o seu leite e espere que ela não bolse? Visto assim, estava a ser uma péssima mãe. E continuaria a sê-lo, porque não deixaria a minha filha passar fome, um minuto que fosse. Tive pena, muita pena, mais do que pensava vir a ter quando ela deixasse de mamar, gostava de amamentar, mas não podia obrigá-la. Fiz tudo o que podia e sabia, tive de aceitar que terminara ali a fase de amamentação. Aprendi muito, aprendi a aceitar os timings e as vontades da Aurora. Aprendi que cada bebé é um bebé, e claramente, cada mãe é uma mãe. Aprendi que não podemos ser extremistas. Talvez tenha sido castigada por ter sempre dito que “se amamentar será até ao ano, no máximo”. Nem isso pude fazer, mas cheguei aos 6 meses da minha bichinha com a certeza de que fiz o melhor que sabia e conseguia! Sou uma mãe feliz e tenho a certeza que estou a criar uma bebé incrível, com ou sem leite materno.