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Ainda nem ao ensino superior chegaram e já têm a mania que dão ordens lá em casa. Os filhos patrões gritam e têm momentos de autoridade em que querem mandar nos pais, nos avós, nos amigos ou simplesmente no cão ou no gato.

Já todos tivemos momentos destes com os nossos filhos, por imitação do comportamento adulto, por vontade de afirmar a identidade, para chamarem a atenção ou só porque naquele dia estão virados do avesso. Não há filhos perfeitos, nem pais perfeitos. Estamos sempre a falhar. E a educação não se faz num ato único, a educação é um trabalho difícil, desafiante e constante. Quantas vezes não nos vamos abaixo porque eles estão a desviar o comportamento e não sabemos o que fazer? Quantas vezes já pensámos “não me digas que o meu filho vai ser dos que se porta mal?’. Muitas vezes o autoritarismo chega logo na primeira infância, a partir dos 2 anos, e é preciso saber lidar para suavizar o comportamento futuro. Não existe uma fórmula mágica, existem sim estratégias, que a Psicologia Irina Vaz Mestre ajuda a explorar.

Como lidar com o autoritarismo na primeira-infância e como podemos “desviar” esse comportamento?

Este é, de facto, o primeiro mito que nos surge. Achamos que devemos “desviar” este comportamento e, ao acharmos isso, estamos a intensificá-lo ainda mais. A partir dos 2 anos de idade, a criança protesta muito e usa frequentemente a palavra “não”. Achamos que devemos fazer algo para que ela aceite o que lhe dizemos e para que proteste cada vez menos. Mas sermos pais conscientes (parentalidade consciente) significa, nada mais, nada menos, educar para crescer. Se, quando os nossos filhos chegam à idade da independência, queremos contrariar essa vontade, então não estamos a educá-los para crescerem. Estamos sim a ser autoritários e controladores, e este é, inevitavelmente, o modelo que lhes vamos passar. Sugiro então que, num primeiro momento, alteremos a nossa forma de comunicar, que passemos de uma comunicação autoritária e controladora para uma comunicação que reconhece a vontade do outro e que comunique confiança: “Sei que queres muito lavar os dentes sozinha/o. Que tal seres tu a lavar primeiro e, no fim, só dou uma ajuda” em vez de “Não podes lavar os dentes sozinha/o, porque és muito pequena/o. Vão ficar todos mal lavados. Eu lavo”. No entanto, não esperem que os vossos filhos aceitem tudo o que lhe dizem com um sorriso nos lábios. Eles vão continuar a querer fazer tudo sozinhos. Porém, desta forma, estão a ensiná-los a comunicar eficazmente as suas necessidades em vez de protestarem as suas necessidades de forma autoritária. Ao enveredarmos por este caminho da comunicação consciente estamos a fortalecer o bom relacionamento familiar. Na verdade, a comunicação é o caminho que nos leva à colaboração.

Enquanto pais, quais são os desvios na personalidade a que devemos estar atentos?

Enquanto pais, e aqui falo na perspetiva da Parentalidade Consciente, que é aquela que nos últimos tempos tenho aprofundado e adotado, o foco da nossa atenção está no entendimento do comportamento e na procura da resposta à pergunta “porquê”. Assim, a que devemos estar atentos é precisamente ao “porquê” daquele comportamento. Proponho que sempre que nos deparemos com “um desvio na personalidade” acionemos o detetive que há dentro de nós e tentemos perceber quais são as necessidades que estão por detrás daquele comportamento. É curioso que fazemos sempre isso quando os nossos filhos são bebés. Preocupamo-nos em descobrir a causa daquele comportamento e vamos ao encontro das necessidades do nosso bebé, tentando suprimi-las. Quando os nossos filhos crescem, deixamos de dirigir a nossa atenção às suas necessidades e focamo-nos apenas no seu comportamento. Queremos mudar o seu comportamento. Queremos que deixem de ser assim. Mas, e são assim porquê? Como refere a querida Mikaela Öven, minha mentora e guia neste caminho da Parentalidade Consciente: “Se conseguirmos agir em relação às necessidades, o comportamento também vai mudar. Quando a necessidade está satisfeita, o comportamento em questão deixa de fazer sentido”.

Enquanto mães, como podemos conduzir esta fase com Mindfulness?

O Mindfulness tem sido, para mim, uma ferramenta fundamental. O estado da nossa consciência faz a diferença. Se estivermos sempre stressados, ansiosos e preocupados, acabaremos por ter filhos e educar filhos neste registo de energia. O mindfulness permite-nos e ensina-nos a observar os nossos pensamentos como se de uma testemunha nos tratássemos. Permite-nos parar e orientar o nosso foco. Dirigir a nossa atenção. Enquanto mães, podemos superar os desafios que a maternidade nos oferece com uma atitude mindful. Parar, respirar e focarmos a nossa atenção em três perguntas, que nos ajudarão a encontrar respostas que, por sua vez, nos levarão a saber como agir:

1. O que está o meu filho a tentar comunicar e qual é a necessidade em falta?
2. Qual é a minha intenção?
3. Qual é a melhor forma de agir de acordo com a minha intenção?

Por intenção entenda-se a forma como queremos assumir o papel de pai ou de mãe. E estes são os intuitos que nos podem servir de guia quando temos dúvidas sobre como agir. Na verdade, refletirmos sobre as nossas intenções é o ponto de partida para uma Parentalidade Consciente e devemos sempre voltar a elas de cada vez que nos sentimos inseguros ou a vacilar num momento de angústia, impulsividade e conflito.

