Cada
vez que começava a mastigar ficava com mil dúvidas na minha cabeça. Será que
lhe vai fazer mal? Será esta a causa? E se for só um bocadinho? Devo começar
por uma quantidade pequena? Dúvidas, dúvidas, dúvidas.
A informação chegava de todo o lado sem eu
sequer pedir. Os “conselhos” sábios de quem já passou ou não pela experiência
baralhavam-me o discernimento e cheguei a uma altura em que basicamente não me
sentia confortável a comer nada. Ou, na verdade, não me restava quase nada para
comer.
“As
bananas acabaram”
“Só
um pão pequeno por dia”
“Leite
nem pensar”
“Queijo
só para provar”
“Leguminosas?
Estás louca?”
“Reduzir
ao máximo os vegetais de folha verde. E a sopa com muitos legumes”
“Os
doces mantêm os bebés acordados”
“São
as bebidas com gás que provocam isso”
“Cuidado
com o marisco, os frutos secos e as especiarias, podem ser alérgicos”
“E
alguns peixes têm mercúrio”
“O
tomate é ácido e eles ficam com o rabinho vermelho”
“A
cebola dá mau gosto ao leite”.
Havia
momentos em que olhava para o frigorífico e deambulava pela despensa cheia de
fome e não tinha nada para comer. E o meu filho continuava a berrar com
cólicas. Foram dias loucos, de imensas
pesquisas, de muitas massagens na barriga, de procura de algum milagre que o
tirasse daquele sofrimento. Até que segui
o meu instinto, mais uma vez, e pensei para mim mesma que não fazia qualquer
sentido cortar todos os alimentos que eram a minha base alimentar, muito menos
fazê-lo depois de os ter comido em abundância durante toda a gravidez.
Recomecei a comer exactamente o que me faz feliz, as minhas saladas, as minhas
sopas e o meu pão escuro ou de sementes, pratos vegetarianos de feijão, grão,
lentilhas e caril. E, de repente, o silêncio voltou e o meu filho sorri imenso
e está a crescer bem e feliz. O que provocou aqueles dias de loucura? Não faço
ideia. São bebés, estão a absorver tudo, o intestino está a adaptar-se,
precisam de chorar para se livrarem da sobrestimulção. Afinal, o nosso
intestino é o nosso segundo cérebro. Quantas vezes não ficamos com cólicas
quando estamos nervosos ou quando sofremos por antecipação relativamente a
grandes momentos da nossa vida? Com certeza que passa. E pode ser originado
pelo que comemos. Mas também pode ser apenas uma fase do crescimento pela qual
têm de passar. Não vamos é passar o resto dos dias a comer bife com arroz.


