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Entrevista | Catarina Ferreira


A Mãe inspiradora desta semana chama-se Catarina Macedo Ferreira, mais conhecida pela Catarina da Ties ou a Mãe Fotógrafa! A Catarina tem 32 anos, nasceu no Bairro de São Miguel em Alvalade (Lisboa), onde agora reside. Tem 4 filhos, é formada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, a Faculdade mais bonita de todas, no Convento de Francisco no Chiado. Hoje é Fotógrafa de famílias, Blogger e Mãe.

“Desde que me conheço que tenho duas coisas na minha cabeça: ser mãe e pintar. Fazer disso a minha vida. Talvez com alguma ingenuidade achei que iria conseguir ter as duas, apesar de todos dizerem que seria improvável. Sou a segunda de 4 irmãs, mas fui a primeira a casar, aos 22 anos.”

Quem é a Catarina?
“A Catarina é uma mulher. Já não a consigo descrever como uma miúda.
É uma mulher sonhadora, mas que precisa de ter os pés bem assentes na terra. Aventureira e corajosa. É também insegura, em algumas situações.
É muito espiritual e tenta viver a Fé.
A Catarina vê primeiro o lado bom. Confia primeiro.”

O que os outros dizem sobre a Catarina?
"DIzem que é querida. Acho… "

Pedimos à Catarina para partilhar connosco uma coisa que poucas pessoas sabem sobre ela:
"Ao contrário do que se diz sobre as mulheres, eu não sou multitasker. Não sou de todo capaz de prestar atenção e executar tarefas em simultâneo.
Quando tenho um projecto em mãos não me envolvo em mais nada. Tenho uma grande necessidade de controlo e por isso faço uma coisa de cada vez."

Praia ou Campo?
"As duas. Juntas ainda melhor."

Livro ou Cinema?
"Amo cinema, sou uma pessoa muito visual, não poderia descartar o cinema da minha vida.
Mas um bom livro é maravilhoso."

Mãe ou Fotógrafa?
"Mãe. Primeiro mãe. Se tivesse que ser mãe a tempo inteiro seria. Sei perfeitamente o impacto que isso tem na vida dos nossos filhos e na nossa. Mas, tenho demasiadas ideias para não ter uma actividade profissional ou apenas por gosto. Posso escolher mãe fotógrafa? :)"

Ser Mãe mudou a vida da Catarina, no quê em concreto?
"A maternidade numa primeira fase tornou-me mais mariquinhas. Nunca senti que hiper protegi os meus filhos, mas nunca mais me coloquei em situações de possível risco, como por exemplo, mergulhar nas marés vivas na praia como fazia nos meus 18/19 anos.
A maternidade fez-me crescer e amadurecer, já que toda a época dos meus 20 anos foi passada a ter filhos. trouxe-me um grande sentido de realização, como se já tivesse alcançado algo de incrível. O amor pelos filhos é algo de muito grandioso, muito altruísta e ao mesmo tempo muito duro. Ainda sinto que a maternidade continua a mudar coisas em mim. É um processo de constante crescimento…"

Qual o maior desafio de ser mãe?
"Educar. É muito, muito desafiante. Dá muito trabalho, nunca se pode desistir. É um teste o dia todo. Às vezes apetece descansar e pôr em standby as nossas “obrigações” como pais.
Mas nunca podemos desistir de educar os nossos filhos, seja nas coisas mais pequeninas (serem cuidadosos com as suas coisas, arrumados e autónomos, ou saberem estar à mesa até aos valores com que queremos viver.
E depois, o grande desafio, ganhar a consciência de que os filhos não são nossos, são só emprestados :)"

Como a Catarina concilia a vida profissional com a pessoal?
"Bom, é uma grande misturada na verdade. Uma parte da minha vida está muito exposta e sempre de mãos dadas com o trabalho. Não me incomoda e acho que faz o seu sentido.
Depois há algumas decisões que tenho vindo a implementar: já não fotografo casamentos, não fotografo aos fins de semana nem feriados."

Se a Catatina tivesse a oportunidade de voltar atrás, fazia tudo de novo ou alteraria alguma coisa nas opções de vida?
"É uma pergunta difícil, não seria capaz de alterar o número de filhos… porque adoro-os de morte, mas a passagem para 4 filhos foi sem dúvida muito difícil. Quando encontro alguém com 3 filhos e que me diz que gostava de ir ao quarto filho, não tenho cerimónias em desencorajar!
Quando decidimos casar estávamos doidos para ter filhos e começar a nossa vida. Hoje teria esperado um ou dois anos. [a Leonor apareceu de surpresa, uns meses antes da data prevista para nos casarmos, por isso, alteramos a data e casamos um pouco mais cedo]. Mas no fundo não mudaria nada porque isso iria alterar todo o rumo, e tudo o que aprendi."

