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Mamã, isto é verdade?



Ninguém gosta de mentiras. Dizemos aos nossos filhos que não se deve mentir. Dizemos que é feio mentir. Reprovamos e castigamos quando mentem.
No entanto, mentimos. E mentimos ‘à força toda’.
Sabes, às vezes pensamos que é apenas uma meia verdade... (mesmo sabendo que não existem:), em prol da educação ou protecção dos nossos filhos.
Demos entrada no Hospital. Pela primeira vez, a minha filha de 4 anos sentiu o que era um ambiente hospitalar. Mesmo com um traumatismo na cabeça, estava calma e desperta. Fez testes de sangue, bebeu soro, fez raio x e foi observada por vários médicos. Durante todo este caminho houve tempos de espera (que parecem intermináveis).
Num destes tempos de espera, ficámos numa sala com outras mães e crianças. 
Uma menina, cansada de estar ali, chorava copiosamente. Queria o seu leitinho. Não podia pois estava a soro. A mãe, também cansada de estar ali, ficou sem recursos. E em vez de se ligar à criança, ligou-se à mentira. 
E começou:
Se continuas a chorar o doutor vem aí e leva-te.
Olha que vais levar uma pica.
Não podes beber leitinho, ficas doente.
A cada ameaça (mentira) a minha filha olhava para mim boquiaberta perguntando:
É verdade, mamã? O doutor vai levar a menina?
É verdade, mamã? Ela vai levar uma pica?
É verdade, mamã? Fica doente se beber o leitinho dela?
Reservei-me para um canto com a minha filha e perguntei-lhe baixinho:
Achas que é verdade, filha?
Ela sussurrou ao meu ouvido:
Não, mamã. Mas a menina acha.
Perguntei:
Como é que sabes isso?
Sussurrou novamente:
Ela está a chorar ainda mais.
As ameaças, as mentiras só nos afastam do outro ser. Só nos afastam de nós próprios.
Como adultos fugimos de aceitar que por vezes é necessário sentir dor. E por isso sentimos. Mesmo quando não compreendemos.
Falar a verdade dá sempre mais trabalho. Torna-se mais fácil mentir, inventar uma desculpa e manipular com uma ameaça. 
Falar do coração é sempre melhor. Abre canais, aproxima e cria uma atmosfera amorosa. 
E como o amor acalma a dor ambos tomam um analgésico natural que perdura no tempo, na relação, e especialmente nos momentos difíceis. 


Contigo.