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Entrevista | Ana Peixoto Almeida



A Ana tem 40 anos, é de Braga, lá viveu até aos 18 anos e para lá voltou em 2006. Nos 10 anos que esteve fora, viveu em Lisboa e em Atlanta, no sul dos Estados Unidos da América. 
Estudou Ciências da Comunicação e foi a esta área que dedicou 12 anos da sua carreira. Primeiro em Lisboa, depois no Porto, mas sempre a saltitar entre as duas cidades, foi brand manager nos maiores grupos de telecomunicações do país e adorava o que fazia. Até que um dia decidiu mudar de vida, tornou-se empreendedora e em 2013 fundou a Grace Baby&Child, um blog de família e uma marca de roupa para crianças dos 0 aos 10 anos. Mãe de duas miúdas (Constança, 6 anos e Camila, quase 4 anos) com uma terceira a caminho. 
No final de 2016, fizeram a grande mudança das suas vidas e juntaram-se ao meu marido em Basileia. Num apartamento bonito na margem do rio Reno viveram pouco mais de 1 ano; regressaram no Natal de 2017. Foram tempos duros porque teve que se dividir entre duas casas, duas cidades e dois países. Viajaram os dois muito em trabalho e estiveram muitas semanas sozinhos com as miúdas, sem apoio doméstico ou da família, mas para a Ana foi um ano bom, “Tive muita pena de me vir embora, no entanto sei que as nossas aventuras pelo estrangeiro não vão ficar por aqui”.
O que os outros dizem sobre si?
Talvez que seja um pouco antipática. Acho que não sou muito de sorrisos num primeiro contacto, muitas vezes porque estou com pressa, pouca paciência para conversa de circunstância ou com a cabeça noutro lugar. A minha irmã chama-me a atenção para isto portanto se calhar é mesmo verdade :) 

O que ninguém ou poucas pessoas sabem sobre si?
Pouca coisa porque quando tenho empatia com alguém facilmente abro o livro. 

Que hobbies tem?
Viajar. Escrever, embora não tenha tanto tempo quanto gostaria. Decorar e redecorar a casa, mudar as coisas de lugar até encontrar o seu lugar perfeito. 

Livro ou cinema?
Ambos. Livros, infelizmente, quase só nas férias. Cinema uma vez por mês. 

Praia ou campo?
Praia mas cada vez mais campo também. 

O que mais lhe dá prazer?
Ter a casa limpa e arrumada. Dormir uma noite de sono numa boa cama de hotel. Receber a roupa branca lavada pela minha mãe. O cheirinho a terra molhada. Ouvir a chuva cair deitada na cama. E mais recentemente, estar em casa em frente à lareira. 

O seu maior sonho?
Tenho alguns, não sei se são sonhos ou projetos de vida.
Hoje, grávida de 5 meses, o meu maior sonho é ter esta bebé com saúde e conseguir atingir o ponto de equilíbrio e de tranquilidade na minha vida. 

O que a maternidade mudou em si?
Eu sempre soube que tinha os genes de lutadora da minha mãe e das minhas avós, mas nunca imaginei que fosse capaz de fazer tantas coisas, de levar tanto para a frente, de fazer acontecer. Acho que foi a maternidade que me puxou pelas garras. 

Qual o maior desafio de ser Mãe?
Educar bem. Saber educar crianças com auto-estima, responsáveis, tolerantes, conscientes do mundo e do que é certo e errado. 

A que se deve o nome do seu projeto?
O projeto começou por se chamar Ma Petite Princesse em honra à minha filha mas mudei depois o nome da marca para Grace quando iniciámos a internacionalização. 