Colaboração: Irina Vaz Mestre, Psicóloga e Autora do Blog Voltar à Estaca Zero


Na minha infância o natal não existiu. Nunca tive Natal. Sou a menina que cresceu noutra religião, a dos pais, e que foi educada segundo a sua fé. Umas vezes íamos para a terra e estávamos com toda a família, pelo simples facto de que era a altura em que conseguíamos estar todos reunidos (eram dias simples e bons), outras vezes ficávamos por casa a fazer vida normal. Não os culpo por nada, respeito-os até por serem tão fieis à sua fé num mundo de tentações.

Não existia árvore de Natal, troca de prendas, compras de Natal, listas de presentes, histórias de natal, decorações, globos de neve, passeios... O Natal só era Natal porque o via na TV e nas montras, mas ainda assim, nada comparado com o presente. E, como nunca tive Natal, nunca me fez falta. Não podemos sentir falta daquilo que nunca tivemos e não sabemos como é. Parece estranho, mas é a mais pura verdade.

Cresci, por isso, com uma relação nula com esta quadra e só quando me tornei mãe comecei a olhar para o Natal, mas sem saber bem onde me situar. Como não tive educação católica, não me fazia sentido começar a encher a casa de Natal e contar a história do menino Jesus, cuja versão nem é a que me foi ensinada. Por outro lado, não queria que o pai se sentisse sozinho na missão de dar um Natal ao Duarte e comecei a criar aos poucos a nossa versão do Natal, que para mim passa por torná-lo especial para ele, através de passeios, momentos em família e atividades, como as outras famílias fazem. 

Passaram quase 5 anos e a verdade é que já adotei algumas tradições, como montar a árvore (nos primeiros anos essa parte pertenceu ao Pai), decorar a casa, fazer bolachas, criar um calendário do advento, este ano, pela primeira vez, até fiz um personalizado cheio de pequenas atividades. Consigo sentir alguma magia, até porque sou particularmente dada aos trabalhos manuais e à decoração, mas continuo a ter uma relação de amor - odio com o Natal.  

Não lido bem com o consumismo levado ao extremo, com as montras de outubro, com os 50% em brinquedos a apelar ao consumo desenfreado, as black fridays, as cyber mondays, as campanhas para tudo e mais um par de botas, as listas intermináveis de presentes para toda a família, como se fosse obrigatório termos capacidade de só dar bons presentes, daqueles que enchem o olho. As pessoas perdem-se no Natal e exageram no "espírito". E eu cá ando, ano após ano, a procurar o meu lugar, a fazer contas, a planear listas, a reduzir listas e a limitar despesas para fazer cumprir o Natal. E sinto que a rotina é a mesma todos os anos que passam e às vezes cansa-me. Gosto de dar e receber, mas não gosto da obrigatoriedade. Defeito ou feito, foi assim que esta menina virou mulher.

Por outro lado, entro também em conflito interno porque apesar de não lidar com este consumismo de massas, acabo por também entrar nesta teia e não ficar totalmente alheia ao consumismo, sobretudo para o Duarte, gosto de lhe dar presentes especiais, porque sou mãe e porque fico com o coração amolecido por vê-lo feliz. Quem não fica?

Do que gosto verdadeiramente no Natal?

Gosto dos jantares com amigos, das reuniões familiares, das fotos caseiras, do cheiro a filhoses da minha avó, da lareira, das luzes nas ruas, do assador de castanhas, dos bombons com recheio, de fazer trabalhos manuais com o Duarte, do bolo rainha, do bacalhau, do tabuleiro de bolachas de gengibre, das prendas caseiras que faço, das tardes de filmes e do pijama polar. Gosto de ver coisas bonitas e por isso gosto das formas, dos detalhes e da "estética" do Natal, e é nisso que me deixo levar. E apesar de ficar irritada com gastos supérfluos, gosto de mimar e dar presentes homemade.  
  
Mentiria se disse-se que não tenho desejos materiais e vontade de comprar coisas que gosto, partilho algumas por aqui no blog, mas sei que posso passar perfeitamente sem receber prendas no Natal que não me faz diferença, prefiro que as capitalizem para os meus, para o Duarte e para o bebé a caminho.  Os meus pais nunca me deixaram faltar nada, sempre tive acesso a tudo, sem datas e momentos "obrigatórios" e talvez por isso tenha esta espécie de “toca e foge” com o Natal. Gostava de sentir mais o espírito e menos a "obrigação". 

Por isso, vou continuar a apostar num natal mais minimalista e mais descomplicado, onde o "estar presente" é superior ao valor material entregue.

"As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo."
- Giacomo Leopardi

Artigo adaptado de​ www.blogbabytime.com  ​




Estudos apontam que 80% das gravidas relatam que seus sonhos foram particularmente vívidos, bizarros e detalhados durante a gravidez. E tenho para mim que esta é uma dúvida que chega a muitas grávidas. Eu incluída!
Estou quase a meio da minha segunda gravidez e a reviver muitas coisas da primeira. Se por um lado, existe a magia de voltar a criar uma vida dentro de mim e de poder acompanhar esta com outra calma e sabedoria, por outro voltam também com ela todos os medos, ansiedades, desconfortos e… as noites mal dormidas devido aos pesadelos noturnos.
São “só” pesadelos, mas irrita-me a capacidade que têm de me fazer acordar de manhã com o sonho em loop na cabeça e de tornar os meus dias mais amargos até a memória os apagar. São “só” sonhos, eu sei disso e todas as grávidas sabem, mas mexem connosco e são frequentes como tudo. Tocam-nos na ferida, estão sempre relacionados com o bebé e com algo não estar a correr bem seja na gravidez, no parto, no pós-parto, os cenários são vastos e os sonhos repetem-se. Malditos pesadelos.
Não há muito a fazer, ainda não inventaram fórmulas de laboratório para deixarmos de os ter e mesmo que já as tivessem inventado não as poderíamos tomar porque estamos grávidas. Acontece que durante a gravidez os sonhos têm a capacidade de ser tornais ainda mais reais e serem recordados com maior clareza, fazendo com que nos sintamos angustiadas. E tudo se deve ao que? Às nossas amigas hormonas.

