Mostrar mensagens com a etiqueta Joana Diogo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joana Diogo. Mostrar todas as mensagens

Apetece-me pegar em ti e levar-te ao outro lado do mundo. Adormecer numa cama de rede e cheirar-te a cabeça sempre que me apetecer. Mergulhar contigo nas ondas quentes do pacífico, ver-te comer areia cheio de prazer de quem descobre uma coisa completamente nova. Às vezes esqueço-me de que é a primeira vez que sentes a areia nas mãos e nos pés, que para ti um por do sol cor de rosa é completamente normal, que a água fria não te limita. Tens o mundo todo por explorar filho. Tudo. O prazer de ler um livro, de comer um gelado ainda com sal no corpo, de ouvir os passarinhos cantar, de abraçares amigos queridos. Falta-te conhecer ainda tudo. Todos os países, músicas, línguas, museus, parques, estradas e ruas. Tens tudo à tua frente. E todo o entusiasmo para seguires pelo caminho que vais traçando. Porque qualquer dia és uma pessoa como nós, com passado, com sentimentos recalcados, com dúvidas existenciais, com cansaço acumulado. Não tenho a ideia idílica de que não o vais ser, mas que sejas tudo isso com mais leveza. Com outras prioridades, com mais amor. Que vejas mais vezes e penses mais vezes em coisas bonitas do que eu. Que aproveites tudo, ao máximo, sem medo das consequências. Que te consiga transmitir a força da decisão que tomei há pouco tempo, que consigas decidir exactamente pelo que te faz mais feliz. E que vejas muito. Com os olhos e com o coração. Que não sigas tanto a cabeça. Que ouças mais o coração. A vida e as pessoas. Aquelas que te trazem momentos felizes e afastam os maus. Que sejas livre, leve. Que não te leves demasiado a sério. Que me sorrias sempre como sorris agora quando deixo cair alguma coisa ao chão e fico chateada. E tu ris, à gargalhada. Que vejas em mim o melhor que eu posso ser e que eu aprenda contigo todos os dias a rir mais à gargalhada.




Tinha-te outra vez. Tinha-te as vezes que fossem precisas. Tinha-te outra vez quando eras tão pequenino que nem te sentia o peso. Tinha-te outra vez quando mal abrias os olhos e me procuravas o peito. Tinha-te outra vez nas noites em que acordavas de hora a hora. Tinha-te outra vez na primeira vez que sorriste para mim. Tinha-te outra vez quando começaste a gatinhar pela casa toda. Quando me sorrias e sabias que estavas a fazer alguma coisa de errado. Quando comeste banana pela primeira vez e disseste nham nham. Quando fazias cocó até ao pescoço. Quando adormecias na nossa cama e de manhã abrias os olhos e largavas um sorriso gigante por perceber que estavas ali. Quando dizias olá a quem passava na rua. Tinha-te outra vez quando abrias e rasgavas os papéis debaixo da árvore de natal. Quando fazias chichi assim que te tirava a fralda. Quando partilhaste o pão com a Sushi pela primeira vez. Quando disseste mamã muitas vezes seguidas enquanto esticavas os braços para mim.Tinha-te outra vez agora, filho, e todas as outras vezes que me passas pela cabeça durante o dia. Que são imensas. Porque ter-te é inexplicável. Ter-te, sentir-te, cheirar-te é uma experiência de outro mundo. Tinha-te agora mesmo outra vez, na sala de partos, com toda a calma e serenidade do mundo, exactamente como foi. Tinha-te outra vez agora mesmo só para te sentir mais, para te sentir melhor, para te dar ainda mais de mim. Tinha-te outra vez hoje, amanhã e todos os outros dias. Porque por mais vezes que te tenha, nunca vou conseguir que saibas o quanto te adoro, o quanto gosto de te ter. Por mais vezes que te tenha, nunca serão vezes suficientes para te amar o suficiente. 

Parabéns Sebastião, um ano inteiro de ti :)