O que é a Grace Baby&Child?
A Grace Baby&Child é uma marca que pretende acompanhar as mães e o crescimento dos seus filhos na tarefa de os vestir, desde o nascimento até aos 10 anos, oferecendo uma gama cada vez mais completa e igualmente essencial. Assim, cada coleção divide-se em 3 linhas: newborn (dos 0 aos 12 meses), baby (dos 12 aos 36 meses) e child (dos 2 aos 10 anos). 
A marca ambiciona oferecer propostas para um guarda-roupa infantil o mais completo possível. Ao nível de vestuário, as nossas coleções são muito completas e compostas por: partes de cima (blusas, camisas, t-shirts, camisolas, casacos), partes de baixo (calções, bloomers, calças) e ainda vestidos, fofos e jardineiras, sem esquecer os acessórios (cachecóis, gorros, toucas, elásticos de cabelo, etc.). 
A linha de Home da Grace Baby&Child apresenta uma linha nursery para o recém-nascido (com alcofas, berços e todos os essenciais para o bebé, como fraldas e babetes, mantas e swaddles, sacos de dormir) e uma linha de banho e decoração de quarto (com roupa de cama, colchas, resguardos, almofadas decorativas, colchões para brincar, entre outros). 
Todas as peças são desenhadas em Portugal e produzidas em pequenas quantidades numa equipa de parceiros cuidadosamente seleccionados e localizados a não mais do que 70 kms de Braga. Atualmente trabalhamos com uma fábrica na Galiza e duas fábricas no Minho. 

Como e quando nasceu a Grace Baby&Child?
A Grace Baby&Child foi fundada em 2013 por mim durante os cinco meses de licença após o nascimento da minha primeira filha. Não foi propriamente uma ideia de negócio, foi antes uma experiência que eu quis viver e que consistia em pegar num projeto começado pela minha mãe para “ver no que dava”. Não havia um projeto, nem um plano... Acho que só depois é que liguei os pontos, que percebi que a minha vontade em fazer algo que viesse das minhas mãos, cabeça e coração tinha tudo a ver com a minha infância nos corredores da confeção do meu avô ou as tardes na loja da minha mãe. 

A maternidade teve alguma influência na criação do seu negócio?
Completamente. A família é a minha inspiração de base. A Grace nasceu junto com a minha filha Constança e é uma empresa 50% minha e 50% do meu marido portanto é como uma filha para nós. 

Como concilia a vida profissional como a vida pessoal? 
Com muita dificuldade [sorriso]. Profissionalmente é difícil porque com o nível de exigência que coloco na Grace, há sempre muito por fazer; somos uma equipa pequena a sonhar em grande. Mas se antes trabalhava muito e até muito tarde, aos 40 anos vou conseguindo encontrar o meu equilíbrio. É muito importante ser organizada. Descrevo-vos o meu dia, um dia comum. 
Acordo geralmente antes das 7h. Tento ter uns minutos para mim, na cozinha com o meu copo de água morna na mão a contemplar o nosso jardim; é uma espécie de meditação. Na cozinha, preparo o pequeno-almoço das miúdas, as mochilas e as lancheiras para o colégio. A seguir começo a cuidar delas, que entretanto já acordaram a julgar pelo barulho no andar de cima: vestir, calçar, pentear, lavar os dentes em conjunto com o Bernardo, que entretanto também se arranja. Se o dia está bonito e elas podem usar vestidos, saias ou calções, tudo corre bem. Se chove ou está frio, preparo-me para uma luta. É muito difícil fazê-las usar algo que lhes tape as pernas! Principalmente à Constança, que acaba por pegar esta mania à irmã [risos]. 
Pelas 8h30 da manhã as miúdas saem com o pai e então, com a casa em silêncio, abro as janelas, arranjo-me, dou uma arrumadela rápida nos quartos e pelas 9h saio. Tomo o café sempre fora de casa e se não tiver ginástica, ioga ou esteticista, às 9h30 já estou em frente ao computador. 
Trabalho sem grandes interrupções até às 18h, hora em que pouso a caneta para ir buscar as miúdas ao colégio e até às 21h sou 100% mãe; não há tv, telemóvel ou computador que me distraia. Depois dessa hora, depende. Antes voltava a trabalhar (demasiadas vezes), hoje já não consigo. Então trato da casa (há sempre qualquer coisa para arrumar) ou vemos uma série os dois. Tento deitar-me pelas 23h. 

Como tem evoluído a Grace Baby&Child?
Muito bem, estamos em crescimento, a todos os níveis: vendas, mercados e equipa. Até 2014 a Grace era um projeto exclusivamente pessoal; hoje somos uma equipa de 5 pessoas, 2 a tempo inteiro e 3 em part-time. 

O que mais gosta do seu negócio?
Das coisas boas que me trouxe: liberdade acima de tudo. Não posso dizer que me tenha trazido mais tempo, porque trabalho mais do que alguma vez trabalhei, mas deu-me o mais importante: a autonomia para ser eu a decidir o que fazer com o meu tempo. Também me trouxe pessoas e algumas entraram na minha vida para ficar. 