PORQUE TEMOS PESADELOS?
A gravidez é um momento de mudança física e psicológica. Essas mudanças refletem-se também nos nossos padrões de sono. As mudanças hormonais podem perturbar o sono, diminuindo a sua qualidade. Por sua vez, as mudanças de sono estão associadas ao aumento da recordação dos sonhos e aos sonhos que parecem estar mais emocionalmente carregados e assustadores do que durante outros períodos da nossa vida. Claro, a gravidez é uma experiência emocionalmente intensa e, portanto, as preocupações com a maternidade são transportadas para os nossos sonhos.

OS PESADELOS MAIS COMUNS NA GRAVIDEZ
Em geral, os estudos feitos por entidades como a American Pregnancy Association mostram que é muito comum que as mulheres gravidas sonhem com gravidez, o parto e bebés na barriga. Verificaram também que a frequência aumenta gradualmente ao longo do estágio gestacional, ou seja, não tem tendência a melhorar com o aproximar do dia D.
A maioria dos pesadelos traduz as preocupações típicas da gravidez: potenciais ameaças para o bebé, aborto, integridade física da mãe e até mesmo preocupações sobre as habilidades parentais. Os sonhos podem acarretar imagens de terríveis ou ameaças perturbadoras para a saúde do bebé. Embora esta seja uma ocorrência normal, os sonhos perturbadores podem ser enervantes.

DICAS PARA NOITES MAIS TRANQUILAS
Como a grande parte dos sonhos é por causas hormonais confesso que não sei se há muito a fazer, mas existem algumas dicas:


Reduzir o ritmo à noite. Cerca de duas horas antes de ir dormir, desacelerar o ritmo e desligar os aparelhos eletrônicos (telemóvel, Pc e até mesmo a TV);

- Comer coisas leves ao jantar também pode ajudar a combater os sonhos estranhos. Sopa, uma salada com carne magra, para evitar uma digestão demorada durante a noite;

- Dormir confortavelmente, apostar roupas leves e criar um ambiente tranquilo, livre de barulho e luzes acesas.

- A temperatura do quarto também influência no bom sono e ajuda a evitar sonhos estranhos e até pesadelos. Segundo um estudo da faculdade de Yale, ambientes com temperaturas inferiores a 20 graus, reduzem consideravelmente a possibilidades de pesadelos. Isso porque com o corpo mais fresco, a atividade hormonal ficaria estabilizada.

Os sonhos estranhos na gravidez podem assustar muitas mulheres, mas também podem ser engraçados e alguns podem ficar na memória para recordação, por exemplo, já sonhei que tive este bebé na sala e que saiu já vestidinho e pronto para ir fazer a sesta na alcofa que pertenceu ao Duarte.
Infelizmente os pesadelos são mais comuns do que gostaríamos, mas em ultima analise podemos sempre encarar pela positiva e encara-los como uma consequência de uma bênção maior – estar grávida!




Ontem à noite estava numa festa de anos com algumas mães e uma delas recusou que alguém desse mousse de chocolate ao filho, de 3 anos. Achei bem. Gabei-lhe a coragem de não ter medo de ferir susceptibilidades. Uma atitude destas facilmente gera comentários “coitadinha da criança”, “chocolate nunca amargou”, “que educação tão rígida” bla bla bla. As mães e os pais é que sabem quando é que querem apresentar (ou não) a tentação do açúcar pela primeira vez aos filhos e, quando e em que situações é que os deixam comer. A intervenção de terceiros nestas ocasiões com a oferta de doces facilmente gera birras desnecessárias e frustração nos pais e na criança.
Sempre que estou numa situação de convívio, parece haver uma vontade geral nos adultos que rodeiam as crianças em mimá-las com doces, chocolates, gelados, salames, chupa-chupas e afins, como se aquilo fosse pretexto para estreitarem relações e fortalecerem o elo familiar. Não, não é. Experimentem sugerir ir dar uns chutos na bola ou fazer uns penteados nas Barbies e vão ver que o efeito é o mesmo – o que elas querem é atenção, não são doces!
Confesso que não me lembro ao certo quanto é que o Duarte comeu a primeira vez chocolate, mas lembro-me que quando comeu achei “nem devia ter começado tão cedo”. Provavelmente foi no Natal ou na Páscoa e a partir dai o Ovo Kinder passou a fazer parte do vocabulário dele – claro! A partir daí a minha mae achou que era fofinho comprar-lhe ovos e tive que me chatear, a partir daí os meus sogros passaram a ter mais chocolate em casa e tive que alertar. E, mesmo assim, à mínima distração, ele já está com um chocolatinho na mão porque “coitadinho é pequenino”.
Este ano depois da páscoa fomos obrigados a fazer-lhe um detox, em estilo de castigo. E quem foram os maus da fita, adivinhem? Os pais, pois é. Recebeu tantos ovos em tantos formatos e feitios que achou que podia fazer das ofertas pequeno-almoço e lanche, afinal de contas na cabeça dele aquilo tinha-lhe sido oferecido e era para consumo. Chorava e fazia birras por lhe negarmos chocolate todos os dias e não compreendia o porquê. “Felizmente” algumas dores de barriga causadas pelos excessos e por algumas cedências nossas daqueles dias ajudaram a que, com o tempo, ele percebesse que doces a mais lhe faziam mal à barriga e que não se podem comer todos os dias. Chegou a receber ovos Kinder depois disso e a abrir só o brinde, aprendeu, a custo, a lição da moderação. No entanto, tudo isto era evitável com apenas um passo simples, que (quase) ninguém faz – perguntar aos pais se se pode dar chocolate à criança. Basta i-s-t-o!
Não sou fundamentalista nem rígida com a alimentação dele, mas sou do tipo cuidadosa e ponderada. Os chocolates não são nenhum veneno e até existem estudos que comprovam que podem ser benéficos na aprendizagem e fonte de energia, mas devem ser consumidos com moderação e no caso das crianças que não têm know how para perceber onde e quando os podem comer, o papel de decisão e educação alimentar está todo centrado nos adultos. Já para não falar das taxas de obesidade infantil que toda a gente lê nas gordas dos jornais, mas na hora de oferecer doces às crianças varrem-se da memória. Por isso, deixo o alerta e o apelo a quem convive de perto com crianças, e acredito que estou a dar voz a alguns pais: não ofereçam chocolates ou guloseimas sem antes perguntar aos pais. Não sabem se a criança já comeu algum naquele dia, não sabem se está de castigo, se tem alguma alergia não declarada, se tem problemas de glicémia, se é hiperativa, etc, etc.
Chocolates sim, com hora certa, conta e medida! Deixem ser os pais a decidir!

