Conto-vos a história de alguém muito
próximo, provavelmente a história de alguém que cada uma de nós terá muito
próximo…
Quando temos um primeiro filho esse
acontecimento é vivido, na maioria das vezes e dos casos, com grande alegria e
entusiasmo no seio da família e dos amigos. Muitas vezes essa criança para além
de primeiro filho é também primeiro neto, sobrinho, etc. Mas depois passa o 1º
aniversário, o 2º, o 3º e começam as perguntas “ e para quando um mano?”, “já
estava na altura de ter um irmão”, “ um irmão era mesmo o que lhe estava a
fazer falta” e por aí adiante como se as pessoas achassem que têm o direito de
opinar sobre as decisões das vidas alheias. É certo que na maioria das vezes
estas perguntas fazem parte das chamadas conversas de ocasião…mas o problema é
que quem pergunta não sabe (nem tem que saber) quais as razões pelas quais não
há um irmão. Razões essas que podem ser de várias naturezas, mas acreditem que
há razões que custam muito a aceitar para uma mãe e um pai e até mesmo para o
filho(a) que já existe!
A história que vos conto é de um casal com
um filho de 5 anos que a dada altura começou a fazer sentido alargar a família,
dar o tal irmão que há muito era pedido! Tudo normal até aqui, a primeira
gravidez tinha decorrido sem sobressaltos, consulta pré-natal feita com sucesso
e eis que surge a grande novidade!!! Outro bebé vinha a caminho! Mas a vida e o
destino prega partidas e este bebé não passou das 9 semanas de gestação…um
balde de água fria…o sonho desfeito de uns pais e de um irmão com 5 anos…
Nestas ocasiões é frequente se ouvir coisas como “deixa lá, não tinha que ser”
ou “não foi desta será para a próxima”, ou ainda “ o que te aconteceu a ti
acontece a muita gente”. Como se aquela mãe a quem lhe acabaram de arrancar um
sonho, sentisse a sua dor diminuir por qualquer uma daquelas frases, ou até
mesmo por outras mães já terem passado pelo mesmo (esta para mim é das
piores…), ninguém devia saber a dor de perder um filho ainda que seja na mais
tenra idade de gestação.
Depois destes episódios, para além da dor
e cicatrização física, fica também a dor e a cicatrização psicológica, e estas
são bem mais difíceis de cicatrizar. Muitos casais optam por não voltar a
tentar, tal não é o medo de passar por tudo de novo, outros tentam e
rapidamente voltam a ter o seu bebé nos braços, mas há casos bem mais
difíceis…Casos em que os anos vão passando, os exames revelam que tudo
organicamente funciona dentro da normalidade, mas os meses passam e a tal
novidade boa não chega. Fazem-se medicações, tratamentos, uns e outros e nada…e
à volta continuam as perguntas “Mas quando é lhe dão um mano?” ,“Ele (a) já
está muito grande!”. E cada uma dessas perguntas são mais um “acalcar” numa
ferida que teima em não sarar. Nesta história houve um final feliz, três anos
após tentativas frustradas, consultas e mais consultas, medicamentos com
possíveis efeitos secundários houve uma boa notícia! Agora esta gravidez evolui
com sucesso, mas sempre envolta em muita ansiedade e até em algum segredismo
inicial, tal era o receio de ver mais um sonho desfeito!
Por isso, em nome desta família e de
tantas outras que passam pelo mesmo, deixo um pedido não questionemos as
decisões de um casal em ter ou não ter filhos, em ter um ou dois filhos, porque
nunca sabemos as razões que estão por detrás de cada decisão e qualquer que ela
seja para aquele casal é legítima! Deixo uma sugestão pergunte-mos antes “São
felizes???”, isso sim é o fundamental…ser FELIZ!