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Dicas para lidar com a adolescência


A idade da porta fechada
Diz-se que vai dando sinais cada vez mais cedo. Ou pelo menos vamos atribuindo os avanços do crescimento dos filhos à categoria de “adolescência”. Uma coisa é certa: esta é a fase da vida em que uma revolução acontece e que afeta não apenas a sua condição física mas também as suas relações sociais, onde os pais estão na linha da frente.
O seu quarto é o seu mundo, constroem a sua personalidade e têm opinião, decidem o que querem (e não querem) vestir, os amigos são o centro da sua vida, exigem liberdade e independência, e a qualquer instante têm acesso digital ao que se passa em todo o Mundo.
Como pais andamos meios perdidos, ainda a recuperar o fôlego da infância e é-nos exigida agilidade para novos desafios, que surgem à velocidade da luz. E, mesmo que seja tentador usar as mesmas armas que os filhos, não vale a pena pesquisar no Google para saber o que fazer em cada situação… [mas pode usar para ajudar a descodificar algum léxico que passou a fazer parte do dia-a-dia lá de casa!] Acho que é da prática – e muita intuição – que vamos conseguindo chegar ao rumo certo para que a adolescência seja uma fase de aproximação e de fortalecimento da relação pais-filhos. 
Depois de algum caminho percorrido com os meus dois filhos adolescentes, consegui perceber que os passos em falso que fui dando contribuíram para encontrar respostas às muitas dúvidas que surgiram. Quatro deles foram (e são) essenciais: 
  1. Comparar com a minha adolescência é um erro. A frase “no meu tempo era assim…” teve de ser banida de todas as conversas. Sim, nós pais temos as melhores recordações da nossa adolescência, mas a realidade dos dias de hoje dos nossos filhos é totalmente diferente ao olhar deles (ainda que no fundo tenham muitos pontos em comum). É como se fossemos de outro planeta, de outra era. Basta pensar que eles nasceram num mundo digital, em que a conectividade é permanente. Viver a adolescência deles sem referências que não a deles próprios é o caminho certo.
  2. Tudo tem a sua hora. A urgência de querermos que eles cresçam, leva-nos a acelerar o seu crescimento. Confuso? Eu explico: não estou a falar de pózinhos mágicos para que fiquem mais altos, mas da tentação que os pais têm – até porque andam à deriva – de fazer com que os filhos pareçam adultos. Roupa, maquilhagem, saídas à noite, séries de tv, redes sociais, tecnologia… Deixemos que o tempo demore a passar e que desfrutem de cada fase da vida. Estão a construir a sua personalidade e saltar um degrau nesse processo pode deixar tudo fora de controlo. Ser firme e dizer “não” é uma lição importante que dará frutos mais tarde.
  3. Passar a ouvir mais do que falar. Sabemos que é a fase do “grito do Ipiranga”, do “quero-posso-e-mando”, de que sabem tudo e os pais não sabem nada. E também é a altura em que procuram referências, orientação, conselhos. Não quer dizer que façam tudo o que os pais dizem – até porque estão a desenvolver o seu sentido crítico e é bom que vão tomando as suas decisões -, mas acredito que é importante saber que estamos ali, que sabemos ouvir, que podem contar connosco. E ouvir passa a ser a forma como desfrutamos da adolescência dos nossos filhos.
  4. Ser único e especial. É isso que cada um dos filhos é para os pais quando nasce. Na adolescência é preciso regressar a esse espaço de “individualidade”, promovendo momentos intimistas mãe-filho/a e espaço para conversas especiais. Não é passar a ser a BFF ou esperar que nos conte tudo da sua vida (é importante que tenha a sua privacidade garantida), mas para sedimentar a relação e criar espaço para a abertura. Marcar na agenda o dia do lanche a dois e uma ida ao cinema a meio da semana vai entrar na rotina especial da família.
Estar presente e disponível, conhecer os adolescentes de hoje e identificar alguns traços comuns nas suas vivências pode auxiliar os pais a contribuir para esta fase da vida dos filhos e, acima de tudo, a promover uma relação afetiva saudável entre ambos – no presente e no futuro. Para que os pais possam sempre ter a possibilidade de abrir a porta fechada do quarto do seu filho adolescente.

Marta Amorim

Marta Amorim Oeiras
Escreve no Não sei andar de bicicleta
46 anos e dois filhos adolescentes, trabalha em Marketing e Comunicação e sobre a sua vida, os seus filhos, para onde viaja e sobre o que lê.
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