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Viver com Endometriose


Não sei exatamente em que dia senti dor pela primeira vez. Sempre lhe resisti pois após a primeira menstruação diziam-me que era normal doer. Recordo-me de nas consultas de planeamento, queixar-me de desconforto e "moinhas" no fundo da barriga. E tantas vezes ouvi “isso é intestino, não é dos ovários, come isto e aquilo, faz exercício e toma um ben-u-ron que isso passa”. Fazia infeções atrás de infeções, perdi a conta aos antibióticos que tomei e aos reforços da flora vaginal que fiz.“Não tens defesas, isto é normal” e eu convencia-me disso sem que nada pudesse fazer para o evitar. Nos exames ginecológicos, toda eu me torcia, sentia que estavam a espetar-me uma agulha gigante no colo do útero. “Tens o útero invertido, (transversal), é difícil encontrá-lo, tens que aguentar”. Em cada consulta seguinte, ou em cada episódio de urgência, ainda antes de me tocarem, eu já avisava, na esperança de que o tormento fosse menor. “Vais ter muita dificuldade em engravidar com o útero nesta posição”, disseram-me vezes sem conta. Mas foi quando inesperadamente uma vida se gerou em mim, que eu voltei a acreditar no meu instinto. Havia algo de errado comigo, mas lá no fundo nascia ali uma réstia de esperança. Foi uma gravidez com tanto de desejada como de dolorosa. “Não tens dores nenhumas, isso é impressão tua”, “ estás feita uma senhora muito melindrada”, também ouvi! 
Mas nenhuma das pessoas que me disse isto, estava na minha casa quando eu tinha que me agarrar às paredes para chegar a outra divisão. Quando temi que o meu filho nascesse prematuro por ter a barriga tão em baixo e episódios de dor incapacitante. Mas quando comecei com contrações ás 33 semanas, voltaram a dizer-me “vá para casa, tome um ben-u-ron e descanse”. E todas as 5 semanas seguintes até ao nascimento, dei entrada no hospital com ameaças de parto. Que revolta tão grande ninguém valorizar aquela dor que mais ninguém podia sentir por mim! O meu filho nasceu e foi como se todas as dores não passassem de algo da minha cabeça. Até ao dia em que precisei de colocar um DIU, e o meu corpo fez uma rejeição tão grande que eu podia ter morrido. A partir daí começou o desencadear de sintomas uns atrás dos outros. A procura incansável por respostas. A correria entre ginecologistas de referência. As idas à urgência sem sucesso. As pílulas que resultavam em hemorragias desreguladas. A dor constante que quase abalou o meu casamento. Dias e noites de choro incessante num sofrimento constante e inexplicável. Conheci finalmente uma médica que se interessou pelo meu caso. Depois de 1 ano de exames e tentativas falhadas de controle dos sintomas,ouvi pela primeira vez um nome que parecia fazer sentido: adenomiose! 
Não era um diagnóstico, não era uma certeza, era só uma suspeita. E recomeça a pesquisa em busca de mais respostas, a partilha no meu blog na expectativa de que alguém me desse algumas luzes sobre isto. 
No meio daquela imensidão de dúvidas e emoções, e eu que acredito piamente que nada acontece por acaso, conheci a Diretora da Mulherendo - Associação portuguesa de apoio à Mulher com Endometriose. Bastou uma troca de testemunhos para que me fizesse chegar a um especialista. Tive medo, não vou negar! Havia um nome, no entanto era tudo tão incerto, estava longe de imaginar o rumo que a minha acabara de tomar. Chegou a consulta, e com ela o meu primeiro diagnóstico: evidência de focos de endometriose. (surge quando o endométrio, mucosa que reveste a parede interna do útero, cresce e se espalha em outros órgãos do corpo). Passaram alguns meses até à realização da ressonância magnética. E para meu espanto de todos, esta não acusou absolutamente nada! Desvaneceu assim toda a minha esperança de que alguém voltasse a acreditar nas minhas dores. Voltei à consulta e nunca me vou esquecer do quanto naquele momento eu quis chorar mas só consegui rir descontroladamente. “Não acredito minimamente nesse exame, eu sei o que vi, vamos avançar para laparoscopia”.

No meio das dúvidas, foi talvez a coisa mais acertada que tinha ouvido de um médico até então. Foram meses longos, em que todos os dias corri para a minha caixa de correio á espera de uma data. Sentia que a minha vida ficou pendente daquilo, daquela cirurgia. Acreditei que no dia em que entrasse no bloco, sairia de lá com uma vida nova pela frente. Ainda que em tantos momentos me tenha ido abaixo e duvidado de mim mesma. Cheguei a achar que não iam encontrar nada de especial e que talvez eu fosse mesmo uma “mariquinhas” intolerante à dor que diziam ser normal. O desespero de quem vive com uma doença crónica como a endometriose, naturalmente conduz-nos a um estado de espírito incerto e oscilante. Nunca sabemos se vamos acordar sem dor. Isso acaba por parecer algo realisticamente impossível. Um dia sem vómitos, náuseas, cólicas, hemorragias, diarreias, suores, dores de cabeça, é um dia feliz. Um dia em que não afastamos os nossos maridos e os fazemos sentir tão impotentes quanto nós, é um dia memorável. 



Viver com endometriose, é sentir que sou espancada diariamente. É duro mas é esta a descrição possível. É como se houvesse um cinto repleto de espetos em torno da cintura que aperta quando bem lhe apetece. É viver com um monstrinho dentro de mim que me rouba parte da vida, sem pedir autorização. Chega a ser incapacitante, ao ponto de não poder sequer pegar no meu filho ao colo.
Fui operada há um mês. Os 5 dias seguintes foram só os mais longos da minha vida. O estar distante do meu filho de três anos pela 1ª vez, foi um derradeiro teste aos meus limites. Agarrei-me à certeza de que tudo aquilo havia de valer a pena. Que eu não teria mais de chorar à frente dele e explicar-lhe que tenho “dói-dói na barriga”. Embora sempre tivesse imaginado que se voltasse a estar numa maternidade seria certamente para ter um filho. Só que fui presenteada com esta doença que veio ensinar que todas as lutas nos levam ao caminho certo e a busca incessante deste direito à qualidade de vida. E estive ali, a aceitar a minha nova condição, sem outro filho no colo como idealizei. Aliás, depois disto, veio o diagnóstico final: endometriose nas paredes do útero, este que se encontra tão desfeito que dificilmente será capaz de gerar outra vida. Podemos tentar, o quanto antes, pois quanto mais tarde, mais a probabilidade será reduzida e os riscos serão tão grandes que na melhor das hipóteses terei que fazer uma histerectomia total se seguida. Ninguém quer ouvir isto aos 27 anos, ninguém! Ainda assim, a vida continua e mesmo que a endometriose em estados mais avançados possa levar à infertilidade, eu já tive a minha bênção e é por este filho que não baixarei os braços face à doença. 

A Endometriose é uma doença crónica, não tem cura mas já existem alguns tratamentos atenuantes. Leva em média 10 a 12 anos a ser diagnosticada. 1 em cada 10 Mulheres têm esta doença!