Não alimentem o meu filho de chocolates, por favor! 



Dor no braço, sufoco na garganta, sensação de desmaio, alienação da realidade, picadas pelo corpo, dores musculares, falta de ar. Uns dias tudo junto, outros dias só peças soltas. Assim foram os últimos 4 anos da minha vida: a viver felicidade da maternidade na sombra de um corpo ansioso desejoso de se libertar e voltar a fazer o dia a dia sem medos.  

Um estudo feito na Universidade Monash, na Austrália, mostrou que aproximadamente um terço das mães de primeira viagem (33%) sofre de ansiedade após o nascimento do bebé. Não gosto, mas faço parte do pesadelo que compõe estas estatísticas. Os primeiros meses pós-parto foram calmos, mas logo após o Duarte entrar para a creche e regressar ao trabalho ela, que já tinha vivido em mim anos antes, voltou. Terá sido o sentimento de separação que a despertou? Nunca vou ter a certeza disso. Sentia que estava preparada para isso, será que o meu subconsciente não estava? 

E assim, subitamente e de forma matreira (como só ela sabe ser), vieram novos sintomas, nunca antes sentidos, juntamente com descontrolo emocional que me fez procurar de imediato ajuda especializada. Tinha um bebé para criar e ver crescer, não podia ficar à espera que ela me destruí-se os sonhos. 

Senti-me muito em baixo, chorei muito, reclamei com a vida, não vou negar. Os medos, a medicação diária, as consultas regulares, tudo o que já tinha ficado uma vez no passado estava de volta ao meu diário. Estava livre há anos, tantos anos que tê-la de volta foi como uma derrota pessoal. Um dia li que a ansiedade não tem cura e é para toda a vida. No meu caso, não sei se foi a maternidade que a voltou a acordar ou se este ciclo vicioso que dizem que ela tem, mas tive que voltar a por a armadura de ferro e lutar contra ela.

Existem várias teorias acerca do que causa ansiedade tais como factores hereditários, carga genética, casos familiares, alterações no cérebro, estilo de vida agitado, uma experiência perturbadora no passado e até há quem defenda que se pode adquirir no nascimento, durante o parto... todas as hipóteses são válidas, mas nunca me encontrei em nenhuma. Gosto do ritmo urbano e da agitação em detrimento do silêncio (quase sempre), não existem antecedentes familiares conhecidos, nasci de parto normal, não me recordo de nada perturbador na infância, se calhar tenho só uma peça extra no cérebro que me faz disparar o coração quando menos espero. Se calhar esta vou ser sempre eu, uns dias calmaria outros dias furacão. 

Desanimei quando ela regressou, mas, tal como da primeira vez, não desisti -  nem nunca vou desistir! E é por esta persistência que me encontro agora na estaca zero, livre da ansiedade, livre da medicação - finalmente! 

Se vos pareci derrotista nos primeiros parágrafos, desenganem-se, fui só factual. E ao contrário do que possa parecer, este texto não é uma lamentação, mas sim uma superação. Neste momento, estou livre da ansiedade - livre! Só quem passa por ela sabe a dimensão desta frase - a melhor que escrevi nos últimos tempos.

Permitam-me a celebração pública e o encorajamento: se são mães, se estão grávidas ou a pensar engravidar e estão a lutar contra ela mantenham a cabeça erguida, as horas de sono em dia, as rotinas sociais, as consultas de acompanhamento, os desabafos sobre ela (mesmo quando ninguém que nos rodeia tem capacidade para perceber o que são estes sintomas silenciosos), os passeios em família, as escapadinhas, a vida profissional, o ginásio ou o que vos fizer sentir aliviadas. Não se isolem, não façam da cama sofá, não se entreguem à bola de neve de sintomas, ela pode tornar-se gigantesca, e acima de tudo, não deixem de viver a vida. Libertem-se todos os dias mais um bocadinho, avancem mais um passo, estiquem mais o braço. Por mais que demore, aguentem! Eu já a chutei para canto duas vezes. E se ela voltar, dou-lhe mais um pontapé de saída.




Pensei muito sobre revelar ou não este detalhe da nossa vida. Detalhe, porque para nós, não é mais do que isso, mas é o suficiente para nos tornar uma família diferente. Não tenho vergonha alguma das minhas origens (aprendi desde cedo a respeitar o próximo), mas sei que por ter sido educada e criada noutra religião tive sempre que lidar com a diferença e fui alvo das típicas piadas fáceis e cruéis dos miúdos. Com a idade (felizmente) aprendi a desvalorizar e também aprendi a não me diminuir – por ser diferente não sou menos do que ninguém. No entanto sou sensível e sei que este texto também pode originar um sem fim de comentários maldosos ou dar origem a juízos de valor errados sobre mim, comuns a quando alguém sai “fora do formato”. Talvez possa até perder seguidoras ou, se calhar, até vou ser surpreendida e ter pessoas do outro lado que se identificam com a situação. Para o bom e para o mau, esta sou eu, estes somos nós.
E, sendo este um espaço de vivências e partilha da vida real, resolvi dar vida a este tema, quase sempre polémico, para passar o testemunho de uma família multi-religiosa – a nossa – onde existem crenças diferentes, sem que isso seja um problema para a educação do nosso filho.

