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A importância da leitura na infância



O livro também é uma ferramenta

Como mãe e como pessoa tenho uma série de crenças (e não falo necessariamente das religiosas ou espirituais) pelas quais guio a minha maternidade, a minha vida pessoal e profissional. Acredito que, como pais ou prestadores de cuidados que de alguma forma tenham contacto com crianças, temos como missão dotá-las de “ferramentas” essenciais para a sua vida. Agora, que ferramentas cada um considera mais importantes, já é com cada qual.
Hoje quero destacar os livros. Considero que para ajudar as crianças a tornarem-se pessoas, cidadãos e cidadãs livres, conscientes e informados, nada melhor do que lhes incutir o gosto pela leitura. O prazer na leitura e a consciência da sua importância é das ferramentas mais poderosas que lhes podemos deixar na sua “caixa de ferramentas” para a vida. Uma pessoa que lê estimula o seu raciocínio, tem mais vocabulário, tem uma capacidade de expressão escrita mais completa, exercita a memória e a capacidade de interpretação, adquire um conhecimento amplo e diversificado sobre os assuntos, tem opiniões fundamentadas e capacidade de argumentação, tem maior facilidade na integração e participação ativa na sociedade.
Mas antes daqui chegar, há um longo caminho a percorrer. Não somos todos iguais e não nascemos todos com os nossos gostos e interesses definidos à partida. Há uns que podem e devem ser adquiridos ao longo da vida e o gosto pela leitura é certamente um deles. Como? Através de estratégias próprias e adaptadas a cada idade, nível de desenvolvimento e características pessoais.
Para começar, pode e deve se ouvir histórias e lengalengas desde o berço. O tom de voz, a cadência das palavras e a relação que se estabelece nestes momentos levam a que a criança sinta prazer e que comece a associar a escuta da palavra à sensação de satisfação.
A atividade primordial da criança pequena é brincar. É deste modo que ela se apropria do mundo que a rodeia, faz as suas primeiras experiências e se desenvolve na sua globalidade. “Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar.” (Rubem Alves) e, por isso mesmo, devem ser dados livros às crianças de modo a que se apropriem deles à sua maneira, mesmo que implique pôr na boca ou outras ações que a nós adultos não fazem sentido. O livro é fundamental para alimentar a vontade de descoberta e de conquista da criança.
Depressa chega a fase em que a criança começa a ter prazer em virar as páginas do livro, explorá-lo pelo seu conteúdo e pedir que o adulto o partilhe com ela. É nesta fase que devemos “ler” muitos livros para e com a criança. Livros cartonados, de cantos arredondados e páginas resistentes são ideias para as suas pequenas mãos. Quanto ao conteúdo, devem ser livros simples, com poucas imagens por página e conteúdos adaptados ao seu universo, aos objetos e situações que a criança conhece.
À medida que a criança vai crescendo, os livro também a devem acompanhar. Escolher livros com qualidade ao nível da ilustração, do texto escrito e do projeto no geral é importantíssimo. A criança começa a alargar o seu conhecimento e capacidade de entendimento e os livros devem acompanhar essa evolução. Os livros, as tão conhecidas “histórias”, devem ser explorados em momentos relaxantes lúdicos e afetivos.
A partir de certa altura é comum que os pais comecem a sentir alguma ansiedade em relação à escolarização dos filhos e da formalização das aprendizagens. No entanto o livro surge nesta fase com objetivos completamente contrários. Devem ser objetos lúdicos e estéticos, que atuam na criança ao nível do conhecimento e compreensão do mundo e de outras realidades, das aprendizagens emocionais e cognitivas, do alargamento da imaginação e criatividade. 
Na fase mais formal do ensino, conhecida como o ensino básico, em que o livro é tradicionalmente utilizado para transmitir ensinamentos (os tão conhecidos manuais escolares) devemos continuar a encarar a litura como um momento lúdico e afetivo, sem a carga formal que as escolas continuam a atribuir. Quando o leitor já for autónomo não há razão para não continuar a ler com e para ele para que a leitura possa perpetuar momentos de intimidade, de partilha e de afeto.
Algumas ideias gerais que gostaria ainda de vos deixar: é importante que os adultos que fazem parte da vida da criança dêem eles próprios o devido valor aos livros, uma vez que as crianças aprendem sobretudo por imitação; dar “acesso livre” aos livros e não os guardar como objetos preciosos que só podem ser manuseados com cerimónia; o que mata o gosto pela leitura é, entre outras causas, facto de um livro ser apresentado como obrigação, segundo Alice Vieira; Os livros devem ser selecionados pelos adultos e respeitar critérios como a qualidade e não unicamente o gosto ou a vontade da criança.

Boas leituras

Maria João Travassos