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Os meus filhos são prematuros



Hoje assinala-se mais um Dia Mundial da Prematuridade. Todos os anos, desde 2012, neste dia, dou por mim a recordar aqueles que foram sem qualquer sombra de dúvidas os dias, as semanas, mais angustiantes que vivi. Até então pouco tinha pensado sobre o que realmente significava ter um bebé prematuro. Um dos meus tios nasceu prematuro, na Guiné, há 62 anos e sempre ouvi a minha avó contar que era tão pequenino que as fraldas dele eram feitas com os lenços de assoar do meu avô. Para mim, prematuridade significava nada mais, nada menos do que um bebé muito pequeno. Até que chegou o dia em que nasceram os meus filhos.
Uma grávida de gémeos já ouve dizer quase desde o momento em que descobre que está grávida de gémeos, que a possibilidade de chegar ao termo da gravidez é muito remota. A verdade é que a maioria dos gémeos nasce antes do tempo. Habitei-me desde cedo à ideia de que no máximo chegava às 38 semanas, mas para mim, isso apenas tinha implicações logísticas. Tinha que preparar tudo o que é necessário para os bebés nascerem duas semanas antes do “normal”. Porque, convenhamos: Quem é a mulher que está preparada para ter um parto prematuro? Que tem realmente noção do que isso significa? Que acompanhamento ou preparação existe para esta temática?
O Daniel e a Carolina nasceram de 33 semanas. Tinha estado numa consulta 3 dias antes e depois de toda a avaliação tinha ouvido a minha obstetra dizer que o colo do útero estava super fechado e que ainda íamos ter que provocar o parto às 38 semanas porque eles estavam de pedra e cal. Sentia-me bem, cheia de energia, estava enorme mas não estava desesperada pelo dia do parto.
Rebentaram-me as águas pelas 2h da manhã numa madrugada de domingo para segunda-feira, sendo que nesse domingo tinha passado o dia na praia da Comporta. Sentia-me óptima! Não tinha as malas feitas e estava longe, muito longe, de me imaginar no hospital tão cedo.

Ultimo dia grávida

Mas nestas coisas quem manda não somos nós e o Daniel, já a mostrar a sua personalidade vincada, decidiu que queria nascer. Quase 24 horas depois de ter rebentado as águas, nasceu, de parto natural, sendo que a Carolina, que não concordou com ele nesta história de nascer antes de tempo, só veio ao mundo 2 horas depois e por cesariana. Fisicamente sofri bastante, fiquei internada 1 semana e os primeiros 2 dias após o parto estive acamada.
Depois de um parto prematuro as coisas sucedem-se a uma velocidade que temos alguma dificuldade em medir. Talvez porque estamos meio sedadas, cansadas e já não processamos a informação com a clareza normal, mas entre equipas a tratarem de nós e equipas a tratarem do ou no meu caso dos bebés, o movimento é alucinante! Imagino que haja 1001 procedimentos necessários para que tudo corra bem naqueles primeiros minutos de vida e aquilo que senti foi que podia confiar. Entreguei-me a mim e aos meus filhos nas mãos daquelas pessoas que nos trataram como puderam e conseguiram fazer o seu melhor para que tudo corresse bem. Hoje, à distância de 6 anos, sei que se tivesse tido clarividência para tal, teria pedido para que algumas coisas acontecessem de outra forma. Não prescindia de passar mais do que alguns segundos com a Carolina, ou de apenas ver o Daniel passar para ser preparado para a incubadora. Naquele momento, não tive capacidade para reagir. Também o parto me deixou marcas que provavelmente ficarão para sempre, mágoas que guardei bem cá dentro e que tento fazer de conta que não existem, mas que no fundo, sei que estão lá e que talvez até mexam mais comigo do que imagino.
Depois de toda esta azáfama, seria de esperar que fosse para um quarto com os meus filhos. Mas não. São prematuros. Estão em incubadoras e ficam na neonatologia, neste caso concreto dois pisos abaixo daquele em que eu ficava. Passei as noites a ouvir bebés a chorar nos quartos com as suas mães, enquanto eu, sozinha no meu quarto, chorava porque não tinha os meus bebés ao pé de mim. Dormi muito pouco, chorei muito, tentei ler, escrever, tudo o que tinha ao meu alcance para me ajudar a ultrapassar o facto de que estava sozinha num piso hospitalar cheio de mães com bebés recém nascidos.
No dia em que saí do hospital os meus filhos ainda lá ficaram, e foi sem dúvida o dia que mais me custou. Depois de já ter passado por tudo o que vos contei, a experiência mais avassaladora do ponto de vista psicológico foi sair do hospital e deixá-los internados. Há uma memória que acho que nunca vou esquecer, de olhar pelo retrovisor e ver o hospital a ficar pequenino enquanto as lágrimas me caiam descontroladamente pelo rosto. A sensação de impotência, o desespero, a vontade de fazer inversão de marcha só para chegar lá, agarrar neles e levá-los para casa! Não há palavras que possam descrever o que sente uma mãe nestes momentos.
A verdade é que quando saímos de casa para termos os nossos filhos estamos programadas para voltar para casa com eles! Lembro-me perfeitamente do último minuto antes de sair de casa para o hospital e sei que olhei à volta, respirei fundo e pensei exactamente isto: Quando voltar a entrar aqui eles já vêem comigo. Estava enganada.

Carolina e Daniel com 1 semana

No meio de tudo isto, olhava à volta e era das mães com filhos na neonatologia a que tinha mais sorte! Os meus filhos eram saudáveis, não tinham complicações de saúde, não ficaram com qualquer sequela pelo facto de terem nascido prematuros. Eram pequeninos, não tinham peso para apanhar vacinas e não tinham autonomia alimentar, ou seja, não sabiam mamar. Foram precisas duas semanas para que se tornassem fortes e autónomos o suficiente para irem para casa comigo. Mas, a esmagadora maioria dos bebés prematuros têm complicações, tem que travar duras batalhas e nem sempre ganham. Havia vários casos complicados nos berços mesmo ali ao lado, havia situações que nos faziam ficar de lágrimas nos olhos mesmo não sendo nossas, por isso sim, a nossa era uma situação de muita sorte!
Em todo este processo, para além do que sofri fisicamente, em que obviamente cada caso é um caso, o que mais me marcou foi o sofrimento psicológico. O que me parece, enquanto mãe que passou por tudo isto, é que era muito importante haver acompanhamento das famílias nestas situações. E não falo apenas das mães mas também dos pais, porque se a história que vos relato aqui hoje é vivida pelo meu ponto de vista, também existe o outro lado, o lado do pai que viveu isto tudo mas todos os dias regressou a casa a uns bons km’s de distância, sozinho.
Considero que devo ter sido das mães de prematuros com mais sorte, pois o internamento foi relativamente curto e não houve nenhuma complicação de saúde com nenhum dos dois! Ter um bebé prematuro tem um significado gigante e tem implicações a vários níveis. É complexo, exige uma resiliência que muitas vezes nem sabíamos que tínhamos e deixa-nos marcas para sempre. Porque a prematuridade, como quase tudo na vida, tem dois finais possíveis. Eu tive a sorte de viver o final feliz!
Família