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Os Super Poderes do Duarte

Ser mãe e pai é, sem dúvida, a maior provação das nossas vidas.
Nenhuma mãe e nenhum pai estão preparados para viver "adversidades" quando os filhos nascem - sejam elas quais forem!
Ninguém quer. Ninguém pensa. Ninguém concebe a ideia de ter um filho com um problema de saúde.
A verdade é que nem sempre tudo é como desejamos e as adversidades atravessam-se no nosso caminho levando com elas horas de sono, preocupação, lágrimas, receios e muitos anseios.
O meu filho tem hoje 5 anos.
Quando nasceu não passou nos exames auditivos feitos ainda na maternidade. Achávamos - pais e médicos – que apesar do histórico familiar de surdez, podia ser pelo facto de ter sido uma Cesariana complicada, ter sido um trabalho de parto muito difícil e ele, um bebé muito pequeno e frágil.
Decidimos repetir o exame aos 15 dias de vida, depois com 1 mês, com 3 meses, com 4 meses e com 6 meses; sempre sem respostas.
Foram meses de exames inconclusivos até que aos 15 meses foi considerado “ouvinte” através de um exame que se chama "Potenciais Evocados" que são, basicamente, registos do sistema nervoso central seguido de estimulação dos órgãos sensoriais. Este exame validou-o como “ouvinte” sem que isso significasse que o fosse a 100%.
Aos 15 meses estava tudo aparentemente bem, mas eu sabia que não seria definitivo. Uma mãe sabe. Uma mãe sente. Estas coisas não se explicam e apesar de ter ficado aliviada pelo tormento vivido desde o seu nascimento, a verdade é que eu sentia que "um dia" alguma coisa iria acontecer.
Aos 3 anos começaram os primeiros sinais efectivos de perda auditiva. Virava a cabeça sem percepção do som, sentíamo-lo perdido sem noção espacial, o permanente "o quê?" sempre que, de longe ou de lado, lhe fazíamos alguma questão. 
Cedo percebi que me lia os lábios. Cedo percebi o esforço que fazia para processar a informação. 
Sem se aperceber, o meu filho foi encontrando formas de comunicar (e ouvir) sem que isso o impedisse de crescer, falar e aprender ao ritmo dele. Fantástico, não é?
Perante as evidências, regressamos ao Otorrino - Especialista em Surdez Infantil - que já o seguia desde os 8 meses.
Muitos exames. 10 audiogramas em 3 meses, exames repetidos, e repetidos e repetidos novamente, novas opiniões de norte a sul, resultados na mão.
“Surdez moderada a grave bilateral”; foi o nome pomposo e assustador.
Não gelei. Não chorei naquele momento. Não pensei “porquê?”. Não pensei nisso. Nunca. Ali, nunca.
Apenas pensei que tinha acontecido e que tinha que lhe dar o melhor de mim e nunca esmorecer, mesmo que só me quisesse acordar de um sonho mau.
A decisão de pôr ou não pôr aparelhos auditivos, ficou sempre do lado dos pais.
A decisão que nunca nos impediu de ver com clareza o que a maternidade às vezes camufla.
O meu filho já era um menino muito feliz e seria ainda mais se tivesse mais qualidade de vida, portanto como pais não hesitamos em fazer tudo o que estava ao nosso alcance para o ver bem.
Avançámos com os aparelhos auditivos aos 4 anos (com os Super Poderes como o Duarte, carinhosamente lhes chama).
Ele escolheu um encarnado e outro azul da cor do Homem Aranha e do Capitão América, e nós adorámos a ideia de fazer desta história de vida uma coisa divertida!
Fazer desta nova rotina uma coisa boa que o fez sentir-se melhor, menos cansado ao final do dia, mais confiante na escola, mais confiante perante as adversidades.
Anda todo orgulhoso dos seus "super poderes” que o fazem ouvir tudo na sala de aula, sem ruídos, sem interferências, sem receio de não ter percebido bem.
Todo um mundo de novas emoções a ser vivido! A descoberta de novas sensações. Toda a magia reflectida no olhar.
Gosto da força dele quando se está a borrifar se lhe olham para os aparelhos, se lhe perguntam o que é, se o confrontam com a realidade que até ele se esquece que é a dele...
Gosto da força com que nos diz: “quando tiver os anos do João (o irmão com 10 anos), já não vou usar aparelhos”.
Veremos quando lá chegarmos! ... até lá estaremos aqui, lado a lado no caminho, caso a determinação que tem de sobra, não seja suficiente para guardar no passado os aparelhos que o ajudam diariamente a crescer.
A expressão facial do Duarte no momento em que os aparelhos foram ligados, foi indescritível e impagável.... A expressão de espanto, os olhos muito abertos, o sorriso de orelha a orelha, as mãos e a voz trémulas...foi absolutamente mágico e emocionante!! Tão emocionante que me emociono só de pensar!
Naquele momento - no exato momento -  tivemos a certeza... Tomámos a decisão certa. Percebemos no imediato que o Duarte seria muito mais feliz a partir daquele dia!
As melhores decisões são sempre aquelas que tomamos com o coração. Sempre!
Basta acreditar e confiar que tudo vai dar certo!

Artigo adaptado de http://www.memoriasdam.pt/