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A maratona da linguagem

O bilinguismo/ multilinguismo é um tema cada vez mais na ordem do dia. O mundo é cada vez mais pequeno e os fluxos migratórios são cada vez maiores e mais comuns. Hoje viaja-se mais, há maior contacto com culturas e línguas diferentes e cada vez mais encontramos famílias com origens diferentes. Não espanta, por isso, que haja cada vez mais interesse no assunto e que nas últimas décadas se tenham multiplicado os estudos sobre o tema. 
A minha família é parte desta tendência. Vivo em Inglaterra com o meu parceiro, inglês de gema, e com o meu filho de 3 anos, 60% inglês e 40% português, uma estatística que continuamente tento equilibrar. Embora sempre tenha querido ser mãe, nunca  antes de vir para cá tinha contemplado uma maternidade longe do meu próprio ninho mas quis a vida - e as minhas escolhas -, que assim fosse e a acrescentar a todas as dúvidas e desafios que uma mãe recente enfrenta, o desafio de trazer ao meu filho a minha lusofonia, nasceu também.
Em casa praticamos um método comummente chamado de OPOL (One Parent One Language), e esta estratégia trouxe, desde cedo, muitos frutos. O meu filho compreende o português perfeitamente e usa frequentemente algumas palavras comigo, para além de já saber os números até 20. No entanto, este processo tem sido mais lento e difícil do que inicialmente previ e os obstáculos que enfrento nesta jornada têm sido muitos, nomeadamente:
- A Língua da comunidade - O facto de vivermos num país de língua inglesa e de a língua da família ser a inglesa (o meu parceiro não fala português), dificulta o processo. O universo em que o meu filho está a crescer é inglês: desde a televisão, a rádio, música, livros, vizinhos, amigos e conhecidos, creche, médico, tudo é em inglês. Contrariar ou suplementar esta influencia parece-me, as vezes, uma tarefa herculea.
- A fluidez da conversação - Desde que o meu filho nasceu que falo com ele em português mas desde que começou a, efectivamente, conversar, que me é muito mais difícil manter os diálogos com ele estritamente em português. Muito facilmente substituo nomes portugueses pelos ingleses que ele esta a usar. Na verdade, sinto que às vezes as minhas frases são uma amalgama de palavras entre português e inglês e frequentemente tenho de me parar e “obrigar” a usar unicamente o português.
- O desconforto social - Esta é uma questão que muitas famílias bilingues referem. Na vontade e desejo de se ser socialmente educado, é fácil optar pela língua da comunidade quando estamos fora de casa e a interagir com ingleses. Embora eu sinta algum desconforto, procuro continuar a usar o português, independentemente do contexto. A excepção ocorre quando a conversa não é unicamente entre mim e ele.
- Família e outros pares - Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam que introduzir mais do que uma língua às crianças vai confundi-las. E se é comum ouvir crianças bilingues misturar as duas línguas é também certo que esta é uma fase passageira. Confesso que, na maioria dos casos, toda a nossa família, de ambos os lados, abraçou a ideia do bilinguismo graciosamente mas para muitos pais este é mais um obstáculo a contornar.
Desvantagens do bilinguismo - É crença comum que as crianças bilingues falam mais tarde e, embora este mito já tenha sido desmontado inúmeras vezes, quando a criança começa a falar mais tarde que as outras, é fácil sentirmo-nos assaltados por muitas dúvidas. Por outro lado, estudos extensivos apontam para o facto de que a quantidade e variedade do vocabulário dos bilingues em cada uma das línguas é inferior à dos não-bilingues. Isto deve-se ao facto desse vocabulário estar “espalhado” por duas ou mais línguas.
Ainda assim, são inegáveis as vantagens de se falar mais do que uma língua. Há vantagens profissionais, sociais, emocionais e até em termos de saúde (melhor gestão do stress, recuperação de AVC mais rápida, retardamento de doenças que causam demência, nomeadamente, Alzheimer).
E com estas vantagens em mente, e com o desejo profundo de partilhar com o meu filho parte de quem eu sou e da minha cultura, que este é um processo que levarei sempre adiante, independente das dificuldades. O português é a ponte entre nós, Portugal e a família e amigos de quem gostamos e com quem não podemos partilhar muito do que vivemos. E embora ele resista, por vergonha ou por medo de não ser capaz, esta é a batalha da qual nunca desistirei. Parece-se com uma corrida de obstáculos mas, na verdade, é uma maratona.

Cristina Moreira



Há alguns meses escrevi um texto sobre a entrada do meu filho de 2 anos na creche. Durante o Verão informámo-nos sobre as várias creches na nossa área, visitámos algumas delas e em Setembro ele começou naquela que nos pareceu a mais adequada. As sessões de adaptação começaram um pouco antes, como forma de ele se habituar ao espaço e às educadoras e auxiliares. Este período foi fantástico, nunca tivemos lágrimas e apesar de uns tremeliques nos lábios, tudo correu muito bem.
Passadas umas semanas, tudo começou a mudar. Vieram algumas lágrimas, que lhe custaram tanto a ele como a mim, mas acreditei que faziam parte do processo de adaptação. A educadora referiu, inclusivamente, que para algumas crianças se torna mais difícil a separação quando percebem que a ida para a creche é rotina. Os meses foram avançando e as lágrimas pareciam não cessar. Acredito que, em parte, a adaptação tenha sido mais complicada porque as duas tardes por semana em que ele ia não eram suficientes para criar laços e sentir a creche como um lugar de segurança. Infelizmente, acrescentar mais sessões não era, para nós uma opção financeiramente viável.
Pelo Natal fomos a Portugal, onde ficámos quase um mês e, já imaginava eu, o regresso seria novamente um desafio. Mas o desafio foi bem maior do que esperávamos. O choro para ir era cada vez mais compulsivo e começava ainda em casa assim que lhe calçava os sapatos. O caminho até lá era feito em prantos, entre lágrimas e soluços e pedindo para ir para casa, agarrado a mim ou ao pai. E depois começava a histeria, gritos, a chamar por mim, sem me largar e a educadora a tentar levá-lo. Sinceramente, chegámos a um ponto em que no dia anterior às sessões já todos estávamos em stresse e ansiosos com o que sabíamos que aí vinha.
As conversas com a creche foram muitas mas as soluções poucas. A penúltima vez que o levámos, a educadora disse-me que a partir dessa altura teriam uma mesa pronta para quando ele chegasse para que se pudesse acalmar e que quando quisesse se juntaria às actividades. Uma vez ficou lá 15 minutos, na última ficou 30. Eu não sou especialista em educação mas este género de “banquinho do pensamento” parece-me mais uma técnica à super nanny do que uma tentativa de conforto e acolhimento.
E este foi, para nós, o último sinal de que esta creche não é o lugar para o nosso filho. Acredito que ele foi sempre tratado em conformidade com as regras que se esperam de uma boa creche e não tenho dúvidas quanto à sua qualidade na generalidade dos casos mas houve, claramente, uma incapacidade de resolver esta questão de uma forma mais tranquila. Mas o maior sinal, aquele que ignorámos durante quase 6 meses, foi a sua não adaptação àquele espaço. Ouvimos todas as outras pessoas, educadoras, familiares e amigos, mas não o ouvimos a ele quando nos dizia, com a limitação que a linguagem lhe impõem, que não gosta das educadoras, que não quer ir e que se sente triste. Nestas questões, mais do que as brilhantes qualificações do espaço e dos profissionais que nele trabalham, importa como nos sentimos nele e, neste caso, isto foi flagrante.
A decisão de procurar outra creche foi, por isso, tomada. Muitos dirão que ele eventualmente se adaptaria e que tudo é uma questão de tempo. E eu pergunto-me, quanto tempo é tempo suficiente? E quanto tempo é tempo demais?

Nunca fui uma pessoa muito emotiva no que toca a filmes, vídeos ou imagens. Verdade seja dita, cresci, sem internet e sem acesso a todas estas coisas que agora fazem parte da nossa vida diária. Ainda assim, não me lembro de chorar em filmes, com excepção para “O Meu Primeiro Beijo”, tinha eu uns dez ou onze anos. Nesse chorei baba e ranho e ainda recordo bem uma das cenas mais tristes do filme. Depois disso, nunca me emocionei (mesmo que por vezes, ao ver determinada cena num filme, ficasse com um nó na garganta).
Ora, tudo mudou quando engravidei. Em grávida, virei carpideira, de olhos humedecidos perante o mais inocente vídeo ou imagem. Eu chorava a ver documentários, eu chorava a ver filmes, eu chorava com vídeos no YouTube. Em suma, eu chorava com tudo e não era preciso ser algo particularmente emocionante, segundo os padrões normais. O apogeu da minha fase carpideira foi quando não consegui conter as lágrimas ao assistir ao último episódio de um programa de televisão aqui do Reino Unido. Tratava-se do “Great British Bake Off”, uma competição em que os participantes disputam o título de melhor pasteleiro. Quando foi anunciado o vencedor, não me consegui conter ao vê-lo feliz a saborear o momento com a família. Um reality show e ali estava eu lavada em lágrimas.
Algum tempo após a gravidez, a biologia fez o seu trabalho e as hormonas estacionaram em níveis bastante mais aceitáveis. Só que nunca mais voltei ao estado pré-mamã. A carpideira que havia em mim debandou para outro lado mas deixou cá um pequeno rastilho e a lágrima é hoje muito mais fácil do que antes. É frequente emocionar-me com partilhas de vídeos nas redes sociais ou a ouvir determinadas músicas. Não correm lágrimas mas aperta-se-me o coração com mais facilidade. Notícias que antes seriam tristes, agora são tristes e muito difíceis, sobretudo as que envolvem maus tratos e abusos a crianças. Esta é uma área que se tornou particularmente sensível e creio que seja comum à maioria dos pais.

A natureza sabe bem o que faz e acredito que esta sensibilidade acrescida seja um modo protector que criou para garantir a continuidade da espécie. Felizmente, recuperei o bom senso e as minhas lágrimas estão agora mais selectivas e guardadas para outras ocasiões que não sejam finais de competições televisivas. Vídeos com gatinhos, por exemplo.