Como é gerir uma família de 4 filhos com idades tão próximas?
"Ufa, é difícil. Não vou mentir. Eles têm idades próximas mas ao mesmo tempo a mais velha e a mais nova fazem 6 anos de diferença, o que obriga a que haja programas e actividades por vezes diferentes, muitas vezes temos que nos separar em família, para suprir as necessidades/ vontades dos mais velhos e dos mais novos. No entanto é uma excepção, acho muito importante que as actividades dos miúdos não nos escravizem, e por isso a maioria das vezes são eles que se adaptam à nossa vida, ou procuramos soluções para estarmos todos bem, e não apenas os pais de “babysitter”.
Há uma coisa boa: as regras são iguais para todos, e por isso só repito “uma” vez, num ponto de vista geracional. A mais nova está a ser educada ao mesmo tempo e na mesma “exigência” que os outros. Claro que com as devidas adaptações, e ainda assim vejo nela o impacto do que vivem os mais velhos: o que vêem na televisão, como falam, o que vestem….
Sou muito facilitadora/ relaxada em algumas coisas: se por um lado não relaxo nos modos e na sua educação, relaxo muito mais com alguns horários (não todos e não sempre porque as rotinas são essenciais para o bem-estar deles e nosso). Mas nos jantares, são muito simples cá em casa: são um momento de família e para fugir do constante stress à mesa (o típico, não gosto, não quero, estou cansado, etc) fazemos sempre jantares mais simples, que sabemos que todos gostam, durante a semana. Às vezes nem incluem carne nem peixe, uma vez que almoçam na escola chega perfeitamente essa dose de proteína animal.
Efectivamente nenhum dos miúdos frequenta actividades fora da escola/horário escolar. É das maiores e melhores decisões para todos. Ninguém anda de arrasto nem à espera de ninguém. Depois da escola, vamos para casa e ainda temos um bocadinho para estar antes da frenética - banhos, trabalhos, jantar.
Tenho uma casa com muita arrumação e com poucas coisas. Parecendo que não, para mim é um factor-chave para ter a cabeça alinhada. Estar tudo organizado e arrumado.Não haver excesso de informação. O meu bem estar é a maior mais valia da nossa casa. Muda a forma como tudo acontece.
Temos as típicas discussões: todos prontos para sair, mas há xixis de última hora, ou o brinquedo que querem levar para a escola, e afinal de contas íamos todos sair a horas e já estamos atrasados. Quando não há uma birra para gerir, mesmo na “hora H”, e isto sim, há muitas vezes e deixa-me completamente de rastos.
Todas as semanas almoço com um dos meus filhos, ou passo umas horas da tarde só com os mais novos. Isto é das coisas mais importantes de se fomentar em família, ainda mais numa numerosa, em que eles têm imensa sede de nós, e em que são tão diferentes quando estão sozinhos. Principalmente nos mais velhos, proporciona um espaço de conversa e cria mais ligação."

Tem vontade de aumentar a família?
"Não. Estou muito feliz com esta equipa :) Gosto muito desta nova sensação de que já conheço os meus filhos. Até aqui vivia sempre no… “como será o próximo?”. Agora nem me passa pela cabeça. Quero muito gozar estes, e poder dar-lhes uma mãe presente. Ter mais filhos (agora) representaria uma mãe desequilibrada, pouco feliz e presa. É a sensação que tenho agora sempre que vejo um bebé. Desestabilizar-me-ia muito."

Como é ter uma família numerosa e não ter carro?
"No meu caso, é não ter carta de condução… Não tem drama nenhum. Facilmente coloco todos na bicicleta e dentro da área de Lisboa consigo levá-los mais ou menos a qualquer lado, quando não tenho cá o marido.
Ou então andamos de metro, que já de si é um programa que eles adoram.
É uma coisa que faço questão de manter, mesmo quando tiver a carta de condução: bicicleta todos os dias para a escola. Porquê? Para além de ser uma boa prática, a nível de estilo de vida, dá-lhes uma enorme resiliência. Muitas vezes têm que ir à chuva, ou ao frio, e aprendem que não é tudo fácil. Os nossos filhos têm uma vida facilitada, e nós pais, continuamos a facilitar, faz parte da nossa natureza. Na bicicleta encontrei uma maneira de equilibrar isto."

