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Dia Mundial da luta contra o Cancro


Fui desafiada pelo mães.pt a escrever sobre esta data, passarei a explicar a razão da escolha.
A vida por vezes parece sarcástica ou demasiada críptica por colocar datas, pessoas, sensações, acontecimentos que aparecem e desaparecem sem acaso, e que nem sempre conseguimos perceber uma possível sincronicidade, muito menos entendê-la ou até admiti-la.
Dia 4 de Fevereiro é a data (ouso citar, a mais importante na minha vida), foi o dia em que Deus me ofereceu, ou emprestou (palavra de Saramago), o meu primeiro filho. 
A partir daí, fui mãe mais uma vez (data duplamente importante) e com duas vezes assim, completo-me por inteiro, nesta função que é sem dúvida, o que melhor define aquilo que eu sou.
Triste coincidência, dia 4 de fevereiro assinala a maior luta da minha vida, o cancro. Já enfrentei duas batalhas e tal como os filhos, ficava-me fartamente saciada com esta dose dupla.
Sobre o cancro e sobre as mães, conheço a cara jubada do medo. Um monstro que aparece, assusta qualquer mãe com a ideia de ser forçada a partir. Os momentos que não se está cá e se vai fazer falta, são elenco de filmes futuristas no nosso presente. Qualquer coisa de instinto animal sai de nós; fiquei mais selvagem, confesso. A fúria, a garra, o enfrentar o monstro sem medos. Por outro lado, lembro-me de tocar mais nos meus filhos como se os sentisse com outra posse e desejo, como se os quisesse numa outra dimensão, recordo-me de os farejar quando dormiam, de falar com eles com os olhos, como se todos os sentidos se apurassem. 
O cancro muda-nos! Isso, tenho sentido com testemunhos de sobreviventes, quase um efeito de renascer.
Tem-se noção da efemeridade da vida, o que dá um sentido diferente, mais intenso no dia-a-dia. Ingredientes simples como a gratidão que dão mais sabor, as prioridades redefinidas, para que nada fique por fazer, se o dia se lembrar de acabar amanhã.
Este meu texto tinha que ter assim um carater de oratória de amor à vida!
Para mim, escrever sobre esta data no site de mães, é escrever sobre a luta mas acima de tudo sobre o que mais importa.
É escrever sobre quem não nos abandona, quem nos ama e sofre connosco, quem esconde lágrimas com sorrisos no rosto amedrontado, que se finge não reparar. Um tributo a quem amo, ao verdadeiro amor à prova de monstros.
É escrever aos que nos abraçam, que têm mais medo do que nós e que talvez por isso, não sabem o que dizer, nem como fazer, basta estarem lá, mesmo em silêncio. Um tributo aos verdadeiros amigos, tão bom existirem!
É escrever aos que nos substituem quando estamos internados, a fazer tratamentos ou quando estamos a ressacar dos químicos, que protegem as nossas crias como se fossem deles. Um tributo a eles, que são a minha verdadeira família!
É escrever aos cuidadores, a todos! É escrever ao IPO e outros hospitais. Os médicos, enfermeiros, auxiliares, voluntários, que entregam o melhor de si, por nós, genuinamente. O quanto estou grata ao serviço de hematologia do IPO do Porto e Lisboa, pelo seu meritório trabalho de Excelência! Em tempos, a minha casa, o meu porto seguro.
É escrever aos que investigam e que procuram soluções mais eficazes, quer para o diagnóstico, quer para os tratamentos.
É escrever sobre as associações que zelam para que haja um maior apoio, quer informativo, quer de necessidades básicas como alimentação, alojamento ou companheirismo.
É escrever aos dadores de sangue e principalmente aos dadores de medula que dão mesmo de si, para salvar vidas. Tributo a estes grandes heróis!
É escrever aos meus Deuses e Anjos, com quem conversei e até me zanguei, mas que acredito que estiveram deitados comigo na cama dos hospitais, nos blocos operatórios, nos dias de tratamento, nos dias de avaliação e o que quer que exista, deu-me muita tranquilidade para acreditar que sairia mais uma vez, vencedora dessa luta. 
Só não consigo escrever aos pais que nos veem sofrer. Nem imagino o que sentiram os meus. O meu medo é tanto que me impede de dar um passo na entrada do serviço de pediatria de qualquer hospital oncológico. Os meus dedos tremem e as letras aprisionadas em mim, nem saem para o papel.
A esses pais presto homenagem e aos pequeninos que vejo passear pelos corredores tenho uma profunda admiração. Nesse caso, são eles imagem de oratória, são verdadeiros anjos na terra, o exemplo a seguir, quando nos queixamos da vida, quase perfeita, que temos.
O cancro é o monstro jubado, mas quando o assustamos quero acreditar, que ele apareceu com um propósito, como tudo o que acredito na vida, talvez nos tivesse visitado para nos mostrar algo, nem que seja o melhor de nós!
Para todos os que estão na luta e que tiveram paciência de me ler até aqui, palavras de muita coragem, tranquilidade e superação. Espero do fundo do coração, que um dia vejam o cancro lá atrás, como se uma sombra apagada que nos recorda, o quanto é bom viver!
Queria acreditar que em breve, o cancro se tenha tornado uma doença ultrapassada, num mundo menos tóxico de stress, de químicos nos alimentos que comemos, na água que bebemos e no ar que respiramos. 
Como se sabe, após a 2ª guerra mundial as taxas de incidência de doenças oncológicas aumentaram, fruto não só da deteção e do avanço científico, como muitas vezes, queremos justificar inteiramente. Existe, uma tendência estatisticamente comprovada para um aumento destas doenças que acompanha não só o aumento da esperança média de vida, como anda de mãos dadas com um mundo frenético em que os animais que comemos não são livres, os vegetais cheios de pesticidas, o emprego resume-se à vida ou a vida ao emprego. Cuidar de nós, cuidar do outro, cuidar do corpo. Talvez nessa altura, o Homem pense como seria a sua vida se um dia um indivíduo jubado o visitasse e pensasse que não adianta correr se não soubermos apreciar uma paragem. A propósito da paragem, do dar e receber, talvez pudesse pensar que se não o é, será um bom dia para se inscrever como dador.

Agradeço em nome de todos.



Mafalda Lira
Escreve no
Mãe, Matemática, Defensora de causas, Sonhadora e Apaixonada pela vida
Artigos