Como funciona a nossa família?
O Diogo é batizado, eu não sou (os meus pais deram-me livre arbítrio para decidir o caminho). Ele tem o crisma, eu tenho anos de estudo bíblico (os suficientes para conhecer muito bem a bíblia). Como fio condutor temos em comum o cristianismo, a fé em Deus e acreditar em Jesus, Maria e José. Ele acredita em Deus e tem fé em santos/ figuras religiosas, eu acredito que só devemos adorar a Deus – o criador de todas as coisas. Ele teve sempre Natal e festas de aniversário. Eu nunca tive e como nunca tive, nunca me fez falta. Acho que por esta altura já perceberam que os meus pais são Testemunhas de Jeová. Não sendo batizada nem praticante não tenho nenhum vínculo formalizado com nenhuma religião, mas obviamente que tendo sido educada noutra religião é para lá que “pendo” naturalmente. Como casal, temos diferenças, obvias e incontornáveis na forma de autenticar a nossa fé, mas é no bom senso que nos centramos para funcionar e para educar o Duarte – já sabíamos que ia ser assim.
O foco principal, partindo do cristianismo, está na simplificação, de forma a transmitir ao Duarte uma mensagem comum, tal e qual como quando explicamos a uma criança que por mais cores e formatos que tenhamos, somos todos o mesmo: humanos! Com a religião seguimos o mesmo molde: transmitimos ao Duarte a existência de Deus para todos. E, acima de tudo, damos-lhe as bases de respeito, igualdade e equidade para aplicar na vida futura, da forma que ele quiser.

Como encontramos equilíbrio?
Educamos com premissa de direitos iguais sobre o conhecimento de uma religião e da outra e exploramos os pontos comuns das nossas crenças. Existe Deus, que criou todas as coisas. E Deus teve um filho – Jesus Cristo – que nasceu em Jerusalém, e que é filho de José e Maria e que veio à terra para pregar a palavra e dar a vida por nós (a mesma educação moral e religiosa que se aprende na escola, sem apontar o dedo a se uma religião está mais correta em detrimento da outra, para o Duarte, por enquanto, só existe esta versão simplificada). Quando ele for mais velho, terá tempo para colocar as questões que quiser e seguir o caminho que quiser. E quando as perguntas surgirem, vamos aplicar o máximo de transparência sobre o que cada religião tem de diferente.
As datas com “maior potencial de confusão” são o Natal e os aniversários, onde só os avós paternos comemoram e dão presentes. Os meus pais por sua vez presenteiam-no noutras alturas (bom comportamento, festa de final de ano da escola, almoços de família, etc.). Acaba por ser um sortudo pois recebe presentes o ano inteiro, com conta e medida. Fora isso, temos aquilo que eu vou chamar de “zona neutra” para as outras ocasiões, por exemplo, casámos pelo registo para que todos pudessem aproveitar a festa de igual forma e optamos por não batizar o Duarte para que o possa fazer mais tarde, caso seja a sua vontade.

A regra de ouro… focar no que realmente importa!
Numa altura em que o mundo é, lamentavelmente, mais uma batalha de ideais políticos, económicos e religiosos não devemos perder o foco essencial da existência do ser humano – o respeito pelo próximo. E para isso existe apenas uma fórmula que nem precisava vir escrita na bíblia – (educar para a) igualdade. Educar sem alcunhas, educar sem apontar o dedo, educar sem diferenciação de “aquele é isto” e “tu és aquilo”. No fundo, é só isto, incutir na geração futura uma consciência de vida multicultural com respeito multirreligioso (e não vamos trazer para este saco o Daesh, ok? Não vamos confundir a religião muçulmana com grupos terroristas).  
Estes somos nós!




Todas as vezes que nos sentamos no consultório da pediatra do Duarte para consulta de rotina, surge a mesma pergunta do outro lado da secretária:
- Então e onde é que o Duarte dorme?
- Na nossa cama (respondemos, com desvergonha, essa fase já vai longe)
- Existe alguma razão? (pergunta ela)
- Porque ele gosta, e nós também (respondemos nós)
- Tudo bem, desde que estejam todos felizes com essa escolha é o que importa (…).

Gosto dela. Da nossa Dra. Rita. Não faz juízos de valor. Não lança olhares reprovadores. Faz-nos sentir pessoas normais dentro da nossa opção. E não é o que somos? Pessoais normais cheias de amor pelo ser humano que originámos. Se queremos dormir todos juntos em matilha, que assim seja. Não estamos a cometer nenhum crime contra a humanidade. Aliás, nos tempos antigos era assim que as famílias dormiam. As mães ficavam junto dos bebés para amamentar. Foram as mudanças culturais, sociais e antropológicas que “empurraram” os miúdos para os seus próprios quartos.
Atenção, não tenho nada contra quem coloca os filhos para dormir nos próprios quartos, pelo contrário, até admiro, pois nunca fui capaz de criar (ainda) essa rotina e acredito piamente que depois de criado o hábito todos podemos dormir descansados. Mas, por enquanto, a verdade é que me sabe muito bem tê-lo por perto. Ali aninhado a mim.
Vejo o co-sleeping como um facilitador dos nossos sonos. O Duarte sempre adormeceu tarde, nos primeiros meses não me lembro de um único dia em que ele tenha adormecido à “hora dos bebés”, agora, só dorme a horas quando tem um dia super cansativo, e para ser super cansativo tem que envolver atividades extra, futebol, ginástica ou natação, só a creche não chega para o fazer “tombar”.
Para algumas pessoas co-sleeping é um problema, para outras é um segredo bem guardado ou uma vergonha da maternidade que preferem esconder. Parece que há uma obrigação em sermos pais perfeitos, que cumprem tudo by the book. Tou nem aí. É certo que os miúdos se mexem muito, transpiram muito, fazem barulhitos de toda a espécie a dormir, têm pesadelos, geram noites mal dormidas. Bom… por essa logica na cama deles isso tudo também acontece e também temos que nos levantar para os ir monitorizar.  
Por enquanto, estamos bem assim. Já me habituei a ter aquele 3º corpo entre nós. A sentir as mãos gordinhas dele a tocar no meu rosto quando quer adormecer, tipo lapa. A acordar e ficar a contempla-lo enquanto ainda dorme. E sei que já não durará muito mais. Percebo isso sempre que acordo e realizo que antes ele preenchia um espaço mínimo na cama e agora já temos que nos ajeitar melhor para cabermos todos. Ele está a crescer e nos estamos a queimar os últimos cartuchos deste nosso capricho.