Se voltasse atrás faria tudo de novo ou alteraria alguma coisa, das suas opções e escolhas profissionais?
Difícil responder. Acho que seria mais cautelosa nos custos.
E hoje sei que devo seguir sempre mas sempre o meu instinto. Há pouco tempo tomei uma decisão não baseada no meu instinto mas que achei ser melhor para a Grace e para o futuro da marca. Não foi e hoje pago pelo meu erro e sofro com a desilusão. 

Perspectivas pessoais para o futuro?
Como me imagino daqui a 5 anos? Talvez com mais 2 filhos (sempre quisemos ter muitos filhos e se fossem dois rapazes era o sonho) e um carro grande [risos]. A fazer as malas, a preparar-me para mais uma mudança nas nossas vidas, de partida para outro país. Não me imagino a ficar em Braga para sempre. 

Perspectivas do negócio para o futuro?
Quanto à Grace... o caminho é para a frente. Já não tenho a menor dúvida que este projeto é um negócio para fazer crescer, para expandir... lançar novos produtos, trazer mais pessoas a bordo, chegar a mais países. Como empresa a sério, a Grace ainda tem 4 anos de vida. O meu maior sonho é, daqui a 40 anos (!), entregar a empresa às minhas filhas para elas seguirem o seu caminho. Não poderia ser de outra forma. A Grace será o meu maior legado. 

Como divulga a Grace Baby&Child? 
Essencialmente através das redes sociais, newsletters, em mercaditos tipo o Mercaditos Blog da Carlota e também através do meu blog neste momento meio adormecido por falta de tempo mas a vou retomar em breve. 

O que diferencia a Grace Baby&Child das restantes marcas no mercado?
Alguns aspetos, todos eles ligados ao nosso extremo cuidado em criar. 
Por um lado, a qualidade. Seja verão ou inverno, praticamente todas as nossas peças são forradas com tecidos 100% algodão e cada vez mais 100% algodão orgânicos. Preocupamo-nos muito com os detalhes e acima de tudo com os acabamentos ao ponto de nas peças de recém-nascido não termos praticamente costuras. Pormenos que na nossa opinião fazem a diferença e justificam o preço. 
Por outro, todas as peças da Grace são feitas por mães e pensadas para as mães. Nós testamos as roupas nos nossos filhos e tentamos que sejam funcionais, sem deixarem de ser um bocadinho românticas, com um look quase vintage. Por isso o feedback que as clientes nos dão é de que a Grace consegue um ótimo meio termo entre o clássico e o moderno. Para nós, a Grace Baby&Child representa tradição com um toque cosmopolita, modernidade sem extravagância, cuidado, perfeição e acima de tudo amor pelas nossas crianças. 

Objectivos para o futuro?
Ser um negócio sustentável, fazer um bom trabalho e ser feliz. 

Um conselho para quem tem um projecto de negócio na gaveta?
Podia dizer várias coisas mas que se resumem a isto: tudo é possível. 
Vejam os últimos 6 anos da minha vida: tive uma filha, criei um negócio e foi como ter dois bebés ao mesmo tempo. E dois empregos. Depois engravidei e ao mesmo tempo larguei o meu emprego, troquei o certo pelo incerto, o Bernardo foi para fora e eu fiquei em Portugal, com uma filha pela mão e outra na barriga. A Camila nasceu, a Grace cresceu, saiu da sala de estar, contratei pessoas, mudei de país, as miúdas de escola, depois de casa e de país outra vez e de casa outra vez e aqui estou eu... ufa. É cansativo, é entusiasmante, é tramado, às vezes dramático até, mas é possível. 
Eu vejo tanta gente infeliz, que quer mudar, mas com tanto medo... e quando me perguntam qual é o segredo, como é que eu fiz, eu começo por dizer: estruturem as ideias, ponham o negócio no papel, estudem os prós e os contras, procurem informação e definam uma meta. 
E depois trabalho, muuuuuito trabalho. Há uma frase que um professor me disse uma vez e eu nunca mais esqueci: o único lugar onde “sucesso” vem antes de “trabalho” é no dicionário. Não há desculpas. Se quisermos muito, se acreditarmos muito e se trabalharmos em igual dose tudo, qualquer coisa, pode ser possível. 

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Obrigada Ana, pela partilha.