Não foi fácil partilhar a Alice com o mundo quando ela nasceu. Estava habituada a tê-la só para mim. Só eu conseguia alimentá-la, cuidar dela, protegê-la, senti-la dentro de mim. E de repente, estava cá fora. Era um ser separado de mim. E agora, o que faço contigo, bebé? Quando ela nasceu, não a senti logo como minha. Foi uma sensação estranha. Talvez porque efectivamente os filhos nunca são nossos. Talvez porque ganhamos a consciência de que aquela criatura não é nossa e que nós apenas temos o privilégio de cuidar dela até ela poder cuidar de si própria.
Baby Blues
Os primeiros 15 dias foram difíceis.
Foram dias de emoções contraditórias. Se por um lado estava feliz, por outro
sentia-me angustiada. Talvez seja a esse sentimento que os especialistas chamam
de “baby blues”. Finalmente tinha o meu bebé comigo, mas não queria que mais
ninguém cuidasse dela. Foram dias difíceis potenciados pelo facto de não poder
dar de mamar – a Alice não fez uma boa pega e tinha que tirar o leite à bomba
até poder voltar a dar de mamar outra vez. E foi especialmente duro para o pai.
O L. sempre foi muito presente. Queria participar nas tarefas: adormecê-la,
dar-lhe banho, empurrar o carrinho de bebé sempre que saíamos e ficar com ela
ao colo durante as consultas. Sentia que ele estava a pôr em causa o meu papel
de mãe. Queria ser eu a fazer tudo. Mas na verdade, ele só queria que eu
descansasse.
O pai também é um cuidador
Percebi que estava a ser injusta e a
discriminá-lo como muitas vezes a sociedade faz com os homens que querem
assumir o seu papel de pai e são olhados de lado. O pai ainda é visto hoje como
o homem que trabalha e não como um cuidador. E, por isso, os tempos de licença
do pai ainda são muito reduzidos. As mentalidades estão a mudar, é certo. Até
porque os pais estão cada vez mais participativos nas rotinas e nos cuidados do
bebé. Nunca aconteceu eu acordar para dar de mamar e o L. ficar a ressonar ao
meu lado, como ainda oiço algumas mães contarem. Ele acordava o mesmo número de
vezes que eu, dava-me a mão, deitado ao meu lado, e certificava-se de que eu
estava confortável. E enquanto eu dava de mamar à Alice a meio da noite, ele ia
para a cozinha ás 3 da manhã esterilizar biberões e lavar a loiça que tinha
ficado do jantar! Quando a Alice acabava de mamar, era ele que a punha a
arrotar na maior parte das vezes. Ou naquelas noites em que eu estava muito
cansada e ela não queria dormir, era ele que pegava nela ao colo e a embalava
pela casa até ela adormecer.
Não
imagino como seria cuidar da Alice sem ele ao meu lado. Mas tenho a certeza que
seria tudo muito mais difícil.