A maternidade é feita de escolhas e de experimentalismo. Mais acertadas ou não. Esta foi a nossa escolha. É por opção que o fazemos e acredito que existam muitos mais casais assim. Houve uma fase em que me senti falhada por não o estar a conseguir habituar ao quarto dele. Por não lhe conseguir incutir uma rotina do sono. Sentia-me diferente e menos capaz do que as outras mães. Menos persistente, menos competente nesse aspeto da educação e da criação de hábitos. Agora, relativizo bastante este nosso hábito e até acho um disparate ter queimado alguns neurónios à conta disso. É uma escolha válida a que os pais têm direito. Além disso, o nosso co-sleeping não é imposto até porque quando queremos, colocamo-lo no quarto dele para dormir e ele fica. Simplesmente preferimos assim, uns dias tudo ao molho, outros dias (poucos) em quartos separados.
E as consequências? Será que as há? Não nego, nem afirmo. Não tenho conhecimento para tal, não é a minha área. Sei apenas que comigo a questão do sono foi dura. A minha mãe sempre me habituou a dormir sozinha e não foi por isso que não tive pesadelos. Ganhei fobia ao escuro, passei a ter medo de estar no meu quarto e dei muitas noites mal dormidas aos meus pais à conta disso. Ela fez comigo o que achou correto e o que a sociedade lhe impôs – um berço, um quarto, um sitio próprio - rotinou-me para dormir no meu quarto, cumpriu o protocolo todo e nunca correu bem. Já era adolescente e ainda lhe pedia para ela vir para a minha cama. Por isso, não acredito que por estar a fazer o oposto isso possa de facto originar consequências. Conheço os riscos, mas cada ser humano é único e não existem ciências absolutas do sono.
Sabem como termina a frase da Dra. Rita? É clichê, mas pura verdade:
- (…) nunca vi um miúdo dormir até aos 18 anos com os pais (conclui).
Simples assim.





Não tenho dúvidas de que a amamentação natural é a melhor opção para a mãe e para o bebé. Para o bebé, menos cólicas (no caso do Duarte graças-a-Deus foram inexistentes), mais defesas, mais nutrientes, e para a mãe, uma super-ajuda na recuperação pós-parto. Senti na pele todos esses benefícios, como se a cada refeição dele o meu corpo fosse mais uns centímetros ao lugar. Sou pelas coisas naturais, acredito que tudo tem uma razão de ser e que se nós mulheres nascemos com essa capacidade extra é porque estamos à altura de a desempenhar. Sou pro-amamentação, mas não sou, no entanto, fundamentalista da amamentação natural, defendo que essa é uma opção e um direito individual de cada mulher. E, depois de ter passado pela experiência da amamentação natural, mais certezas tenho disso. Arrisco dizer que coloco em dúvida a amamentação natural num segundo filho e não quero saber se acham isso um ato egoísta ou não. Para o filho estar bem, a mãe também tem que estar.

O Duarte nasceu com peso acima da média, a balança bateu nos 4.090kg e anunciaram-me um bebé de percentil 90. Foi uma surpresa para mim pois as ecografias estimavam um bebé de 3.600kg. No recobro, não lhe pude pegar e já contei porque no artigo anterior, mas felizmente no meio de tanta turbulência ele pegou logo bem na mama e fui incentivada – e bem - a amamenta-lo. Ele parecia ter 1 mês de vida, eu tinha leite e estava fora de questão precisar de suplemento.

No entanto, a minha experiência de amamentação tem tanto de sucesso (com 1 mês de vida o Duarte já tinha mais de 5kg) como de sacrifício. A amamentação teve para mim um dark side que se revelou um pesadelo diário. E não estou a falar do peito gretado que nos faz correr as lágrimas e morder os lábios a cada pega, nem do peito rijo e encaroçado, a anunciar uma mastite, que tantas vezes tive que combater com água quente, massagens e óleo de amêndoas doces. Nunca foi fácil manter o peito saudável. Amamentei o Duarte até aos 6 meses e não houve mês que não tivesse um episódio de ameaça de mastite, acompanhado de muitas dores.

Mas o meu dark side não foi esse. Imaginem terem que reanimar o vosso filho durante a amamentação? Foi isso que me aconteceu durante os primeiros meses de vida dele. O Duarte começou a sufocar quando mamava, é o chamado “afogamento com leite materno” e eu tive que lhe fazer várias vezes a manobra de reanimação que – (in)felizmente - aprendi no curso de preparação para o parto. Aquilo que começou por ser um prazer e uma conexão entre mãe e filho tornou-se um pesadelo diário para mim. Comecei a ter cólicas e suores quando ele chorava com fome, pois já sabia o que se ia seguir: ele mamava, a meio começava a ficar roxo e sem respirar e eu tinha que lhe fazer a manobra de reanimação, com uns nervos que nem como o pânico não se apoderou de mim. E digo-vos, é do caraças ter que fazer isto ao nosso filho vezes sem conta. Apetece-nos rogar pragas á amamentação e ao papel de mãe. Temos literalmente a vida deles nas mãos. E vocês pensam, porque não mudei para o biberão? Porque o problema não era da mama, o problema era dele, era trapalhão, não dominava o processo de sucção, engasgava-se e tinha dificuldade em resolver sozinho.

