Vejo-me através de vocês, minhas filhas. E agradeço-vos por isso. Estou sempre a aprender. E como quero crescer ainda mais, oiço o que têm para me dizer sobre quem eu sou, o que faço e o que vos estou a ensinar.
Descobri que andava a ensinar-lhes algo
em que não me revejo totalmente. E está tudo bem, porque no momento em que me
apercebi, parei, escutei e comprometi-me a não mais fazer.
Partilho convosco que se passou, no
carro, com a minha filha mais velha, a caminho de casa, depois de um dia de
escola e de trabalho.
A F. sai da escola e diz-me logo que me
quer contar algo. Combinamos então que nem ligaria o rádio do carro, uma vez
que me apercebi que precisava desabafar. Falou-me sobre como alguns colegas não
respeitavam os professores e sobre como achava desagradável o comportamento
deles. Sentia-se descontente, pois considerava que os colegas não estavam a
respeitar, nem a turma, nem os professores.
Decidiu, sozinha e entre palavras,
enquanto fazia discorrer o seu pensamento, que iria colocar o assunto no jornal
de parede, para discussão com a turma. Senti-me contente e orgulhosa, porque
naquelas palavras encontrei alguns valores que considero tão importantes: o
altruísmo e respeito pelo outro.
Enquanto fala sobre como se sente, diz
que está mesmo lixada com aquilo. Parei. Pensei. Lixada? Que
raio de palavra para usar, nada coincidente com a profundidade daquilo que
havíamos falando. Que palavra tão horrível. Mudei o meu registo de pensamento.
E nas palavras que usei a seguir optei por usar uma das 7 atitudes do
mindfulness e da parentalidade consciente - não julgamento.
Disse-lhe: "Curioso teres usado essa
palavra. Realmente, existem inúmeras palavras para descrever o que sentimos, o
que achamos, o que pensamos. Quando conversamos, temos várias opções e podemos
escolher as que queremos usar. Umas são mais agradáveis. Outras menos. Vais
descobrir muitas palavras que nem sabias existir e uma boa forma de perceberes
se é uma palavra para se usar é pensares se já a ouviste lá em casa, se é uma
palavra familiar, se é algo que o pai ou a mãe costumam dizer. Depois escolhes,
se a queres usar, ou não".
Fez-se silêncio. Pensei que até me saí
bem naquilo que lhe disse. Não julguei. Atribuí-lhe responsabilidade pessoal
nas palavras que usa, sem culpabilização. Aguardo pelo que me diz. E depois
pergunta-me: "Então e cala-te? Posso usar cala-te?
É que às vezes apetece-me mesmo mandar calar os meus colegas. Tu mandas-me
calar. A mim e à mana. Então também posso mandar calar os outros."
E gelei. E é verdade que algumas vezes
(muitas vezes) as mando calar. E a primeira coisa que me veio à cabeça foi
dizer-lhe que, por ser adulta, posso fazê-lo. Mas posso? Imaginá-la a mandar
calar os outros, sejam eles adultos ou crianças, é algo que me deixa muito
pouco confortável. Então não posso, não devo e, acima de tudo, não quero.
Não quero ser esse modelo para elas. Não
quero que as minhas atitudes se pautem pela desigualdade. Quero atribuir igual
valor. Quero atribuir-lhes igual valor. Então disse-lhe: "Tens toda a
razão. Faço-o e não quero fazê-lo mais. Não dessa forma. Não dessa maneira. E a
partir de hoje, sempre que me sentir desagradada com alguma coisa que estejam a
fazer, vou dizê-lo de outra forma, por outras palavras, em vez de vos mandar
calar. Vou usar palavras agradáveis, que demonstrem o que estou a sentir. E
sempre que não o fizer, dizes-me?"
E assim ficou acordado. E estou
profundamente grata por mais uma aprendizagem que interiorizei.


