Todas as vezes que nos sentamos no consultório da pediatra do Duarte para consulta de rotina, surge a mesma pergunta do outro lado da secretária:
- Então e onde
é que o Duarte dorme?
- Na nossa
cama (respondemos, com desvergonha, essa fase já vai longe)
- Existe
alguma razão? (pergunta ela)
- Porque ele
gosta, e nós também (respondemos nós)
- Tudo bem,
desde que estejam todos felizes com essa escolha é o que importa (…).
Gosto dela. Da nossa Dra. Rita. Não faz juízos de
valor. Não lança olhares reprovadores. Faz-nos sentir pessoas normais dentro da
nossa opção. E não é o que somos? Pessoais normais cheias de amor pelo ser
humano que originámos. Se queremos dormir todos juntos em matilha, que assim
seja. Não estamos a cometer nenhum crime contra a humanidade. Aliás, nos tempos
antigos era assim que as famílias dormiam. As mães ficavam junto dos bebés para
amamentar. Foram as mudanças culturais, sociais e antropológicas que
“empurraram” os miúdos para os seus próprios quartos.
Atenção, não tenho nada contra quem coloca os filhos
para dormir nos próprios quartos, pelo contrário, até admiro, pois nunca fui
capaz de criar (ainda) essa rotina e acredito piamente que depois de criado o
hábito todos podemos dormir descansados. Mas, por enquanto, a verdade é que me
sabe muito bem tê-lo por perto. Ali aninhado a mim.
Vejo o co-sleeping como um facilitador dos nossos
sonos. O Duarte sempre adormeceu tarde, nos primeiros meses não me lembro de um
único dia em que ele tenha adormecido à “hora dos bebés”, agora, só dorme a
horas quando tem um dia super cansativo, e para ser super cansativo tem que
envolver atividades extra, futebol, ginástica ou natação, só a creche não chega
para o fazer “tombar”.
Para algumas pessoas co-sleeping é um problema, para
outras é um segredo bem guardado ou uma vergonha da maternidade que preferem
esconder. Parece que há uma obrigação em sermos pais perfeitos, que cumprem
tudo by the book. Tou nem aí. É certo que os miúdos se mexem muito, transpiram
muito, fazem barulhitos de toda a espécie a dormir, têm pesadelos, geram noites
mal dormidas. Bom… por essa logica na cama deles isso tudo também acontece e
também temos que nos levantar para os ir monitorizar.
Por enquanto, estamos bem assim. Já me habituei a ter
aquele 3º corpo entre nós. A sentir as mãos gordinhas dele a tocar no meu rosto
quando quer adormecer, tipo lapa. A acordar e ficar a contempla-lo enquanto
ainda dorme. E sei que já não durará muito mais. Percebo isso sempre que acordo
e realizo que antes ele preenchia um espaço mínimo na cama e agora já temos que
nos ajeitar melhor para cabermos todos. Ele está a crescer e nos estamos a
queimar os últimos cartuchos deste nosso capricho.
A maternidade
é feita de escolhas e de experimentalismo. Mais acertadas ou não. Esta foi
a nossa escolha. É por opção que o fazemos e acredito que existam muitos mais
casais assim. Houve uma fase em que me
senti falhada por não o estar a conseguir habituar ao quarto dele. Por não lhe
conseguir incutir uma rotina do sono. Sentia-me diferente e menos capaz do que
as outras mães. Menos persistente, menos competente nesse aspeto da educação e
da criação de hábitos. Agora, relativizo bastante este nosso hábito e até acho
um disparate ter queimado alguns neurónios à conta disso. É uma escolha válida
a que os pais têm direito. Além disso, o nosso co-sleeping não é imposto
até porque quando queremos, colocamo-lo no quarto dele para dormir e ele fica.
Simplesmente preferimos assim, uns dias tudo ao molho, outros dias (poucos) em
quartos separados.
E as consequências? Será que as há? Não nego, nem
afirmo. Não tenho conhecimento para tal, não é a minha área. Sei apenas que
comigo a questão do sono foi dura. A minha mãe sempre me habituou a dormir
sozinha e não foi por isso que não tive pesadelos. Ganhei fobia ao escuro,
passei a ter medo de estar no meu quarto e dei muitas noites mal dormidas aos
meus pais à conta disso. Ela fez comigo o que achou correto e o que a sociedade
lhe impôs – um berço, um quarto, um sitio próprio - rotinou-me para dormir no
meu quarto, cumpriu o protocolo todo e nunca correu bem. Já era adolescente e
ainda lhe pedia para ela vir para a minha cama. Por isso, não acredito que por
estar a fazer o oposto isso possa de facto originar consequências. Conheço os
riscos, mas cada ser humano é único e não existem ciências absolutas do sono.
Sabem como termina a frase da Dra. Rita? É clichê,
mas pura verdade:
- (…) nunca vi
um miúdo dormir até aos 18 anos com os pais (conclui).
Simples assim.