Nunca me vou esquecer de um episodio em que após o alimentar estava a descer as escadas com ele ao colo para ir abrir a porta à madrinha que nos vinha visitar e, ali, no meio das escadas, ele começou a ficar aflito, a mudar de cor, e tive que o virar ao contrário e dar palmadas nas costas para lhe desobstruir as vias aéreas. Eu mal tinha posição, as nossas escadas são ingremes e estreitas, as minhas pernas tremiam, mas aí dele que não recuperasse o fôlego ali naqueles segundos. Os especialistas recomendam ter calma, mas nenhuma mãe consegue ter calma e sangue frio suficiente para ver o bebé engasgado e procurar a melhor posição, o local mais adequado ou o raio que o parta. Tinha que resolver todas as situações ali, na hora, onde todos os segundos contam. Quando abri a porta estava pálida e fiquei com o dia estragado. E o pior é que este foi um de muitos. Como é que não se chora no momento? Como é que se arranca isto da memória?

Um dos motivos que podem levar os bebés ao “afogamento com leite materno” é a posição durante a mamada ou o volume de leite disponibilizado pela mãe. Basta um erro de respiração para desencadear um engasgo destes.  Agora, com mais distância e mais informação sobre o tema, percebo que é comum e que não costuma trazer consequências negativas para a saúde dos pequenos. Ainda assim, há coisas que ficam marcadas para a vida.

Não quero com este desabafo ser alarmista nem assustar ninguém, muito menos desencorajar a amamentação natural, mas acho que quanto mais informação temos mais preparadas estamos. Para mim, foi muito útil ter feito este tipo de preparação no curso de pré-parto. Os especialistas dizem que por norma os bebés se conseguem auto desengasgar. Eu não sabia disso e a frequência era tanta que nem queria esperar para ver. Mas também aconselham a recorrer ao pediatra caso sejam muito frequentes para se fazerem exames mais completos.

Em todo o caso, deixo-vos um gráfico útil com os procedimentos a adotar:


Beijos,
Raquel

Ressalva nº 1 - artigo não aconselhável a grávidas!
Ressalva nº 2 - se ignorarem a ressalva nº 1 não se queixem no fim!
Ressalva nº 3 - é um artigo de um parto real, sem floreados e sem filtros!
Sendo uma grávida com histórico de TAG (Síndrome de Ansiedade Generalizada) posso dizer que a gravidez me deu uma paz e uma tranquilidade que nunca tinha atingido. Fui a verdadeira grávida feliz, que tirava orgulhosamente fotos semanais à barriga, que celebrava cada ecografia e que engordou sem piedade 23 kg. Nunca precisei de medicação para a ansiedade (ao contrário de agora), apenas ferro para uma anemia ligeira que teimou em acompanhar-me a partir das 30 semanas. Posso afirmar que vivi a gravidez em pleno estado de graça e isso tranquilizou-me bastante para o parto - e ainda bem!

Idealizei, talvez mal, que o parto iriam ser apenas umas horas de dores fortes na minha vida em prol de um amor maior - desta última parte não tenho dúvidas. O que nunca me passou pela cabeça foi que pudesse levar 36 horas para dilatar, coisa como 1 dia e meio com dores de diferente intensidade até finalmente ir parar ao bloco de partos. Tive inclusivamente amigas a perguntar se me tinha esquecido do que fui lá fazer? Sim, podem rir.

O primeiro sintoma após as primeiras 24h sem dilatar foi de desmotivação e choro, chorei compulsivamente e sempre que me diziam que isso só piorava e atrasava o parto, ainda chorava mais qual criança a quem tiraram o chupa-chupa - as hormonas da gravidez são #aquelapalavracomF. O segundo, a fome e sede, 36 horas de vida a meia dúzia de chás e 3 bolachas Maria é coisa que deixa uma pessoa fraquinha, nem com soro a coisa melhora. São procedimentos médicos que respeito, mas acho que um petisco me tinha ajudado, nem que fosse para acalmar os nervos.  

E eis o resumo cronológico que escrevi em 2013:

Sábado - 19 de janeiro- 23h55 
Entrada no hospital com contracções dolorosas de 5 em 5m comprovadas no CTG, dilatação de 1 dedo e meio. Seguimos para o bloco de partos, avisamos a família e os amigos a acreditar que o Duarte estava por horas de dizer "Olá" ao mundo. Evolução zero, passei a noite agarrada às dores sem dilatar. 

Domingo - 20 Janeiro -  8h30 
A equipa médica toma a decisão - certa, pois estava a ocupar um bloco de partos - de me mandar para uma sala de internamento devido à falta de dilatação. De imediato, as contracções diminuíram de intensidade e passei um dia normal no quarto, a chá e bolachas, com visitas da família, como se tivesse lá por outro motivo qualquer, só que acompanhada por dores e contracções para ter um bebé. Creio que tive um falso início de trabalho de parto.

Andei muito pelo corredor do hospital e cruzei-me com outras grávidas na mesma situação... o que me dava algum ânimo #juntasfazemosaforça.

20h00 
O fim das visitas e o anúncio de que o Diogo não poderia ficar comigo na sala de internamento. Teria que ir para casa esperar por novas indicações. Choradeira pegada, compulsiva, logo eu que que odeio a solidão. Tida idealizado tudo a dois, fiquei sem chão e sem porto seguro naquele momento.  

