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Mãe tsuru


Era uma completa tábua rasa, nisto da maternidade. Uma folha nova, completamente em branco, sem margens orientadoras nem parágrafos definidos. À medida que o tempo passa dou por mim a redefinir os vincos que me foram sendo feitos lá atrás no tempo, e a diminuir a pressão que exerço a cada dobra nova que vou dando nesta minha folha. 
Nalguns dias não passo de um pedaço de página amarrotada, noutros sinto-me uma espécie de origami, dobrado de forma única pelas condicionantes de quem atravessa a vida, e por ela se deixa marcar.

A escolher, e com algum jeito à mistura, destas minhas dobras de mãe, saia um tsuru, pequenito e de cor branca, para que tivesse a hipótese de crescer e se pintar da cor que lhe apetecer. Os tsurus são umas garças de papel, elaboradas pelo arte do origami, e são da paz, da saúde e da felicidade. São símbolo da harmonia e da longevidade e diz a lenda, que se dobrarmos 1000 e pedirmos um desejo, ele se realizará. A vida tem-me moldado, vincando-me a alma ao sabor da maternidade. Começou há meia dúzia de anos e foi-me permitindo realizar uma série de desejos.  Há outros que me têm visitado recentemente e que, segundo esta lenda, estão à distância de outros 999 tsurus como eu.