"Sou avó materna. Meu neto de 28 meses agride a minha
filha. Já tentamos tudo. Ele arranha, puxa lhe o cabelo e morde sempre que
alguma coisa que ele quer lhe e recusado. O que fazer?"
Falo
hoje sobre um assunto que muitas de nós (se não a maioria de nós), já viu
acontecer entre muitas crianças. Na nossa casa ou fora dela. Com os nossos
filhos ou com os filhos dos outros. Connosco, entre irmãos ou entre amigos.
Falo
então sobre aqueles episódios em que uma criança tem uma explosão de raiva.
Falo daquelas vezes em que uma criança fica tão irritada e zangada que, ou
atira com tudo pelo ar, ou chama nomes a quem lhe aparece à frente, ou morde,
ou agride, ou arranha.
E
normalmente esses episódios preocupam. Preocupam pais. Preocupam educadores e
professores. Preocupam familiares.
E
esses episódios também suscitam opiniões. Opiniões que algumas vezes pretendem ajudarem.
Opiniões que outras vezes (talvez muitas vezes) aparecem em jeito de julgamento.
E
esse julgamento preocupa. E voltamos ao tema da preocupação. E por ser um tema
que realmente preocupa quem educa crianças, hoje ocupo-me deste assunto.
Aquilo
que tenho vindo a constatar, as observações que tenho feito ao longo do meu
percurso profissional, seja em contexto de acompanhamento parental ou em
contexto escolar, é que esta preocupação leva a que pais, professores,
educadores ou outras figuras de referência que cuidam da criança, atuem quase
que impulsivamente com o intuito de acabar com esse comportamento. Porque se
preocupam. Preocupam-se que a criança mantenha essa agressividade ou a
intensifique.
Por
isso, ou põem a criança de castigo, ou ralham (gritando com ela), ou lhe dão
uma palmada também, ou lhe retiram um privilégio. Tentam de tudo para que esse
comportamento agressivo não se volte a manifestar. E tentam diversas coisas.
Uma e outra vez. Uma e outra estratégia.
E
normalmente quando vêm à consulta, pedindo ajuda e em busca de estratégias,
dizem sempre, quase sempre: “Tentei de tudo e nada resultou. Até parece que
está cada vez pior”.
Verifico
que, a maior parte das vezes, os adultos que estão a lidar com a criança reagem
ao seu comportamento. Reagem impulsivamente, ao invés de agirem conscientemente.
E essa impulsividade na reação do adulto promove exatamente o que mais nos
preocupa e aquilo que queremos evitar a todo o custo: a manutenção do
comportamento e, grande parte das vezes, o seu agravamento.
Sempre
que me aparecem situações desta natureza procuro então clarificar dois pontos.
O
primeiro ponto a clarificar é que existem marcos no desenvolvimento das
crianças que são comuns e que se manifestam em determinadas idades. Até aos 2-3
anos é comum que as crianças manifestem alterações bruscas de humor. De
repente, podem irritar-se e perder o controlo, levando a exibirem
comportamentos tido como agressivos. Comportamentos associados ao negativismo e
à agressividade são comuns nesta fase e sempre que os pais me dizem que o seu
filho é agressivo, eu gosto de modificar essa frase dizendo que o que se passa
é que o filho está a manifestar comportamentos de agressividade.
Considero
importante realçar este ponto, porque grande parte das vezes este conhecimento
faz com que muitos pais se sintam mais seguros e despreocupados. Sinto que
muitas vezes se culpabilizam, achando que são eles que não estão a saber
‘disciplinar’ os seus filhos como seria expectável (é aqui que entra a parte de
conversarmos sobre os julgamentos de que todos somos alvo e que nos leva, a
maior parte das vezes, a reagir com impulsividade, sem dar ouvidos à nossa
intuição).
O
segundo ponto que gosto de trabalhar refere-se à resposta que podemos dar às
crianças quando exibem comportamentos agressivos. Desmistifico o comportamento
da agressividade. Na verdade, a agressividade advém de emoções que todos nós,
crianças e adultos, alguma vez (muitas vezes) já sentimos – a raiva, irritação,
zanga, frustração. A forma como nos relacionamos com essas emoções é que é diferente
de pessoa para pessoa e o que se passa é que as nossas crianças estão a
aprender a lidar com elas. As nossas ações devem ser congruentes com o que lhes
queremos transmitir. Se queremos ajudá-las a exprimir de forma assertiva as
suas emoções, então a primeira coisa que proponho é que os adultos se questionem
sobre de que forma eles próprios têm expressado as suas zangas, raivas,
irritações.
Depois
incentivo-os também a olharem para o que está por detrás do comportamento da
criança. O que estará a criança a manifestar com aquele comportamento? O que
será que ela está a tentar dizer através do grito e da agressividade? Qual é a
necessidade emocional que está escondida pelo comportamento? Estará a criança a
pedir mais conexão, mais reconhecimento, mais segurança ou outras experiências
que lhe tragam mais novidade? Trabalhamos estas questões, de forma
individualizada e tendo em conta situações específicas que ocorreram.
Por
fim, conversamos sobre como podem agir no momento em que a criança está a
exibir um comportamento agressivo. E aqui entram cinco passos a pôr em prática:
(1) respirar fundo torna-se crucial,
se queremos controlar os nossos impulsos e queremos agir com calma e
conscientemente; (2) colocar um limite é fundamental, uma vez que é
importante não permitirmos que a criança magoe alguém ou estrague coisas – ex:
segurar a mão da criança com cuidado, olhar a criança nos olhos, abraçá-la
“Gostava muito de perceber o que queres e não precisas de me bater, pois não
gosto quando o fazes”; (3) reconhecer a
emoção da criança, de forma empática e sem julgamento, é um catalisador
para estimular o seu autoconhecimento – ex: “Ui, vejo que estás mesmo muito
zangado com o que aconteceu”; (4) procurar entender
qual é a necessidade emocional que
está por detrás desse comportamento promove relações mais colaborantes – ex:
“Percebo que gostavas muito de continuar a brincar no parque. E agora temos de
ir embora. Que tal jogarmos um jogo os dois quando chegarmos a casa?”; (5) oferecer alternativas ao comportamento,
ajuda a criança a aprender outras formas de expressar a sua emoção – ex: “Se
precisas mesmo de deitar cá para fora a tua zanga, podes riscar este papel ou
usar uma almofada para bater. Assim, não magoas ninguém”.
Termino
referindo que há dias em que estas estratégias resultam melhor e outros em que
não resultarão da mesma forma. E é suposto que assim seja. Da mesma forma como
é suposto que nós, adultos, por vezes aceitemos melhor o que nos dizem e,
outras vezes, aceitemos pior.
Acredito,
acima de tudo, em resultados a longo prazo. E o caminho que nos leva até esses
resultados não é o atalho. É o caminho mais longo, ponderado, consciente e
aquele que é feito sem pressas.
Boas
caminhadas!


