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Fui eu quem fez...



Dos momentos importantes no desenvolvimento infantil, um que se destaca é aquele em que a criança começa a controlar os esfíncteres e mais importante do que a idade ideal para o conseguir, é o estado em que se encontra o processo de construção identitária do Ser em viagem, rumo à individualização.
A verdade, é que por trás desta conquista que deixa os pais tão felizes e orgulhosos, desenrola-se todo um processo bastante complexo para a criança, que envolve, a noção de ser um Eu, a percepção de alguns limites e a capacidade de se separar tranquilamente, de algo que saiu do seu corpo e que é sentido como parte de si.
A construção identitária começa bem cedo e o bebé, vai dando sinais quando vai percebendo que existe um Eu e os outros. Parece simples, mas é de uma enorme complexidade e exige proximidades e afastamentos, que façam a criança experienciar o estar com e o estar sem.
Quando se dá realmente o segundo nascimento, o ”nascimento psíquico”, a criança percebe-se mais ou menos como um ser individualizado, diferenciado dos outros e esta descoberta dá-lhe algum poder. É muito engraçado quando observamos esta transformação e vemos a criança a falar de si na primeira pessoa, usando ostensivamente o Eu, experimentando os limites da força desse novo ser psíquico, artilhado com “nãos” a baterem pé com determinação. É como se a criança dissesse: “Cheguei e agora vou tirar a barriga de misérias e ser Eu a mandar”. Os pais que se aguentem, mas é um forte sinal de estar tudo bem.
De facto, nos primeiros tempos deste reinado, a criança tende a abusar um bocadinho e testa os limites impostos pelos os adultos, fazendo braço de ferro com regras e negas, que só mais tarde, maturando, perceberá serem para seu bem e não por mera implicância. 
Ora é neste momento, de experimentação dos limites e do controlo, que a criança vai ganhar também consciência dos limites e do controlo do próprio corpo, sendo por isso a altura ideal para se iniciar a retirada das fraldas, que disfarçavam esta actividade fisiológica, em que algumas produções nossas têm que se ir embora. Por ser um processo gradual sou muito apologista dos bacios nos primeiros tempos. Permitem despedidas mais prolongadas e apreciação das obras de arte, que inicialmente suscitam tanta curiosidade. O “museu bacio” deve ser escolhido a dedo, com a ajuda dos artistas.
É uma fase do desenvolvimento trabalhosa e com direito a muitos descuidos, que devem ser contidos com calma e compreensão. Esta coisa nova de controlar o próprio corpo requer treino. Mas é um marco muito importante para o desenrolar de etapas seguintes. Por isso, quando surgem dificuldades, as mesmas devem ser devidamente auscultadas, pois podem estar a comunicar complicações muito mais profundas e de carácter psíquico, que traduzidas e enquadradas, facilmente se poderão desfiar e permitir a continuidade de todo o processo de crescimento.