Nunca fui adepta
ferrenha de nenhum clube de futebol. Nunca fui filiada em nenhum partido
político. Nem nunca segui nenhum credo ou religião. Quando engravidei,
apercebi-me de que a maternidade estava cheia de “clubes”. O clube das mães dos
meninos e o das mães das meninas. O clube das que tiveram parto natural e o das
que fizeram cesariana. O clube das que amamentam e o das que dão leite de
fórmula. Prometi a mim mesma não me “registar” em nenhum dos referidos clubes,
embora tivesse os meus favoritos, aqueles a que mais gostaria de pertencer, mesmo
sem ser uma militante ativa. O que não me apercebi é que alguns desses clubes
funcionam como verdadeiras seitas (no sentido negativo do termo). Grupos
fundamentalistas, agarrados a um ideal e incapazes de ver para além dele.
Li tudo o que havia
para ler sobre amamentação. Estava segura de que a minha vontade de dar de
mamar seria suficiente para que tudo funcionasse. Enganei-me ou fui, talvez,
enganada. Não interessa. A vontade não foi suficiente; a pega não aconteceu; a
bebé não mamou eficazmente; os meus mamilos não ajudaram; e as minhas mamas não
produziram leite suficiente (sim, não produziram leite suficiente). Durante 2
meses, dei suplemento e mantive a amamentação em prol das defesas que o meu
escasso leite podia transmitir à bebé. Leite esse que diminuia na mesma
proporção em que o choro e os gritos da minha filha aumentavam, quando a
encostava ao meu peito. Até ao dia que decidi que ia ser o último. A partir daí,
a minha bebé chorou menos, dormiu melhor, foi mais feliz. Eu continuava em
luto, em guerra comigo e com as minhas mamas mas, finalmente, começava a
usufruir da minha filha.
Apesar de curta, a minha
experiência a amamentar deu direito a gretas, mamilos a sangrar e mamas
doridas. Se foi difícil? Sim. Mas mais difícil foi percorrer o caminho
silencioso e solitário do aleitamento artificial. Esse percurso que fazemos
sozinhas, sem contar a ninguém, tentando escondê-lo como se ele fizesse de nós
menos mães, com menos amor pelos nossos filhos. Precisei de quase um ano para
perceber que não. Não sou menos mãe, não amo menos a minha filha, nem ela me
ama menos a mim por não a ter amamentado em exclusivo. Quando, finalmente,
cheguei a tão simples conclusão, compreendi também que há outras mães como eu,
a debater-se consigo próprias, inseguras do seu percurso, temerosas das suas
capacidades. Aí senti que tinha de agir, que tinha de proporcionar a essas mães
um espaço de acolhimento que não tive e que me fez muita falta.
E, assim, nasceram as
Mães de Biberão. Não, este não é mais um clube, muito menos uma seita. É um
espaço aberto a todos, onde só o fundamentalismo é banido. Dedicada às mães que
não amamentaram em absoluto, sim, e comprometida em derrubar algumas inverdades
sobre o leite artificial, esta plataforma pretende debruçar-se sobre várias
matérias da maternidade. “No dia em que ela perder o sentido crítico, perderá
também a sua essência.” – é esta a minha convicção. Este é um projeto oferecido
às Mães de meninos ou meninas; às que tiveram parto ou cesariana; às que dão
mama ou biberão. Porque o que une as Mães (dignas dessa designação) não é o
modo como pariram ou alimentam os seus filhos, mas sim o Amor que lhes têm. E o
Amor, esse garanto-vos, não está no leite.