Como nasceu a Ties?
"A Ties nasceu do blogue tetemãe. Um blogue que criei em 2011 para dar notícias aos amigos da nossa família, estávamos em fases de vida diferentes e eu sentia me sozinha. Foi um projecto que não tinha qualquer ambição, apenas começar a comunicar e ter um espaço onde registasse o crescimento da Leonor e do Xavier. Na altura a Leonor tinha dois anos e o Xavier 4 meses. Meses depois percebi que as minhas fotografias poderiam tornar-se profissionais, e que poderia continuar o meu projecto de pintura (que trabalhava estes temas) para outro suporte: a fotografia. A pintura mantinha-me isolada, em atelier. A maternidade mantinha-me isolada nos horários e limitações dos meus filhos. Estava a precisar de fazer o oposto: comunicar.
Em jeito de brainstorming com uma amiga, chegamos a este nome. A ideia era entrevistar e fotografar mães empreendedoras, que de alguma forma tivessem ajustado o seu trabalho para encaixar melhor com os desafios da maternidade. Entrevistei cerca de 17 mães com os seus negócios e isso fez de mim “a Ties”. A partir daí trabalho nunca mais faltou."

A máquina fotográfica sai sempre à rua com a Catarina?
"Não! Houve tempos que sim. Depois aprendi que a memória também é uma ferramenta essencial, e que para estar por inteiro é preciso não ter nada  nas mãos."

Existe diferença entre as fotos da Catarina fotógrafa e da Catarina mãe?
"Não, entrego tudo na mesma dose!"

A Catarina fez há cerca de ano e meio fez uma abdominoplastia para resolver a diástase resultante das gravidezes. O que é uma diástase?
"Uma diástase é um afastamento, neste caso, dos rectos. De gravidez para gravidez, por falta de conhecimento e acompanhamento os meus sintomas foram piorando. No 3º filho, por ter tido acesso a uma excelente PT especializada em pós parto, foi diagnosticado 3 dedos de diastase, e conseguimos reduzir com exercícios específicos, para dois dedos. No entanto, a gravidez muito seguida da Graça estragou esse trabalho, e acabei com quase 6 dedos de diástase, no meu caso acabou por se tornar um caso cirúrgico, mas nem todos têm que ser."

Em que consiste a abdominoplastia?
"A abdominoplastia vai voltar a unir os rectos. É feita uma incisão abaixo da linha do bikini, que vai de anca a anca. Essa pele é levantada e o cirurgião pode então ter acesso aos nossos abdominais, e voltar a juntar, dando pontos para fixar. No meu caso, estes pontos foram reforçados, devido a uma grande pressão intra abdominal. Depois a pele é esticada, o que está a mais fica de fora e volta-se a unir tudo, fazendo também um novo buraquinho para o umbigo."

A relação com o corpo melhorou depois da cirurgia?
"Sempre fui gordinha e sempre quis emagrecer/estar mais magra. A partir dos 15 anos lembro-me de fazer dieta uma a duas vezes por ano. Acho que nunca estive realmente feliz com o meu corpo, a dada altura aceitei que tinha uma estrutura larga e que era assim.
As gravidezes puseram-me noutra escala, cheguei aos 90kg. Foi um impacto muito grande, em todas as gravidezes tentei perder o máximo que pude, mas nunca conseguia chegar ao meu peso inicial, ficava sempre 5kg aquém. Como os intervalos entre os filhos também não foram grandes não dava tempo suficiente para essa recuperação ser mais completa. Entre os dois filhos do meio tive um aborto retido às 17 semanas, e portanto acabaram por ser 5 gravidezes em 7 anos.
Fiquei logo com peles na barriga, muitas estrias, e uma barriga sempre difícil de perder.
A cirurgia deu-me a oportunidade de escrever esta história outra vez. De me pôr em primeiro lugar e de querer mais e melhor para mim. A dada altura conformei-me com o “ser gorda” e isso dá azo a um grande desleixo e pouco respeito comigo mesma. Por isso sem dúvida alguma que esta cirurgia deu-me uma melhor relação com o meu corpo, ainda assim é algo que continuo a trabalhar todos os dias."


Querida Catarina, muito obrigada pelo carinho, pela leveza e honestidade com que nos respondeste, se já gostávamos de ti, ficámos ainda mais fãs, és um ser humano maravilhoso! Podem encontrar o trabalho da Catarina Ferreira nos seguintes links: