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Nunca falei muito sobre isto. Não é que não precisasse mas tinha sempre a sensação que ninguém acreditava. E quem acreditava não entendia. E quem entendia, analisava a questão pelo prisma de que nós devíamos estar a fazer algo de errado e, sinceramente, essa ajuda não nos servia.

Não servia porque, aos nossos olhos, à luz do nosso coração, estávamos a fazer tudo o que tínhamos como certo. E por mais que lesse, pesquisasse e consultasse especialistas, encontrávamos sempre os mesmos dois caminhos, sendo que um deles, não era para nós uma opção.

Quando dizemos a alguém que o nosso filho dorme mal, toda a gente procura uma razão e debita, logo de seguida a solução. Mas quando dizemos especificamente que o nosso filho tem noites em que acorda mais de dez vezes, são raras as pessoas que fazem ideia do que isso é, verdadeiramente. Vem a conclusão de que isso não é nada normal e que temos que procurar ajuda. Como se duas pessoas adultas, em privação de sono há tantos meses, não tivessem já esgotado essa opção.

Até aos seis meses o meu filho tinha um padrão de sono perfeito. No dia em que fez seis meses, foi como se nos tivessem trocado o bebé e seguiram-se uns longos 18 meses sem dormir uma noite seguida. Fomos tentando encontrar razões plausíveis para os constantes despertares noturnos, mas a cada nova hipótese só ficava mais claro que talvez ele fosse mesmo assim. Nós mantínhamos rotinas, nós desligávamos tudo o que o pudesse estimular logo após o jantar. Praticávamos co sleeping desde sempre e até isso nós experimentámos modificar. Voltámos, claro está, a fazê-lo porque se já é difícil despertar e voltar a adormecê-lo na cama ao lado, imaginem passar a noite entre dois quartos. Também havia quem culpasse a mama, mas entretanto fez o desmame noturno e nada se alterou.

Lembro-me de sentir um desespero imenso. Pensar e dizer coisas no calor da noite e calar-me logo a seguir a gritar para dentro: caramba, é o teu filho! A manhã chegava, às vezes sem termos dormido uma hora seguida. Saía para trabalhar e valeu-me muitas vezes encontrar o olhar de uma amiga, na altura também colega que, sabia-o eu, passava exactamente pelo mesmo.

Hoje, não dorme bem todas as noites, mas para quem passou pelo que nós passámos, acordar uma vez por noite, é perfeito. Quando olho para trás, não sei como me mantive de pé, activa e a trabalhar em alguns dias. As sequelas começam agora a aparecer e acho que estes dois anos me deixaram, em certos aspectos menos capaz. Não sei quando se recupera ou se, efectivamente se recupera, tendo em conta que continuo a ter noites de privação em contexto laboral. Sei sim, que foi até hoje, o maior desafio que tivemos nesta que tem sido a grande aventura das nossas vidas. Foi duro, muito duro. E teria sido com certeza mais fácil se não nos tivéssemos sentido tantas vezes julgados pelas escolhas que íamos fazendo. Para mim, nunca foi opção deixá-lo a chorar no quarto, por exemplo, e se assim era, só tínhamos então ‘que aguentar’. Assim como o facto de escolhermos dormir com ele, quando era a única forma de todos conseguirmos descansar, por pouco que fosse. Acabou por ser um processo de aceitação, de que não havia nada que pudéssemos alterar e que ele precisava de presença, conforto e aconchego. E foi quando o aceitámos, exactamente como ele era, que o processo se tornou menos penoso. Não foi mais fácil ficar sem dormir, mas foi muito mais fácil vivê-lo sem culpa.


Onde estamos?
Nós que casámos tão cedo e que íamos conhecer o mundo. Que viajámos juntos o que nunca viajámos sozinhos.
Nós que saíamos ao Sábado de manhã sem rumo, palmilhávamos quilómetros em jardins e centros comerciais. Que comprávamos móveis na loja Sueca e acabávamos o dia a comer hambúrgueres no restaurante da letra amarela.
Que íamos ao Porto todos os meses e que passeávamos de mão dada pela rua de Santa Catarina. Que íamos ao Sá da Bandeira ver teatro de revista e os espectáculos do César Mourão.
Nós que passávamos dias de chuva lá fora a ver séries e filmes cá dentro e acabávamos a comer pizza e pão de alho no chão, em frente à lareira.
Que nem sempre fazíamos jantar. Para quem a vida era aqui e agora e o que nos apetecesse fazer dela. Juntos. Sempre juntos.
Nós que chegávamos à praia de manhã cedinho, caminhávamos de mão dada à beira mar e só voltávamos a casa quando o sol se começava a esconder.
E foi na praia, entre uma bola de berlim e outra, a ver miúdos a chapinhar no mar, que decidimos que se calhar estava na hora, que talvez fosse o momento.

Nós que agora viajamos menos mas vamos mais ao parque e ao jardim. Que continuamos a andar de mão dada, eu com ele, ele contigo, tu comigo. Cada mão dele numa das nossas mãos, conforme imaginámos.
Nós que agora não saímos sem rumo, quase nunca, ou pelo menos não sem comida. Que não vamos ao Porto há meio ano mas temos uma lista de compras para a loja Sueca.
Nós que vemos menos filmes e séries mas que temos teatro todos os dias. Peças de comédia, drama e acção. (Acham que não?! Experimentem mudar fraldas com a criança em pé. Pensando bem, pode até roçar o terror.) Ainda vemos séries. Meio episódio de cada vez. Entre o momento em que ele adormece e o momento em que são horas de nós próprios irmos dormir. 
Nós que agora comemos sempre à mesa porque temos o chão coberto de pistas e de carrinhos. Porque é extremamente difícil tirar arroz de carpetes com pelo e porque é desagradável depois rebolar nessas mesmas carpetes cheias arroz!
Nós que continuamos a chegar à praia de manhã cedinho, que caminhamos igualmente à beira mar, mas que temos que parar para apanhar conchinhas. Que voltamos para casa à hora do almoço e depois voltamos à praia à hora do lanche e depois sim, só saímos quando o sol se começa a esconder.

Nós continuamos aqui. Às vezes um pouco ofuscados pela correria do dia a dia, só nos voltamos a encontrar depois das dez da noite no sofá. Mas encontramos. E a minha mão ainda procura a tua e os meus pés ainda aquecem os teus. Ainda damos por nós a rir das mesmas coisas, a pensar da mesma maneira e a olhar na mesma direcção.
Nós, continuamos a ser nós. Mais crescidos, mais velhos, mais cansados. Com menos dinheiro mas mais ricos em amor, em momentos para guardar para a vida.
Nós continuamos a ser nós. Agora quase sempre nós e ele. Mas sem esquecer que antes desta experiência avassaladora, éramos só dois e sem tudo o que nós vivemos nada disto fazia sentido. 

Não sei ao certo qual foi, mas deve ter vindo algures depois do dia em que soube de ti. Não deve ter sido logo, até porque me lembro de ainda ter sido vaidosa durante algum tempo. Ainda me cuidei por, pelo menos, mais nove meses. 

Pensando bem, o dia em que me esqueci de mim, veio mesmo depois do dia em que te vi a ti. Em que tive a certeza de que o que acabara de nascer ali era muito maior do que o que já vivia em mim. Passaste a ser o melhor de mim e eu passei a viver por ti. E viver por ti fez me esquecer o que ainda fazia por mim. 

Esqueci-me de como adorava ir ao ginásio ou simplesmente sair para correr. Esqueci-me de como se toma banho sem ser de chuveiro e de como se põe creme no final. Esqueci-me de como gostava de andar de saltos ao fim de semana, de como gostava de comprar roupa para mim. De como não saía de casa sem conjugar a carteira, ou sem relógio ou sem perfume. Eu nunca saía sem perfume. 

Agora o tempo é escasso e quando há tempo, é para ti. Na hora de sair estás pronto mas ainda não me vesti a mim. A roupa de ontem até dá para hoje, está escolhida e conjugada. Às vezes um nadinha amassada mas também quem é que repara em mim. A carteira vai sendo a mesma, a cor é neutra está bem assim. Quando arranco, já deixei o relógio mas pelo menos do perfume não me esqueci.

Mas agora que paro e penso, acho que não preciso continuar assim. Tu estás grande, estás crescido e já vais abrindo mão de mim. O que ainda assim não invalida eu estar sempre lá para ti. Não me arrependo nem um segundo do que tenho vivido por ti. E é por ti que também sei que tenho que cuidar de mim. Afinal, o amor próprio também se ensina e tu tens que o ver em mim.

Nota - Texto originalmente publicado em Será Sempre Setembro
Custa muito. Custa tanto que às vezes acho que não vale a pena. E uso a palavra 'custar' de propósito porque, bem vistas as coisas, há sempre uma associação ao nosso salário: são pagos para isso, não fazem mais do que a vossa obrigação. E ouvir isto assim, dito da boca para fora, magoa. Magoa muito. 

Magoa porque quem o diz, não faz ideia de quanto custa, por exemplo, amparar a queda de quem descobre que vai morrer. A quem é dito que já não há cura. Amparar o desencanto de sonhos interrompidos aos 20, aos 30, aos 40 anos. Não importa a idade. São sempre sonhos de alguém. Não faz ideia de que é inevitável projectarmos a nossa vida nestas vidas e que vivemos sempre assustados com o que nas nossas vidas pode surgir.

Magoa porque não fazem ideia de quanto custa segurar na mão de quem parte e depois segurar na mão de quem fica. Aliás, a maioria das pessoas nunca teve que ver um cadáver de perto, quanto mais acompanhar essa passagem tão avassaladora, que culmina num último sopro de vida. Tratar de um corpo sem vida toca qualquer um. Tem que tocar. E às vezes toca mais do que devia e as histórias invadem nos os sonhos dias a fio.

Magoa porque não fazem ideia do que custa ser responsável pela vida de alguém. Pela vida do pai de alguém, da mãe de alguém, do filho de alguém. Não sabem o que nos percorre por dentro cada vez que uma situação se agrava, cada vez que a perda se torna iminente. Não sabem até onde somos capazes de ir para salvar alguém. 

Magoa porque não sabem o que é cuidar de alguém acamado. A fragilidade e o estado a que um ser humano pode chegar. Não sabem que também sentimos pena, que também achamos que existem estados que não são vida para ninguém. Mas continuamos. Tratamos e cuidamos como se aquele olhar ainda nos seguisse, como se aquela mente ainda nos entendesse, como achamos que aquela pessoa gostaria de ser tratada. Como gostaríamos que tratassem dos nossos. 

Magoa porque não sabem do creme que passamos, das mãos que seguramos, das piadas que contamos, dos sorrisos que arrancamos, dos cabelos que penteamos, das tranças que fazemos. Não sabem dos dias em que trabalhamos mais horas do que as que descansamos ou das semanas que passamos mais horas no hospital do que em casa. Não sabem dos projectos que adiamos, dos sacrifícios que fazemos.

É verdade que ao fim do mês, felizmente lá trazemos salário para casa. Mas é também verdade que o meu salário (que provocaria risos, ou espanto talvez se aqui o discriminasse) é, neste momento igual ao da maioria dos meus colegas que trabalham há por exemplo, dez anos. E qualquer enfermeiro que comece a trabalhar agora irá ganhar tanto como eu. São anos de trabalho sem qualquer reconhecimento. Não há progressão, não há perspectivas de evoluir na carreira, não há incentivo para fazermos mais. As especialidades não são reconhecidas e alguém que gaste uns milhares de euros para se especializar vê, na maioria das vezes a responsabilidade acrescida sem ter qualquer retorno do dinheiro que investiu. 

Olhando para a coisa assim em números, o panorama já não é animador. Mas pessoalmente, estas são sempre as últimas contas que me ocorrem e nem é por elas que me sinto tão desencantada com a profissão que escolhi. O que me desilude dia a dia e me cansa tão precocemente são as coisas que este tão aclamado salário não paga e que, digam o que disserem, vão muito além da minha obrigação.

São as noites fora de casa, os fins de semana em que não o levo ao parque , as velas que não ajudo a apagar. Os almoços e jantares que se mudam e adiam por minha causa, ou aqueles a que acabo inevitavelmente por faltar. Os feriados de Páscoa, de Natal ou de Ano Novo ou, em muitos casos o de Natal E o de Ano Novo. O ter que sair de casa sem luz do dia e voltar quando o dia já se pôs. Sair quando eles ainda dormem e voltar quando ele também já adormeceu. O dedicar uma vida a cuidar dos outros deixando para outros cuidarem aquilo que é meu.

Por isso, ser Enfermeira custa (me) muito. Porque nos julgam, porque falam sem saber, porque ignoram a verdadeira essência do nosso trabalho. E é cansativo remar contra tanta ignorância. É tão cansativo que chego a achar que não vale a pena.

Por Sara Velha