Tu choravas e eu chorava contigo do lado de fora da porta do teu quarto. Foram três noites muito duras. Estabeleci para mim mesma que tentaria durante cinco dias no máximo. Se não resultasse não iria estar a forçar. Mas nove meses de privação de sono, um quase acidente de carro devido a sonolência e o facto de ter começado a perceber o mal que te fazia não descansares devidamente devido à dependência em adormeceres, fizeram-me ceder a uma estratégia que tinha posto de parte desde o início. Deixar-te chorar. Depois de quatro livros, dezenas de artigos na internet, de conversas com outros pais, conselhos de pediatras diferentes, consultas numa terapeuta de sono, consultas numa osteopata, mama, biberão dos sonhos, desmame, banho antes, banho depois, pouco estímulo, sestas grandes e sestas pequenas, nada estava a resultar. Foram semanas e semanas de tentativas falhadas, de ansiedade face à hora de deitar, de piscinas entre o teu quarto e o meu. Quando tudo falhou, sentei-me e disse a mim mesma que tinha de dar oportunidade ao método que me revolvia as entranhas. Foram três noites em que te deixei a chorar quando te deitava. Foram três noites em que quase não conseguia mexer-me ou respirar por achar que te estava a fazer mais mal que bem, que ias sentir-te abandonado por mim, que me estava a tornar uma péssima mãe. Mas foram três noites. Na segunda noite dormiste pela primeira vez nove horas seguidas, na terceira dez e à quarta já não choraste.  Nos dias seguintes de manhã abraçava-te muito, com imensa força e olhava-te bem nos olhos para tentar descobrir algum sinal em ti de que estavas magoado comigo. Nunca vi diferença nenhuma. Vi, aliás, uma grande diferença na tua qualidade de sono, que acordavas bem disposto, sem chorar, a querer brincar e a sorrir.  Não é assim todos os dias. Há noites em que ainda reclamas um bocado quando me vês sair do quarto, depois de te dar um beijinho na cabeça de boa noite, mas ouço-te durante meio minuto e depois adormeces. Outras, ouço-te a meio das noite, fazes uns grunhidos, mexes-te imenso, detestas estar tapado, mas não chegas a chorar e adormeces poucos minutos depois. Obriguei-te a crescer, eu sei, mas as noites cá em casa começaram a parecer novamente normais, sem ansiedade, sem frustração. São noites para descansar e recuperar energias. E quando estás doente também vou ver-te muito mais vezes, dou-te colo quando sinto que precisas de aconchego e acabo por “matar saudades” das noites em que praticamente dormia no cadeirão do teu quarto. Espero que essas três noites já se tenham apagado da tua memória, que um dia mais tarde percebas que foi a minha última opção, que antes tentei tudo o que havia para tentar, mas que não aguentava mais. Ainda tenho medo de teres ficado sentido comigo, mas tento compensar-te tudo durante o dia, com muitos abraços, muitos beijinhos e toda a paciência do mundo.



Custou-me muito aceitar que tenho um filho que não dorme. Que todos os outros bebés próximos que temos de nós já dormem oito horas seguidas e o meu não. Que a sociedade, os avós, os tios, os primos, os amigos e conhecidos não percebem porque razão eles não dormem e acham sempre que estamos a fazer alguma coisa de errado. Que foram precisos quatro livros sobre o sono, muitas semanas de tentativas frustradas, muita pressão do mundo exterior sobre mim, muito choro (meu e dele), duas consultas no osteopata e uma consulta numa terapeuta de sono para perceber que estou a fazer tudo bem. Estou a fazer tudo o que é esperado para um bebé de quase nove meses. Estou a fazer tudo bem.
A única coisa que estava a fazer errada era não aceitar que o meu filho não é como os outros bebés. Outra coisa também foi ter-me apercebido um bocadinho tarde demais que afinal o meu filho faz parte de, atrevo-me a dizer, 70% dos bebés que não dormem como seria esperado. Só a partir do momento em que comecei a falar do assunto para lá da minha esfera de família e amigos é que me apercebi da quantidade de casos iguais ou piores que o meu.
O meu filho não dorme como eu gostava que ele dormisse e eu já aceitei isso. E a partir do momento em que o fiz, a partir do momento em que comecei a olhar para ele de uma forma mais especial, e não a achar que ele era a excepção à regra, saiu-me um peso de cima. Deixei de depositar as esperanças no que estava para vir. Que vai ser quando ele começar a comer sólidos, que vai ser quando ele começar a sentar-se, que vai ser quando ele começar a creche, que vai ser quando passar para o quarto dele. E depois ficava tudo igual. Tinha umas noites melhores, mas acabava por voltar sempre ao mesmo.
Tenho um filho que não dorme como eu quero, como a sociedade quer ou como os pediatras querem. Tenho um filho que dorme como ele quer. E se ele está a crescer, se está saudável, se come bem, se sorri e é feliz, então o problema não é ele. Sou eu e toda a gente que acha que os bebés são todos iguais e devem fazer tudo nas mesmas fases. São os livros que nos enchem a cabeça de teorias, o dinheiro que gastamos em consultas para que as teorias dos livros resultem e a pressão de toda a gente querer que o meu filho durma a noite toda. Eu também quero que o meu filho durma a noite toda. Sou, na verdade, a pessoa que mais quer isso no mundo inteiro. Mas enquanto isso não acontece tenho de aceitá-lo como ele é. Porque é isto que significa ser mãe e pai. Aceitá-los como eles são e apoiá-los sempre. Porque hoje, quando ele acordar a meio da noite pela quarta ou quinta vez, eu vou levantar-me da minha cama quente, vou percorrer o corredor frio, vou confortá-lo e vê-lo adormecer mais uma vez. E vou aceitar que ser mãe é isto mesmo e que não existem filhos perfeitos.



