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Acredito que quem tem um blogue deve passar boas energias para esse lado, por isso fico em silêncio quando não sinto que o vá fazer. Mas também acredito que faz falta a quem está desse lado, ler que quem está deste não tem uma vida perfeita e é mais uma, como tu que estás aí a ler-me.
Sou mãe, com dias em que
me sinto uma super mãe, capaz de tudo, outros em que não me sinto capaz de
carregar o peso da minha filha no colo porque as energias quase se acabaram no
turno de 12 horas a correr atrás de vidas, umas salvas, outras perdidas.
Sou enfermeira, presto
cuidados de urgência e emergência e, não raramente, passa pelas minhas mãos a
desgraça de muita gente. Pesa nos meus ombros a responsabilidade de estar à
altura na altura certa, de responder no segundo que faz a diferença entre uma
família manter deste lado de cá, da vida, um pai, uma mãe, um filho.
Sou enfermeira, devo
cumprir com o sigilo profissional que jurei. São tantas as vezes que me apetece
partilhar convosco histórias de vida com as quais me cruzo. Faria bem a
qualquer um de nós. Mas não posso, mas queria, porque é nessas histórias que, muitas
vezes, vou buscar força einspiração para continuar a fazer o que faço, para não
me queixar mais da minha vida, para valorizar o que tenho.
Nós, enfermeiros,
estamos muitas vezes sujeitos a um stress inimaginável, que não podemos
transparecer para o doente e/ou família.
Este mudo stress, aquela lágrima que não podemos deixar fugir em frente ao
doente e/ou família, repercute-se no meu corpo e cabeça, na minha disposição
para a família e para socializar. E ninguém vê isto.
Os governantes do nosso
País não sentem as nossas dores nem as dores de quem cuidamos e relativizam
tudo isto para a inerência da profissão, para onde só vai quem tem vocação (diz
quem acha que assim é), diz muitas vezes quem está de fora que somos pagos para
isso!
Vou dar-vos uma
novidade: NÃO SOMOS!!!
E, enquanto assisto a
desfechos tristes, contenho as lágrimas pelas dores dos outros, confortada pela
certeza de que faço o melhor que posso e de que tenho a os meus à minha espera.
Faço por não trazer para
casa o cansaço e a soturnidade que carrego, tantas e tantas vezes… tento ser a
mãe, apenas a mãe, tento ser a esposa, apenas a esposa, sem ser a enfermeira
que saiu de rastos do seu turno, e tento passar para a minha família a alegria
que sinto por os ter comigo.
Nem só de turnos tristes
vive uma enfermeira e também salvamos vidas, melhoramos qualidade de outras,
contribuímos para um final feliz ou para um início de vida que corresponda às
expetativas de quem está ao nosso cuidado.
Por tudo isto, são
muitas as vezes que acabo por não vos escrever. Porque deste lado pesa o
cansaço e, muitas vezes, a culpa por me sentir feliz por comparar a minha vida
com as tragédias dos outros. Porque tenho receio de falar demais, de sentir
demais, de transmitir demais… Se calhar acabei de o fazer...
9/21/2017
8/19/2017
7/28/2017