20h30
Começou a festa à séria (precisamente quando fiquei sozinha). Contracções dolorosas e mais dolorosas, registadas de 8m em 8m, que se prolongaram pela madrugada. Não dormi, não tinha posição para estar sentada, muito menos deitada, só me sentia "bem a andar" ou no duche e na bola de pilates (tomei vários duches rápidos para aliviar as dores, nesse aspecto considero que o Hospital Beatriz Ângelo está verdadeiramente bem equipado).

Pelo meio, telefonemas para o Diogo e para a minha cunhada a chorar, sabem quando precisamos de falar e não temos ninguém? Não os queria preocupar, mas não estava a aguentar todo aquele silencio que só era quebrado pelo choro dos bebés recém-nascidos nas salas do lado. Sou uma pessoa de conversas e não ter companhia para além da TV e do Duarte que estava a fazer o seu papel na barriga estava a destruir-me por dentro. Agora acho exagerado, acho que sou capaz de aguentar isso e muito mais, mas experienciem as hormonas da gravidez uma vez na vida e depois falamos.   

03h00 
Peço à enfermeira para me ligar ao CTG, aquelas dores que me atingiam a barriga e as costas tinham que ser alguma coisa... o aparelho não detetava "nada de mais" e a equipa médica nunca apareceu. Pensei "serei eu uma mariquinhas"?

As dores continuaram iguais noite fora... muitas dores (assumo que chamei pela minha mãe em silencio enquanto cerrava dos dentes). Administraram-me paramentamol algumas vezes com zero efeito. Se a ideia era ser efeito Placebo esqueçam. 

Continuaram igualmente fortes... tomei mais um duche... e mais um... seguiu-se mais um CTG...
1 hora depois outro e as dores permaneciam tal e qual e as contracções idem ( 8m em 8m).

Passei o resto da madrugada a andar pelo corredor do hospital, era a segunda noite em branco... num misto de ansiedade com exaustão. 

Segunda-feira - 21 de janeiro - 10h30
A médica obstetra aparece para ver a dilatação, pela primeira vez em toda a noite fui vista por um médico - 4 dedos - ordem imediata para seguir para o bloco de partos (estava perto do limite para ainda puder levar a epidural) e chamar o Diogo! Telefonei para ele e depois para a minha mãe, louca de felicidade, a dar a boa nova - finalmente! 

Já no bloco, o enfermeiro parteiro (de uma simpatia pura) confidencia-me que em alguns casos é assim, as contracções são espaçadas e a dilatação acontece na mesma, eu bem pedi para ser vista durante a noite... fiquei com a desagradável ideia de que por ser domingo não havia equipa médica suficiente para me ver e que fui arrastada até segunda-feira de manhã, posso estar a cometer uma enorme injustiça, mas foram muitas horas sem ver um único médico e acreditem que não estou a dramatizar. 

O PARTO (se aguentaram firme até aqui, agora não sejam mariquinhas) – 13h27

Já na marquesa mais um toque para confirmar a dilatação e o enfermeiro informa-me de que me irá rebentar as águas. Procedimento fácil, sem dores acrescidas e novo toque. Pergunta-me se acho necessária a administração da epidural uma vez que verifica que aguento bem os suartigoos toques dolorosos sem me queixar (ah, afinal não fui assim tão mariquinhas!). A resartigoa óbvia depois de toda a odisseia até chegar ao bloco foi - SIM!  

Recebi a epidural ainda com contrações espaçadas de 8m em 8m, o que deu tempo para me colocarem o cateter sem ter uma única dor e depois o paraíso, adeus dores, olá dilatação completa supersónica. Tive que pedir para apressarem o Diogo para chegar ao hospital porque o puto agora tinha o turbo ligado e a equipa na sala previa que a expulsão fosse rápida (not). Após várias tentativas de expulsão e uma tentativa de rodar o Duarte (que doeu mais do que qualquer uma das contracções) chegou a decisão dos enfermeiros parteiros chamarem uma Obstetra ao bloco para que ele fosse retirado com ventosas. Levei nesse momento a 2ª dose do soro do paraíso.  O Diogo não pôde assistir a essa parte, mas 1 minuto depois já estava com o Duarte nos braços a namorá-lo enquanto eu era tratada. 

Pensava que era o culminar de todo o esforço, estava em êxtase total e não tirava os olhos do Duarte, "o meu Duarte!" até que oiço "esta mamã está a perder muito sangue" e seguiu-se uma hipotensão gigante (5-3), aparelhos a apitar e falta de ar. Fui entubada e administraram-me as drogas certas para voltar a mim. Não tive oportunidade de agarrar o Duarte, nem tenho a foto típica do bebé no peito da mãe depois de nascer. Renasci ali, para a vida e como mãe, do tão desejado bebé, que chegou "just in time", às 40 semanas, com 4.090kg e 52cm.

Finalmente no recobro consegui amamentá-lo, contemplá-lo e pegar nele pela primeira vez. Seguiram-se muitos desmaios no levante, exames para validar a necessidade de uma transfusão de sangue e 2 meses em casa a tomar ferro para fortalecer o sistema imunitário.  No hospital não pude ir dar o primeiro banhinho ao Duarte, vi as enfermeiras fazê-lo por mim, enquanto me davam dicas de como pegar nele. O Duarte teve alta antes de mim, e confesso que me fiz de mais forte do que aquilo que estava perante a médica para ela me dar a alta. Só queria ir para casa ao mesmo tempo que o meu bebé. Lutei por mim e pela minha função de mãe, e mesmo com muitos momentos de fraqueza que sentia após amamentar, consegui alcançar a meta dos 6 meses de amamentação natural.

Não foi fácil, não voltava atrás na decisão de ter sido mãe por nada deste mundo, mas acho que, no mínimo, já perceberam porque é que o Duarte ainda é filho único! Mas dizem que à segunda é mais fácil, não é?