Estamos
inseridos numa sociedade que se preocupa demais com os géneros, dizem eles que
não, treta nossa, que estamos numa era de igualdades e até defendem que nem os
brinquedos têm géneros, brinquedos são para brincar ponto, e eu sou apologista
disso. Mas é tudo muito giro na teoria porque a realidade, bem essa é um
bocadinho (muito) diferente.
O Pequeno Rei
nasceu tal e qual o idealizei, um autêntico "chorão" (lembram-se
desses bonecos?), carequinha, igual aos que eu brincava quando era pequena,
embora tivesse metade do tamanho. Desde sempre adorei vesti lo com aquelas
roupinhas "à homenzinho", não que precisasse de me afirmar, mas
porque fazer dele um mini-homenzinho tornava-o ainda mais irresistível.
Conforme foi crescendo o cabelinho foi aparecendo, e uns cachinhos dourados iam
iluminando ainda mais aquele rostinho delicioso. Com pestanas enormes, olhos
clarinhos e cachinhos era sem dúvida um bebe adorável. Desde cedo chamou a
atenção de quem se cruzava connosco, que sempre me diziam "Que menina
linda!", Eu sorria e nunca me importei com isso, e sempre que lhes
explicava que era um menino, as pessoas ficavam admiradas "parece mesmo
uma menina" insistiam, e eu sei porque o faziam, desde sempre que existe a
ideia que as meninas são bonitinhas, com traços delicados e os meninos, os
meninos já têm traços mais definidos, apesar de ainda bebés. O que não é, de
todo real. E aqueles cachinhos, aqueles cachinhos encantavam-me e eu
apaixonei-me por eles, e deixei-os crescer. Adorava-os, adorava o ar de bebé
que lhe continuavam a dar apesar de crescer.
Até ao dia, em
que me cruzei com a pessoa com quem, infelizmente, durante algum tempo tive de
partilhar o meu Rei, que quando o viu, uma das primeiras coisas que me disse,
começou a assombrar os meus dias. "Oh mãe, devia cortar o cabelo ao seu
filho, sabe é que ele está a formar agora a personalidade e a conhecer-se a ele
mesmo, e tendo o cabelo comprido vai ter dificuldades em saber se é menino ou
menina!" Confesso que fiquei sem chão, e sendo eu mãe de primeira viagem e
cheia de dúvidas, fiquei com ainda mais. Será que eu? Ou que eu?
Pensei no
assunto que me atormentou e até horas de sono me roubou. Decidi ignorar! E
explico-vos o porquê... Em primeiro lugar o meu Rei nunca se importou com o
cabelo, nunca o incomodou nem tão pouco pediu para cortar, ainda hoje usa o
cabelo um pouco mais comprido que o habitual e não quer mudar, é quem é, porque
quer e não porque os outros decidem. Não seguimos estereótipos, nem sequer os
criamos, para nós a única premissa é ser feliz. Em segundo lugar, como é que um
cabelo define o gênero de alguém? O que ele tiver de ser será, não é algo que
se influência seja pelo que for.
E terceiro e se for? Qual o mal? O que mais interessa não é a felicidade? Seja ela qual for?
O pior é que
não foi a única pessoa que mo disse, a nossa sociedade tem uma mente demasiado
retrograda é demasiado importada com a aparência e essencialmente em dar
palpites nos filhos dos outros.
Ainda hoje o
confundem, tem ar de rapagão, mas continuam a insistir, eu continuo a rir, ele
já se defende. Porque seja menino ou menina, careca ou cabeludo, o que
realmente importa, é, sem dúvida, invisível aos olhos. E enquanto ele for
feliz, tudo está bem.


