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Entrevista | Alexandra Silva



Chama-se Alexandra e vive com o namorado de sempre, o músico Nuno Rafael, juntos têm quatro filhos.
Com formação na área social onde trabalhou durante mais de 10 anos, seguiram-se outros tantos no serviço educativo de um Centro Cultural, no diálogo entre a arte e a educação. 
Em 2015 criou a plataforma NHEKO, um projeto editorial sobre a Vida em Família.
Atualmente, Alexandra é coordenadora da Associação 1% onde trabalha diariamente naquilo que diz ser a construção de um mundo melhor e também faz parte da equipa da LadoOposto Produções, uma agência que representa mais de uma mão cheia de bandas portuguesas.

O que os outros dizem sobre ti?
Não sei. Uma vez ouvi uma das minhas filhas a dizer a uma amiga que eu era “boa pessoa”, gosto dessa ideia.

Conta-nos algo que ninguém ou poucas pessoas sabem sobre ti?
Há algumas particularidades que só quem me conhece melhor sabe... eu não corro desde o 9.º ano, quando deixei de ter educação física na escola, sou muito preguiçosa no que respeita ao exercício físico e odeio cansar-me, adorava ultrapassar isto e conseguir tornar-me mais saudável.
Fiquei horrorizada quando soube que ia ter gémeos e nunca vesti as minhas filhas de igual, aliás não gosto nada de roupinhas a fazer “pandan”.
Preferia que o nosso quarto filho tivesse sido outra menina.

Hobbies?
Gosto de ler, de visitar feiras tipo feira da ladra, de ver espetáculos, de andar de carro sozinha e de estar com os meus filhos. Gosto de cozinhar. Gosto muito de escrever.

Livro ou cinema?
Primeiro o livro, depois o cinema, mas a linguagem artística que mais me (co)move é a Dança.

Praia ou campo?
Vivemos numa aldeia perto do Guincho, num local onde a praia e o campo se cruzam de uma forma perfeita e harmoniosa, não há nada melhor que esta junção.

O que mais te dá prazer?
Tanta, tanta coisa. 
Tenho a sorte de ser uma pessoa que retira prazer em grande parte das coisas.
Uma mesa cheia de amigos, um jantar a dois, uma ida ao cinema sozinha.
Um dia de sol mesmo que gelado. A chuva a bater no vidro. Chá, café.
Um mergulho no mar, dormir com sal no corpo.
Ouvir os meus filhos.
Abraçar quem amo. 
Perder-me em conversas filosóficas e outras nem tanto. Rir.
Um copo de vinho, sozinha ou acompanhada.
Ver os meus filhos a dormir.
As conversas rotineiras de um jantar em família. Os cozinhados da minha mãe.
Ver o meu namorado de sempre a tocar.
Fazer programas de filho único.
Ver espetáculos, especialmente de dança.
Sentir-me útil e fazer a diferença. Conhecer pessoas novas. Surpreender-me.

O teu maior sonho?
Fazer a diferença na construção de um mundo melhor. 

O que a maternidade mudou em ti?
Tudo. Foi a maternidade que me fez entender o mundo e conhecer-me a mim.

Qual o maior desafio de ser Mãe?
Ter de o ser sempre e para sempre.
O maior desafio talvez seja mesmo esse, a constância. 
É saber-me exemplo e querer sê-lo. É manter-me ao longo das diferentes fases do crescimento, uma presença forte na vida dos meus filhos. 
É não facilitar e pensar sempre com o coração. É ouvir sem querer ter razão.
É ter a responsabilidade de contribuir para a formação da personalidade dos meus filhos e ajudá-los a serem pessoas gentis e atentas aos outros.

A que se deve o nome Nheko?
Nheko é um diminutivo de boneco/bonheko, é o nome que chamamos ao nosso filho mais novo, por ter uma sonoridade engraçada, ser um nome pequeno e ter um significado especial para toda a família, este passou a ser o nome do nosso projeto. O Nheko nasceu também por causa deste filho, do que ele nos trouxe enquanto família e a mim em particular como mãe.

E para quem não sabe, o que é Nheko?
Nheko é um projeto editorial sobre a vida em família. Aqui encontram entrevistas com pessoas que consideramos inspiradoras, apresentamos marcas e pequenos negócios e também publicamos artigos de opinião, especialmente ligados a temas como educação, adolescência, criação artística para a infância, sugestões de livros e espetáculos; tudo à volta da Vida em família.

