Não
é apenas a privação de sono. Mas também é. Não dormir seis horas seguidas há
três meses mexe com a cabeça de qualquer pessoa. Resulta em silêncios a meio de
frases porque não me lembro da palavra ou em raciocínios lógicos pouco coerentes.
Mais problemático só o facto de não ter muita paciência para certas conversas e
responder torto quando a situação não o pede. Mas não é esse o ponto mais
difícil, penso eu. Mais difícil do que a privação de sono, é a privação da
liberdade. E julguem ou oponham-se o que quiserem, mas esta é a realidade
quando se tem filhos. Ficamos reféns. Seja por estarmos a amamentar, pelo pai
voltar ao trabalho, por ter a família longe, porque o bebé está mais habituado
a nós ou simplesmente porque somos mães. Ser mãe. A mãe. Que está sempre lá.
Para embalar, confortar, alimentar, dar beijinhos, a mãe. Mas que também é a
que está quando estão doentes, quando têm cólicas, quando choram sem parar,
fazem birras do tamanho do mundo para adormecer ou simplesmente porque não
estão bem com qualquer outra pessoa. São vinte e quatro horas, sete dias por
semana. Não existe a liberdade de bater com a porta. O bater com a porta já é
por si só uma situação a evitar quando se tem um bebé a dormir. Este é, sem
dúvida, o ponto que mais me limita. O sair a correr, espreitar o relógio
inúmeras vezes, só para ir comprar qualquer coisa, só para respirar outro ar
que não o de casa, só para estarmos sozinhas connosco. A alternativa é levarmos
o bebé connosco e damos por nós a estar semanas sem uma hora sequer a mais de
vinte metros dos nossos filhos. É uma verdadeira liberdade condicional.
Corremos contra o tempo. Tomamos duche à pressa com a porta meio aberta e
estamos constantemente a esticar a cabeça porque nos parece que os ouvimos chorar,
comemos à pressa para aproveitar enquanto dormem ou estão entretidos, dormimos
à pressa nas quatro ou cinco horas que eles nos dão seguidas. É uma correria,
um frenesim constante, um sentido de alerta no expoente máximo. A cabeça não dá
descanso ao corpo. Onde deixámos nós a nossa liberdade enquanto pessoas? A
nossa vontade? O nosso tempo? A verdadeira mudança é esta. Nunca mais seremos a
mulher. Seremos, sim, para sempre, a mãe.
E
este artigo demorou dois dias a ser escrito, durante o qual me levantei vezes sem
conta porque a chucha caiu, cocó para limpar, soluços, xixi para limpar, birra
de sono, espirros e outras duas vezes que tive de me levantar e dar uma volta
pelo escritório porque não me lembrava do que queria escrever.


