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Os valores na educação de uma criança



Os valores essenciais na educação de uma criança

Nos tempos passados, de um modo geral, a hierarquia familiar estava muito bem definida e desde muito cedo as crianças aprendiam a seguir os passos dos pais e a obedecer, com base numa autoridade alicerçada na violência física e/ou verbal, em casa e na escola. Este tipo de educação causou repressão nas crianças, e os pais que tomaram consciência desse facto, porque a viveram na 1ª pessoa, começaram a educar os filhos de uma forma diferente. Estes novos pais, de forma consciente ou inconsciente, optaram por educar de uma forma oposta à que conheceram na sua infância. Passou a ser permitido às crianças falarem à mesa, escolherem o que querem comer, brincarem livremente, incluindo passar horas em frente a écrans. 

Algumas décadas volveram desde que esta tendência de parentalidade se instalou no ocidente, e de novo pais e professores voltaram a questionar o novo modelo de educação no ocidente, quando observaram os problemas de comportamento das crianças, como birras incontroláveis, vontades que exigem ver satisfeitas e, em casos extremos, tentativas de comandar completamente a vida familiar em torno dos seus desejos e caprichos.

Também eu questionei os valores essenciais na educação de uma criança e comecei uma busca exterior por respostas que me deu a conhecer um filósofo e educador que revolucionou o pensamento ocidental e oriental e que considerou a educação como sendo de importância primordial na comunicação daquilo que é o centro da transformação da mente humana e da criação de uma nova cultura – Jiddu Krishnamurti. Este pensador considerava a educação como uma atividade religiosa (re-ligar), no sentido desta ter como fundamental objetivo facilitar a ligação do homem ao todo, e não meramente transmitir e adquirir conhecimentos. Repetiu que o medo, a autoridade, condicionavam a aprendizagem da criança e não lhe permitiam desenvolver-se harmoniosamente.

Outra influência importante no meu percurso foi o trabalho do inovador pedagogo Jesper Juul (Family-Lab) e dos valores que definiu para a vida familiar: Igualdade, Responsabilidade Pessoal, Integridade, Autenticidade. Aconselho vivamente que todos os educadores explorem melhor o que significa cada um destes valores pois podem ser bastante iluminadores num sentido mais prático e não tanto filosófico.

Apesar de todas estas inspirações, na minha experiência pessoal como estudante, como mãe de um rapaz de 11 anos e no âmbito do projeto de educação O MUNDO SOMOS NÓS que coordeno atualmente, percebi o que funciona e o que não funciona na educação de uma criança. O que não funciona penso que já muitos de nós sabemos porque nos fomos questionando ao observar as crianças e a sociedade, mas o que funciona é mais difícil de vislumbrar e mais ainda de alcançar. Dei dois bons exemplos de pensadores que nos trouxeram propostas coincidentes, uma mais abstrata e outra mais concreta, sobre a educação. Podemos segui-los e tentar pôr em prática algo que lemos, mas a verdade é que ambos nos incitam a procurar dentro de nós mesmos, enquanto educadores, a chave para dar uma educação melhor aos nossos filhos. 
Então, o que funciona na educação das crianças?
Seguir modelos, sistemas educativos, especialistas, livros?

Eu descobri que aquilo que as crianças precisam é de educadores (pais, professores) conscientes de que representam o fator mais importante na educação. As crianças precisam de guias, de adultos inteligentes e amorosos, que lhes ensinem a arte de viver no seu todo. E elas aprendem por exemplos, aprendem com o que “é” e não com o que lhes dizemos. As nossas “teorias” e explicações de nada servem, pois elas pressentem o que nos vai nos pensamentos e nas emoções, e depois imitam. Por exemplo, se falamos alto com os nossos filhos, podemos esperar que eles falem baixo? Podemos assim dizer que na presença de educadores conscientes a educação funciona mesmo quando não funciona. Porque todos os dias são diferentes, todas as crianças são únicas, nenhum pai ou mãe é perfeito e todas as fases trazem mudanças. Em todos esses momentos, com todos estes elementos em transformação, o educador é aquele que tem a responsabilidade de segurar na sua mão a chave que abre a porta do coração da criança, para que com o amor que sente e a verdade de um relacionamento puro e sincero, ela possa ouvir, dialogar, aprender, e, enfim, ir desabrochando com liberdade.


Ivone Apolinário
Escreve no O Mundo Somos Nós
mãe do Tomás (e mãe em part time de 23 crianças d’ O Mundo Somos Nós), fundadora, coordenadora e formadora do projeto de educação holística O MUNDO SOMOS NÓS
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