Como e quando nasceu o projecto?
O Nheko surgiu de uma vontade de criar um espaço de partilha sobre temáticas que de alguma forma se cruzassem com a vida em família, uma plataforma onde a linha editorial, os conteúdos escritos e as fotografias fossem cuidados e promovessem a reflexão.
Tentámos desde o início marcar a diferença de diferentes formas, sempre soubemos bem o que não queríamos: Este espaço Não é um blogue de leitura rápida, Não é um espelho da nossa vida, Não é uma montra de marcas, Não é um espaço publicitário.  
Sempre nos mantivemos fiéis a isto o que acabou por invalidar, de certa forma, a transformação deste projeto num negócio rentável. Foi uma opção consciente.
Sempre quisemos diferenciar-nos pela forma como abordamos os temas, pela qualidade das fotografias que são maioritariamente feitas por profissionais e pela autenticidade dos conteúdos.
Muitas vezes partimos da nossa experiência de vida, da nossa família, mas não nos cingimos a ela. Este não é um diário sobre a nossa vida, é um espaço que pretende promover a reflexão e o espírito critico, que procura oferecer inspiração para a Vida em família.
Até há bem pouco tempo tivemos uma loja online onde apresentávamos uma criteriosa seleção de produtos, alguns deles frutos de parcerias com fazedores de coisas que muito admiro. Criei um género de trotinete de madeira em colaboração com um marceneiro muito talentoso, o Gabriel que é conhecido como Quilhas Alfredo, desenhei e criei peças com a fantástica Rita Sevilha, compus kits com colaborações diversas desde a Ana Morais da Casulo, a Anna Westerlund, o Planeta Tangerina, a Organii. Este trabalho criativo fascina-me. Tenho imensas ideias sempre mas acabei por optar por, recentemente, fechar a loja. 
Este é um trabalho que exige muito foco e também investimento de recursos e de tempo, tive de ter o bom senso de perceber que esta não era a minha prioridade no momento, penso que um dia ainda vou voltar a trazer a NhekoShop, talvez com um outro formato, tenho já umas ideias mas que, por agora, ficam fechadas na gaveta.

A maternidade teve alguma influência na criação do projeto?
Eu tenho muita dificuldade de retirar a influência da maternidade de qualquer assunto da minha vida. Ser mãe dilui-se completamente em tudo o que sou, não me vejo às fatias, sinto-me uma mistura de tudo o que compõe a minha vida. A Alexandra mãe influencia tudo o que eu faço da mesma forma que outras experiências pessoais e profissionais que tenho me influenciam no papel de mãe, sou péssima a separar águas. 
Relativamente ao projecto Nheko a maternidade é uma experiência fundamental para ele ter aparecido.
Tenho uma publicação onde partilho o impacto que o aparecimento deste nosso filho teve na minha vida, no meu sentir, na minha forma de ser. Chama-se “O Nascimento de uma nova vida” (aqui) “Os vários projetos que tenho, entre eles o espaço Nheko, são o culminar de um processo iniciado quando decidi ter mais um filho, são a materialização do que eu sou hoje e no que a vida me tornou. Quando quis ter este filho nesta fase da minha vida eu sabia que estava a aceitar os termos de responsabilidade que estavam escritos nas entrelinhas e que isso implicava recriar-me de novo.”

Como concilias a vida profissional como a vida pessoal?
A minha vida profissional é complexa porque estou em muitas frentes ao mesmo tempo no entanto tenho as prioridades muito esclarecidas. O meu companheiro é músico, tem horários inconstantes e ausências constantes, sempre assim foi. Esforço-me por não assumir compromissos que não possa cumprir, tento ser sensata e honesta com aqueles com quem trabalho e acima de tudo comigo. Neste momento as nossas filhas estão crescidas e praticamente autónomas, temos uma rede de apoio bastante funcional o que me permite estar mais liberta e disponível para novos desafios mas sei sempre que tenho os miúdos como prioridade mesmo que isso me obrigue a ficar privada das normais horas de sono ou me obrigue a outro qualquer tipo de ginástica. Claro que um bom planeamento e organização ajudam muito. Outra coisa que me ajuda é o facto de eu ter muitas ideias, tenho um tipo de criatividade muito funcional, é a criatividade ao serviço do quotidiano, esta característica dá-me imensa flexibilidade e permite-me chegar muitas vezes onde parecia não ser possível.