Assim que temos um filho tornamo-nos mães. E ser mãe implica demasiadas coisas. Implica estar sempre disponível, implica muitas horas de devoção, implica também poucas horas de sono. O que ninguém nos diz é que quando nos tornamos mães a nossa confiança cai a pique. Podemos ser as pessoas mais positivas, resilientes, seguras e confiantes do mundo, mas assim que abraçamos no nosso colo aquelas criaturas pequeninas, tudo se dissolve num mar de dúvidas. E tentar que assim não seja, tentar ouvir o instinto maternal e calar o mundo à volta é onde mais falhamos. O que não faz qualquer sentido hoje em dia. Antes e como se dizia “era preciso uma aldeia para criar uma criança”, agora essas aldeias não existem. Cada um está na sua vida. As avós não vêm para casa nos primeiros tempos, não existem tios e tias para partilhar as horas de atenção necessárias, não há apoio dos vizinhos, nem tão pouco existem comunidades que se protegem. É um mundo novo, diferente, onde as dúvidas do dia a dia são escritas no computador e enviadas para o mundo, onde quem nos sossega e responde é uma cara que nunca vimos e que pode estar a quilómetros de distância. As avós ficaram para segundo plano, as tias estão ocupadas a trabalhar ou até fora do país, os vizinhos vivem a vida deles e dão-se ao trabalho de tocar à nossa campainha para se queixarem de qualquer coisa, nunca para perguntar se precisamos de ajuda. É um mundo onde cada um está por si, e por mais informação que exista, por mais livros que se leiam, falta a experiência humana, o calor humano, a companhia. Companhia. Há quanto tempo alguém não vos faz companhia? Simplesmente estar ali, para o que for preciso. Para falar, para cozinhar, para embalar, para passar as mãos pelos cabelos ou para estar. Ninguém tem tempo nem paciência para estar. Estar, respirar o mesmo ar, sentir o mesmo ambiente. Sem planos, sem distrações, com aborrecimento até. Porque se temos uns minutos livres estamos agarrados aos telemóveis, aos tablets, aos computadores, estamos em constante dispersão, desviamos a atenção do que é realmente importante. Será que alguém precisa de nós neste momento? Para se aborrecer? Para estar apenas? Sem críticas, sem opiniões, sem comentários. Sem dizer que não se pode dar colo, que não se pode dar mama, que não se pode dar biberão, que não podem estar na nossa cama, que não podem estar tão vestidos, que não se pode dar bolachas, que já devia beber água, que está demasiado calor, que as sestas deviam ser maiores. Que, que, que. E nós, mães, sozinhas, sem apoio, vamos ouvindo estes comentários, estas frases soltas, e agarramo-nos a elas como se fossem bóias de salvação. Porque são a única coisa que temos para agarrar nesta sociedade egoísta, egocêntrica e distraída. Quantas vezes já vos disseram para deixar o vosso bebé chorar? E quantas vezes se ofereceram para o adormecer? Dá que pensar não dá?





Não é apenas a privação de sono. Mas também é. Não dormir seis horas seguidas há três meses mexe com a cabeça de qualquer pessoa. Resulta em silêncios a meio de frases porque não me lembro da palavra ou em raciocínios lógicos pouco coerentes. Mais problemático só o facto de não ter muita paciência para certas conversas e responder torto quando a situação não o pede. Mas não é esse o ponto mais difícil, penso eu. Mais difícil do que a privação de sono, é a privação da liberdade. E julguem ou oponham-se o que quiserem, mas esta é a realidade quando se tem filhos. Ficamos reféns. Seja por estarmos a amamentar, pelo pai voltar ao trabalho, por ter a família longe, porque o bebé está mais habituado a nós ou simplesmente porque somos mães. Ser mãe. A mãe. Que está sempre lá. Para embalar, confortar, alimentar, dar beijinhos, a mãe. Mas que também é a que está quando estão doentes, quando têm cólicas, quando choram sem parar, fazem birras do tamanho do mundo para adormecer ou simplesmente porque não estão bem com qualquer outra pessoa. São vinte e quatro horas, sete dias por semana. Não existe a liberdade de bater com a porta. O bater com a porta já é por si só uma situação a evitar quando se tem um bebé a dormir. Este é, sem dúvida, o ponto que mais me limita. O sair a correr, espreitar o relógio inúmeras vezes, só para ir comprar qualquer coisa, só para respirar outro ar que não o de casa, só para estarmos sozinhas connosco. A alternativa é levarmos o bebé connosco e damos por nós a estar semanas sem uma hora sequer a mais de vinte metros dos nossos filhos. É uma verdadeira liberdade condicional. Corremos contra o tempo. Tomamos duche à pressa com a porta meio aberta e estamos constantemente a esticar a cabeça porque nos parece que os ouvimos chorar, comemos à pressa para aproveitar enquanto dormem ou estão entretidos, dormimos à pressa nas quatro ou cinco horas que eles nos dão seguidas. É uma correria, um frenesim constante, um sentido de alerta no expoente máximo. A cabeça não dá descanso ao corpo. Onde deixámos nós a nossa liberdade enquanto pessoas? A nossa vontade? O nosso tempo? A verdadeira mudança é esta. Nunca mais seremos a mulher. Seremos, sim, para sempre, a mãe.

E este artigo demorou dois dias a ser escrito, durante o qual me levantei vezes sem conta porque a chucha caiu, cocó para limpar, soluços, xixi para limpar, birra de sono, espirros e outras duas vezes que tive de me levantar e dar uma volta pelo escritório porque não me lembrava do que queria escrever.