Dor no braço, sufoco na garganta, sensação
de desmaio, alienação da realidade, picadas pelo corpo, dores musculares, falta
de ar. Uns dias tudo junto, outros dias só peças soltas. Assim foram os últimos
4 anos da minha vida: a viver felicidade da maternidade na sombra de um corpo
ansioso desejoso de se libertar e voltar a fazer o dia a dia sem medos.
Um estudo feito na Universidade Monash, na
Austrália, mostrou que aproximadamente um terço das mães de primeira viagem
(33%) sofre de ansiedade após o nascimento do bebé. Não gosto, mas faço parte
do pesadelo que compõe estas estatísticas. Os primeiros meses pós-parto foram calmos, mas logo após o Duarte entrar
para a creche e regressar ao trabalho ela, que já tinha vivido em mim anos
antes, voltou. Terá sido o sentimento de separação que a despertou? Nunca vou
ter a certeza disso. Sentia que estava preparada para isso, será que o meu
subconsciente não estava?
E assim, subitamente e de forma matreira
(como só ela sabe ser), vieram novos sintomas, nunca antes sentidos, juntamente
com descontrolo emocional que me fez procurar de imediato ajuda especializada.
Tinha um bebé para criar e ver crescer, não podia ficar à espera que ela me
destruí-se os sonhos.
Senti-me muito em baixo, chorei muito,
reclamei com a vida, não vou negar. Os medos, a medicação diária, as consultas
regulares, tudo o que já tinha ficado uma vez no passado estava de volta ao meu
diário. Estava livre há anos, tantos anos que tê-la de volta foi como uma
derrota pessoal. Um dia li que a ansiedade não tem
cura e é para toda a vida. No meu caso, não sei se foi a maternidade que a
voltou a acordar ou se este ciclo vicioso que dizem que ela tem, mas tive que
voltar a por a armadura de ferro e lutar contra ela.
Existem várias teorias acerca do que causa
ansiedade tais como factores hereditários, carga genética, casos familiares,
alterações no cérebro, estilo de vida agitado, uma experiência perturbadora no
passado e até há quem defenda que se pode adquirir no nascimento, durante o
parto... todas as hipóteses são válidas, mas nunca me encontrei em nenhuma.
Gosto do ritmo urbano e da agitação em detrimento do silêncio (quase sempre),
não existem antecedentes familiares conhecidos, nasci de parto normal, não me
recordo de nada perturbador na infância, se calhar tenho só uma peça extra no
cérebro que me faz disparar o coração quando menos espero. Se calhar esta vou
ser sempre eu, uns dias calmaria outros dias furacão.
Desanimei quando ela regressou, mas, tal
como da primeira vez, não desisti - nem nunca vou desistir! E é por esta
persistência que me encontro agora na estaca zero, livre da ansiedade, livre da
medicação - finalmente!
Se vos pareci derrotista nos primeiros
parágrafos, desenganem-se, fui só factual. E ao contrário do que possa parecer,
este texto não é uma lamentação, mas sim uma superação. Neste momento, estou
livre da ansiedade - livre! Só quem passa por ela sabe a dimensão desta frase -
a melhor que escrevi nos últimos tempos.
Permitam-me a celebração pública e o
encorajamento: se são mães, se estão grávidas ou a
pensar engravidar e estão a lutar contra ela mantenham a cabeça erguida, as
horas de sono em dia, as rotinas sociais, as consultas de acompanhamento, os
desabafos sobre ela (mesmo quando ninguém que nos rodeia tem capacidade para
perceber o que são estes sintomas silenciosos), os passeios em família, as
escapadinhas, a vida profissional, o ginásio ou o que vos fizer sentir
aliviadas. Não se isolem, não façam da cama sofá, não se entreguem à bola de
neve de sintomas, ela pode tornar-se gigantesca, e acima de tudo, não deixem de
viver a vida. Libertem-se todos os dias mais um bocadinho, avancem mais um
passo, estiquem mais o braço. Por mais que demore, aguentem! Eu já a
chutei para canto duas vezes. E se ela voltar, dou-lhe mais um pontapé de
saída.