Como tem evoluído o projeto?
O Nheko tem funcionado como uma janela por onde podem espreitar os projetos com a minha assinatura e perceber de que forma o que faço se pode cruzar com outras ideias e iniciativas. Depois de mais de 20 anos a trabalhar em equipas multidisciplinares e dinâmicas, construir parcerias e criar em conjunto é uma das coisas que mais prazer me dá. Desde que estamos online já desenvolvi vários trabalhos muito diversificados.
Crei espaços/projetos pensados nas famílias: A Casa Nheko no Organii Eco Market, o primeiro mercado Eco Lifestyle que aconteceu em Portugal, criámos uma Casa de Família onde os visitantes eram convidados a entrar e usufruir de uma variada oferta de produtos disponíveis para utilização livre, desde brinquedos, jogos, livros para diferentes faixas etárias, discos, espaços de relax, zona de amamentação e muda fraldas, atividades organizadas para crianças e adultos em interação.
Esta Casa Nheko tinha nas paredes trabalhos de artistas e makers que nos inspiram e contou com a colaboração de várias marcas com as quais trabalhamos regularmente.
Na segunda edição, lá estivemos outra vez!
A convite da Câmara Municipal de Almada, integrámos por dois anos consecutivos, a programação do Mercado de Natal Amigo da Terra com um projeto direcionado a famílias, a Brincoteca, Espaço família: Um espaço lúdico com propostas para diversas faixas etárias cujo objetivo se centrava em promover a partilha e interação entre os diferentes elementos da família.
Criei histórias por encomenda; A partir do imaginário da coleção de roupa para criança para um livro cujas personagens faziam parte da própria coleção da marca: Principesque, Stories to were.
Para a ISWARI construi uma história que envolvesse os personagens presentes nas embalagens do novo produto para crianças tal como os princípios da marca.
Além da história incluí também neste livro um conjunto de sugestões de atividades para desenvolver em família. O livro integrou o kit de lançamento de produto para crianças.
Trabalhei em colaboração com extraordinários fotógrafos em diferentes trabalhos que me enchem de orgulho.
De momento tenho duas ideias em ebulição que não faço ideia quando se irão concretizar, mas sei que vão ser fantásticas. Li, algures, uma frase que me acompanha: enquanto os planos e os sonhos forem maiores que as memórias, está tudo certo!


O que mais gostas do teu projeto?
O que mais gosto no Nheko é o sentido que por lá encontro.

Se voltasses atrás farias tudo de novo ou alterarias alguma coisa, das opções e escolhas profissionais?
Eu, se soubesse o que sei hoje fazia muita coisa diferente, mas isso ia certamente fazer com que não aprendesse o que aprendi.
Tento não perder muito tempo a pensar no que poderia ter sido diferente no passado, considero mais importante e profícuo pensar no que quero fazer diferente no futuro. 
Gosto de ter uma atuação refletida e opto por não fugir para a frente, mas gosto muito mais de sonhar com o amanhã e viver o hoje do que contemplar o que já passou.

Perspetivas do projeto para o futuro?
Gostava de recuperar a periodicidade nas publicações, especialmente nas entrevistas. De momento estou muito empenhada numa outra frente de ação o que me tem retirado a disponibilidade necessária para o conseguir. Gostava também de concretizar uma ideia que tenho vindo a alimentar e que cruza conceitos como a família, a criatividade e o ato da criação. É um trabalho com uma certa profundidade e que necessita de alguns recursos para acontecer. Cruzar as minhas áreas de trabalho e de pensamento são uma constante e isso dá imensos frutos, uns são mais visíveis outros menos. Conseguir espelhar no Nheko a minha perspetiva relativamente à Vida em família é sem dúvida a minha principal preocupação e investimento.

Como divulgas o Nheko?
Através da utilização básica das redes sociais: Facebook e Instagram.

Um conselho para quem tem um projeto de negócio na gaveta.
Não é um conselho, é uma partilha. Eu senti que um negócio é uma coisa muito difícil de fazer acontecer, é algo que necessita de muita disponibilidade, seja ela financeira como de tempo, etc. É algo que não acontece de um momento para o outro, demora tempo, exige foco. No meu caso, reconhecer que a minha ordem de prioridades não me permitia ter essa disponibilidade foi um processo de consciencialização, foi fundamental não querer agarrar-me a um projeto que, por si só, não era um modelo possível de negócio. Tive de fazer opções, nunca considerei mudar a sua essência e adaptá-la ao que “o mercado” procurava. Nunca cedi a torná-lo um espaço cujos conteúdos se afastassem da minha ideia original, nunca o abri a publicidade, nunca o desvirtuei. Estas opções fecharam-me portas mas abriram outras tantas, levaram-me a procurar outras soluções financeiras e é aqui que recomendo muita atenção e prudência, sem as decisões certas aquilo que um dia foi um sonho pode tornar-se num pesadelo. 
Tal como referi acima, valorizo muito o ser honesta comigo e com aquilo que para mim é basilar e isto é mesmo o que faz a diferença. Não posso dizer que os meus filhos são a minha prioridade e depois não estar cá para eles. Saber reformular é fundamental. 

Perspetivas pessoais para o futuro?
Manter-me nesta linha, dar continuidade aos projetos que tenho em mãos. Usufruir da vida. Ser gentil comigo e com os outros.


Alexandra, muito obrigada pela partilha. Adoramos conhecer-te melhor.

Podem acompanhar  a Alexandra e o seu projeto Nheko através das redes sociais: Facebook e Instagram e Site em www.nheko.pt