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Meninos doces ou quando a Diabetes entra em casa


Cansaço, apetite voraz, emagrecimento, sede excessiva, urinar com muita frequência e em grande quantidade – são estes os sintomas mais frequentes na criança que é diagnosticada com Diabetes Mellitus tipo I – uma patologia crónica de causa ainda não plenamente conhecida, em que o pâncreas deixa de produzir insulina pois existe uma destruição maciça das células que a produzem. A causa da Diabetes tipo I não está por isso diretamente relacionada com hábitos de vida ou de alimentação errados, ao contrário do que acontece na Diabetes Mellitus tipo II, que ocorre maioritariamente na idade adulta e que representa o tipo mais frequente de diabetes (90% dos casos).

O diagnóstico de uma patologia crónica, ainda mais numa criança, “faz o mundo desabar” e implica uma grande reorganização familiar! Para além de toda a gestão física da patologia (monitorização da glicemia (açúcar no sangue), injeção de insulina (ou uso de sistema de infusão) e avaliação de outros indicadores), os efeitos emocionais são também uma consequência do diagnóstico da diabetes. Por isso, é importante que os pais reconheçam os sentimentos que as crianças com diabetes possam ter e aprendam a ajudá-los.

As crianças ou adolescentes com Diabetes podem sentir isolamento (sentem-se diferentes dos amigos e colegas), negação (para não se sentirem diferentes fingem que não têm diabetes, evitando sinais exteriores da mesma), tristeza ou depressão (é vulgar a alteração de hábitos de sono, de alimentação, maior cansaço), culpa (sentindo que é culpa delas ou sentindo culpa pelas alterações familiares provocadas), zanga ou ressentimento (por algumas eventuais restrições), frustração (pelos resultados das análises), medo e ansiedade (avaliação do açúcar no sangue, agulhas e o potencial para problemas de saúde a longo prazo podem ser assustadores para as crianças).

O que podemos fazer enquanto pais e cuidadores?
* Procurar informação junto dos profissionais de saúde especializados na área – obter a informação necessária e correta ajuda-nos a sentir maior tranquilidade na gestão da diabetes e no auxílio a prestar à criança.
* Procurar grupos de apoio (para os pais e para a criança) – conhecer outras pessoas com a mesma condição ajuda a evitar o isolamento, facilita a partilha e o acesso à informação. Ex: APDP, AJDP
* Reconhecer os sentimentos da criança - tentar ouvir tudo o que ela tem a dizer antes de expressarmos a nossa opinião ou sentimentos. Este tipo de comunicação nem sempre tem que ser verbal. Desenhar, escrever ou tocar música pode ajudar as crianças com diabetes a expressar as suas emoções.
* Ter consciência das nossas próprias necessidades – o diagnóstico da Diabetes altera toda a vida familiar e é muito fácil assumirmos total responsabilidade e esquecermos o autocuidado. Envolver os familiares e amigos sempre que possível ajuda a compartilhar as responsabilidades e a atenção.
* Envolver a escola – desmistificar a diabetes, fornecendo informação simples e correta a professores, auxiliares e colegas de modo a que possam lidar de modo mais natural com a diabetes.
* Ter em atenção os irmãos, caso existam - estes podem ressentir-se da atenção extra que uma criança com diabetes recebe, bem como sacrifícios (como comer alimentos mais saudáveis ​​nas refeições familiares ou ir ao médico) na sequência da diabetes do irmão.
* Incentivar a criança à gestão activa da diabetes – atribuir tarefas e responsabilidades de acordo com a idade (medir a glicemia, injetar insulina, detetar sintomas, etc) irá ajudar a criar maior autonomia e a facilitar a que a criança tenha uma rotina diária idêntica à das outras crianças (ir à escola, dormir em casa de um amigo, ir a um campo de férias, etc).

A Diabetes Mellitus tipo I continua a ser uma doença crónica sem cura, mas felizmente, com os avanços nos métodos de diagnóstico e nos sistemas terapêuticos (quer nas características da insulina quer nos métodos de administração), consegue-se cada vez mais um bom controlo metabólico evitando assim as consequências a longo prazo da patologia. Encarar esta nova situação com otimismo, esperança e responsabilidade, permite que a criança faça uma vida normal, praticamente idêntica à das restantes crianças. O modo como pais e familiares encaram esta situação é (como em tantos outros casos) determinante para o modo como a criança lida e vive com a sua diabetes.