0

Parto humanizado



O meu parto – Humanizado, Poderoso e Feliz (por Catarina Gaspar)

Desde há uns anos para cá, habituei-me a escrever regularmente objectivos de vida. Escrevi-os antes de engravidar, durante a gravidez e antes do parto. Fazia-me todo o sentido projectar as minhas intenções para o parto mas, ao mesmo tempo, sabia as consequências de criar expectativas e o desafio que é lidar com a desilusão depois. Não queria isso para mim.
Então comecei por criar intenções mais gerais e sempre baseadas na forma de me sentir e não nos eventos em si. Ou seja, eu desejava um parto humanizado, poderoso e feliz. O que cabe dentro disto? Quase tudo! Podia ser um parto intervencionado, demorado, rápido, com muita medicação ou sem, vaginal ou cesariana. O que me interessava mesmo era que me sentisse respeitada, empoderada e feliz. Estava disponível para viver a experiência que fosse. Daria o meu melhor para que fosse de encontro aos meus desejos mas abria espaço para o imprevisível e aceitava totalmente que assim fosse.
No final do Verão, durante uma caminhada na praia, comecei a falar com o meu filho (como sempre fazia) sobre o parto. Expliquei-lhe o que podia acontecer e o que, provavelmente, ele iria sentir. Disse-lhe tudo, detalhe por detalhe focando-me sempre no parto vaginal e espontâneo. 
Eu sentia-me radiante cada vez que falava com ele sobre isto porque começava a imaginar, a aproximar-me mentalmente dessa possibilidade e, às tantas, já sentia como se lá estivesse, no futuro, a viver aquilo. 
Bom, qual não é a minha surpresa quando, de facto, o Vasco nasceu EXACTAMENTE como eu projectei e como lhe disse. 
As contracções começaram na noite de segunda-feira, tímidas mas com sensação associada. Durante o dia de terça continuavam espaçadas (30 em 30 minutos) e com pouca duração (20/30segundos). Achei que com o cair da noite as contracções aumentariam a proximidade e a duração. E, de facto, isso aconteceu. Estavam então de 10 em 10 minutos e já chegavam aos 45/50 segundos. Estávamos no bom caminho! Talvez durante aquela noite ele nascesse. 
Pelas 2h fui para o sofá porque estar deitada era muito desconfortável. Passei a noite sentada, dormia entre contracções (que se mantinham no mesmo ritmo) e chegou a manhã de Quarta-feira. Novamente com a luz do dia as contracções espaçaram e só pela hora de almoço intensificaram um pouco. O meu marido tinha aproveitado a manhã para terminar alguns detalhes profissionais e regressou. Chamei também a nossa doula ao início da tarde e, entre caminhadas pelo jardim, agachamentos, uso da bola de parto, foco e muitas respirações conscientes passou-se a tarde.  A perda de rolhão mucoso era a única prova que tinha de que o cólo do útero estava a encurtar e que iniciava a dilatação. Fui comendo e bebendo durante todo o processo, descansando, recebendo massagens, toque, incentivo e amor. Muito amor. Até então sentia-me totalmente focada, apoiada e empoderada. Afinal estava a lidar com aquelas contracções muito melhor do que tinha imaginado. No final do dia a impaciência e a vontade de ver resultados falou mais alto e resolvemos ir ao hospital. Felizmente estava lotado e como o Vasco estava óptimo e eu só estava com 2 cm de dilatação, voltamos para casa. Voltei a passar a noite no sofá, voltei a dormir entre contracções e agora as contracções eram ainda mais fortes e mais próximas. 
Voltou o sol e amanheceu o dia em que o Vasco iria nascer – quinta-feira, dia 18 de Outubro.  Acordei muito sonolenta e muito mais introspectiva do que no dia anterior. Realmente estava a sentir os altos níveis de Oxitocina no meu corpo e a alteração evidente do estado de consciência. Voltamos a chamar a nossa Doula e passamos a manhã em casa. Apesar da minha falta de energia e de alguma desmotivação (afinal estava assim já há 48 horas e parecia que nada acontecia), caminhar tornava as contracções mais fortes e eficazes. Perto da hora de almoço disse ao meu marido para comermos porque a ida para a maternidade estava para breve (achava eu que estava a meio da dilatação, 5 cm talvez). Mais uma contracção enquanto almoçava e a certeza de que tinhamos de ir naquele momento!
Quando chegamos ao hospital estava já com 7/8 cm de dilatação. Chorei de alegria e de gratidão! Era tudo o que eu queria – chegar o mais tarde possível! Fomos logo para o bloco de partos e, fomos recebidos por uma enfermeira parteira (e equipa) maravilhosa que correspondeu em tudo àquilo que eu desejava. O Vasco nasceu às 14h46, menos de uma hora depois de darmos entrada no hospital.
Tive um parto natural (sem qualquer medicação), vaginal, activo (pari de cócoras com o meu marido sentado num banco a apoiar-me os braços e a parteira de joelhos no chão), poderoso, amoroso e TÃO feliz! 

Foi tudo o que idealizei e o que desejava para nós. E tenho a certeza que esta história tão bonita e real que vivemos deve ser partilhada com o máximo de famílias possível. Porque é possível! Porque somos nós os responsáveis pela nossa vida e temos, cada vez mais, de descobrir e assumir esse poder pessoal e criar a vida que queremos viver.  

Catarina Gaspar